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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sábado, 1 de abril de 2023

Cine Especial: Clube de Cinema de Porto Alegre - 'Morangos Silvestres'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 26/03/23 

O ano de 1957 foi o ano de Ingmar Bergman. Quando se pensa em cinema Sueco logo vem a nossa mente as suas obras e das quais são verdadeiras aulas de como se faz um bom cinema. Pode ter surgido outros cineastas daquele país com uma visão autoral definida, mas nenhuma supera a criatividade deste realizador.

Naquele ano ele lançaria um dos melhores filmes de todos os tempos, "Sétimo Selo", do qual testemunhamos um cavaleiro das Cruzadas (Max Von Sydow) tendo que encarar o fato que será levado muito em breve pela Morte (Bengt Ekerot). Porém, para evitar o seu fim, o cavaleiro desafia a própria Morte em um jogo de xadrez e fazendo deste jogo um dos grandes momentos da história do cinema. Vida, fé e morte eram assuntos sempre alinhado dentro dos trabalhos de Bergman, sendo que talvez seja algo que o afligia e fazendo com que as realizações dos seus roteiros fossem uma forma de exorcizar os seus demônios.

Mas a sua genialidade não se limitava em um único filme, ao ponto que no mesmo ano ele lançaria aquele que, talvez, seja a sua obra mais pessoal que foi "Morangos Silvestres". Tendo elaborado a trama na época em que estava no hospital, Berman somente realizaria esse projeto se caso conseguisse contratar o veterano ator Victor Sjöstrom para ser o protagonista, pois ele não imaginava outro intérprete a não ser ele. Embora relutante,  Sjöstrom aceitou interpretar o papel e do qual o mesmo se tornaria o mais conhecido de toda a sua carreira.

O filme conta a história de  Isak Borg (Victor Sjöström), um professor de medicina que revisita vários momentos marcantes de seu passado durante uma viagem de carro até sua antiga universidade, onde ele irá receber uma honraria. Acompanhado de sua nora Marianne (Ingrid Thulin) ele evoca memória de sua família e de sua ex-namorada. Durante a viagem ele conhece uma garota adolescente que em muito se assemelha a Sara (Bibi Andersson), seu antigo amor. A jovem pega carona com o professor e Marianne. Quanto mais Borg recorda as decepções e desilusões que viveu, mas ele se sente frio e cheio de culpa. Esses sentimentos se afloram quando ele encontra seu filho, igualmente frio e ressentido.

Pelo que me lembro eu somente havia assistido ao filme umas duas vezes na minha vida, sendo que a última vez que havia visto foi para fazer parte do curso "Cinema e Psicanálise" pelo Cine Um. Revendo agora pelo Clube de Cinema de Porto Alegre percebo que "Morangos Silvestres" é aquele filme que nós lembramos de uma forma, quando na verdade ele se transforma por completo quando o revisitamos e fazendo a gente obter a sensação de que estamos assistindo pela primeira vez. Porém, independente de quantas vezes eu vi, há uma cena que sempre me lembrarei que é com relação abertura.

Nela,  Isak Borg está sonhando que está caminhando pela rua, onde ele testemunha olhos lhe observando, assim como um curioso relógio sem ponteiros e um homem sem rosto que logo em seguida se desmancha na calçada de forma misteriosa. Logo depois, chega uma carruagem que quase lhe atropela e cuja mesma acaba perdendo uma roda e fazendo com que um caixão saia dentro dela. O protagonista então testemunha o que há dentro do caixão, sendo que é ele próprio e logo em seguida acorda desse possível, ou não, pesadelo.

Essa cena, talvez, seja uma das que mais foram analisadas ao longo da história, sendo que ela nos lembra em alguns momentos as melhores pinturas de Salvador Dalí, ou das teorias de Freud que nos fazem pensar.  No primeiro caso, por exemplo, Salvador Dalí já havia sido lembrado em títulos como "Um Cão Andaluz" (1929) ou "Quando Fala o Coração" (1945), mas aqui, embora possa não parecer para muitos, eu enxergo naquele cenário que Bergman criou toda a genialidade máxima que Dalí havia criado com relação as imagens que testemunhamos quando todos nós dormimos.

O filme pode também ser interpretado como um "road movie", já que vemos o protagonista testemunhando algo muito além do que uma mera viagem. Há aqui um cruzamento de gerações, sendo que o protagonista vem de uma época mais conservadora, enquanto a geração nova apresentada na trama se empenha em ter opinião própria. Se por um lado temos a nora Marianne que enfrenta um dilema interior e do qual ela se acha no direito de ter que decidir, do outro, temos a jovem Sara que surge do nada durante a viagem e que leva consigo dois futuros pretendentes, mas se preocupando mais com a sua liberdade. Sara, aliás, faz com que o protagonista se lembre de tempos mais inocentes, onde era apaixonado pela sua prima, mas tendo perdido ela ao longo da história.

Essa passagem é bastante curiosa, já que vemos o protagonista adentrar em seus próprios pensamentos, como se ele quisesse impedir que alguns acontecimentos jamais tivessem acontecido, mas que nada poderia ser feito. Curiosamente, essa passagem me lembrou do filme brasileiro "Amor Estranho Amor" (1982), de Walter Hugo Khouri, sendo que o mesmo sempre se declarou como grande fã do realizador sueco e se alguém dúvida basta assistir "Noite Vazia" (1964) para capitar certa semelhante com as obras de Bergman. Voltando ao filme, a trama começa a transitar ainda mais entre sonhos, pensamentos e fazendo a gente chegar à conclusão de que, talvez, o protagonista esteja buscando a redenção, mas da qual nunca havia chegado.

O filme fala sobre os sentimentos de culpa e dos quais nos assombra ao longo da vida. Bergman procura nos dizer que esse sentimento sempre estará com a gente e do qual não podemos voltar no tempo para repará-lo e fazendo com que esse meu pensamento se case com a figura do relógio sem ponteiros, já que não há como retrocedê-lo. Por conta disso, a morte se torna ainda mais nítida para o protagonista, mesmo quando a gente não testemunha ela em cena, mas sentimos em sua volta.

A redenção, talvez, se encontre no fato do protagonista em tentar fazer do seu filho (Gunnar Björnstrand) alguém melhor para a sua nora, mesmo quando dá indícios que isso possa parecer impossível. Porém, as personagens femininas interpretadas aqui por Bibi Andersson e Ingrid Thulin demonstram ter personalidades próprias, força interior em abundância e sabendo sobreviver perante o machismo que ainda era muito aflorado naqueles tempos longínquos. A figura da mulher com personalidade forte seria ainda mais explorada em seus filmes posteriores e dos quais a maioria seriam protagonizados pela sua musa Liv Ullmann.

Ao final, constatamos que o protagonista aceita que não há mais volta para tempos mais dourados, dos quais poderiam até terem sido diferentes, mas dos quais ele soube com o tempo aceitar os seus próprios erros e dos quais estava-lhe pesando ao longo do enredo. O sentimento de culpa seria algo que Bergman iria cada vez mais explorar nos seus filmes a seguir, como no caso, por exemplo, do enigmático "A Hora do Lobo" (1967), mas não de uma forma tão perfeita e complexa como essa. Portanto, Ingmar Bergman é um cineasta que sempre fará falta.

"Morangos Silvestres" é sobre sonhos, lembranças e culpa e tudo tendo sido alinhado pelas mãos artísticas Ingmar Berman.   


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