Sinopse: O longa acompanha o luto e as tentativas de recomeçar de Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que, após a morte da esposa, tenta preservar sua autonomia escrevendo um livro e vivendo um novo amor.
Reginaldo Faria é um ator que se consagrou em clássicos como "Assalto ao Trem Pagador" (1962) e em "Pra Frente, Brasil" (1982). Porém, a minha memória mais antiga sobre ele é de tê-lo conhecido atuando em novelas como Vamp (1991). "Em Perto do Sol é Mais Claro" (2026), ele não somente nos brinda com um dos seus melhores trabalhos recentes, como também desperta o desejo de ir em busca dos seus outros feitos.
Dirigido pelo seu filho Régis Faria, o filme acompanha o luto e as tentativas de recomeçar de Rêgi (Reginaldo Faria), um engenheiro de 85 anos, após perder a esposa. Com o apoio dos filhos e a própria determinação para seguir em frente, Rêgi tenta escapar de sua rotina solitária escrevendo um livro e até se apaixonando por uma atriz. Na medida em que o tempo avança, o protagonista procura equilibrar a sua vida entre ganhos e perdas.
Fui assistir ao filme sem informação, o que aumentou ainda mais a minha experiência, pois, em um determinado momento, achei que não estava vendo o personagem em si, mas sim o próprio Reginaldo Faria sendo ele mesmo em cena. O que não deixa de ser, ao menos em parte, verdade, já que a ideia para a criação do longa surgiu no momento em que o ator e seus filhos ficaram mais próximos durante a pandemia, e o projeto começou a brotar a partir dessa fase sombria. O longa pode até ser uma ficção, mas traz uma parte essencial sobre a pessoa de Reginaldo Faria, como ele é perante um mundo atual sempre em metamorfose e na luta árdua para se manter firme diante da velhice.
No primeiro ato, vemos a apresentação gradual do personagem dentro de sua casa, desde o colocar em prática as rotinas básicas do seu dia a dia até ter que administrar os incômodos de um prédio que está sendo construído ao lado. Ao mesmo tempo, ele procura escrever um livro, e é nesse ponto que vemos o embate de um homem veterano com as novas tecnologias, que às vezes mais atrapalham do que ajudam. Curiosamente, o filme chega em uma fase em que o cinema tem abordado bastante essa temática, fazendo com que o espectador reflita sobre esse ponto específico.
Com uma belíssima fotografia em preto e branco, o filme pertence a Reginaldo Faria como um todo, pois a sua expressão e o modo como ele constrói a personalidade forte de um veterano perante a sua realidade sintetizam muito bem isso. A melancolia, por sua vez, é representada pela ausência de sua falecida esposa, assim como pela relação com os filhos, que são ocupados demais para compreender as reais necessidades de alguém que ainda tem muito a oferecer. Destaque para Marcelo Faria, filho do protagonista na vida real, que busca compreender o pai, mas não esconde no olhar a consciência de que será alguém como ele um dia.
Curiosamente, da melancolia do primeiro ato para o segundo em diante, o longa obtém pinceladas mais otimistas na medida em que o protagonista se mantém firme no que acredita. Isso se fortifica ainda mais quando ele começa a namorar uma atriz de teatro, interpretada por Vanessa Gerbelli, cuja interpretação, assim como a do protagonista, parece carregar uma parte de si mesma. Além disso, a sua personagem é a representação de uma geração de artistas que procuram manter os seus sonhos, mas que caem na tentação das novas tecnologias para obter reconhecimento.
É a partir dessa relação que o filme nos diz que o reconhecimento talvez não venha através de curtidas para obter a tão desejada fama instantânea, mas sim através de um trabalho árduo e de histórias que podem servir de exemplo para as gerações futuras. O ato final pode até ser esperançoso demais, mas, como o restante do filme já havia nos conquistado, esse mero detalhe acaba passando despercebido. Nunca é tarde demais para um veterano de longa data nos transmitir um belo exemplo.
"Perto do Sol é Mais Claro" transita com muita sensibilidade entre o melancólico e o lado revigorante de alguém que ainda tem muito a oferecer.
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