Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Obsessão'

Sinopse: Jovem tímido é apaixonado por Nikki, sua melhor amiga e colega de trabalho. Ao usar um artefato chamado "Salgueiro dos Desejos", ele pede que ela o ame incondicionalmente. O desejo se realiza, mas a situação sai completamente do controle.

É interessante observar que alguns dos melhores filmes de terror lançados nos últimos anos foram realizados por diretores vindos da comédia. Jordan Peele se consagrou na direção a partir de "Corra!" (2017), assim como John Krasinski ao realizar "Um Lugar Silencioso" (2018). Porém, há também uma nova leva de realizadores de curtas-metragens no YouTube que tem chamado atenção pela criatividade.

Os irmãos Michael e Danny Philippou saíram desses canais para obter o estrelato na direção, criando filmes de horror surpreendentes como "Fale Comigo" (2023) e, mais recentemente, "Faça Ela Voltar" (2025). Curiosamente, são cineastas que também exploravam o humor, mas obtiveram consagração ao usar a inventividade e orçamentos curtos para elaborar histórias de horror. Seguindo o mesmo caminho, temos Curry Barker estreando com o seu Obsessão (2026), longa de orçamento apertado, mas que não deve nada a outros grandes títulos do gênero.

Na trama, Bear é um romântico que trabalha em uma loja de discos e instrumentos musicais. Um dia, ele decide comprar um objeto sobrenatural conhecido como "One Wish Willow". O artefato concede um desejo ao seu portador, e Bear pede para ganhar o coração de sua amiga de infância, Nikki. O rapaz recebe exatamente o que pediu; porém, a situação foge do controle quando Nikki passa a demonstrar sinais de uma obsessão extrema pelo relacionamento.

Recentemente, foi anunciado que Curry Barker assumiria a direção de uma nova versão do clássico "O Massacre da Serra Elétrica" (1974), logo após Obsessão obter elogios da crítica nos festivais por onde passou. Embora este seja o seu primeiro grande sucesso, é preciso reconhecer que o jovem diretor faz um trabalho primoroso em termos de suspense e horror psicológico. O filme transita por elementos sobrenaturais, mas confere um peso maior a uma realidade verossímil, mesmo diante dos absurdos que acontecem no decorrer da história. O grande destaque, contudo, é a sua decupagem e forma de filmar.

Desde o primeiro ao último plano, o realizador cria enquadramentos que prendem a nossa atenção, principalmente por sempre inserir algo ao fundo do cenário, sugerindo que há algo a mais acontecendo em cena. Não há como negar que Barker utiliza os velhos ingredientes do sucesso do horror: desde aparições surpresas que provocam verdadeiros sustos até aqueles típicos vultos que identificamos em cantos escuros, tornando a atmosfera mórbida, para dizer o mínimo. É uma proeza do diretor fazer relembrar não somente franquias do universo de Invocação do Mal, como também longas que incomodam profundamente, como "Hereditário" (2018), cuja fotografia sombria eleva ainda mais esse sentimento de angústia.

Porém, assim como ocorre nas obras de seus colegas de profissão, é curioso constatar como o horror aqui transita facilmente para elementos de humor, proporcionando sentimentos múltiplos à medida que a trama avança. Por mais surreal que o enredo pareça, sua simplicidade é o que nos faz comprar a ideia, sobretudo pela identificação com os personagens no que diz respeito aos relacionamentos atuais. Em tempos de individualismo cada vez mais crescente na sociedade, a perspectiva de conviver com uma relação obsessiva acaba se tornando muito mais assustadora do que encarar qualquer monstro clássico escondido no armário.

É interessante notar, também, que a questão da obsessão não surge apenas a partir dos eventos sobrenaturais, mas já existia antes deles. O protagonista, Bear, transmite uma paixão quase doentia por Nikki, a ponto de não simpatizarmos com ele em um primeiro momento — afinal, no mundo real, já sabemos como esse comportamento funciona. Contudo, a partir do momento em que ele obtém o tão sonhado desejo, Nikki se torna justamente o reflexo amplificado desse sentimento que ele nutria, sintetizando o quanto ele estava errado ao cultivar essa fixação, que agora floresce nela de forma destrutiva.

Michael Johnston sai-se muito bem ao interpretar um protagonista que desperta tanto pena quanto distanciamento, já que o público não consegue abraçar a sua causa; a realização de seu desejo se transforma em um castigo que acaba afetando até mesmo as pessoas ao redor. Já a jovem Inde Navarrette consegue transitar facilmente entre a Nikki consciente de seus sentimentos e a versão possuída por um desejo incontrolável, transmitindo com precisão o fato de ser uma marionete de algo maior e fora de seu controle. Em muitos momentos, sua atuação remete a sucessos recentes como "Sorria"(2022) e até mesmo ao clássico "O Exorcista"(1973) em uma determinada cena mais mórbida.

Com orçamento curto e muita criatividade, o filme foge dos padrões convencionais do gênero e nos apresenta momentos surpreendentes. Por conta disso, é muito provável que parte do público se decepcione, já que se trata de uma história que tira o espectador de sua zona de conforto ao confrontá-lo não apenas com um mero filme sobrenatural, mas com dilemas contemporâneos sobre os relacionamentos reais. Não é todo dia que um filme de terror nos ensina que o pior horror não vem do que está atrás da porta, mas sim dos nossos sentimentos não correspondidos e do que eles podem despertar em nosso lado mais sombrio.

"Obsessão" é um filme de horror que consegue mexer com os nossos nervos ao saber alinhar o gênero fantástico ao lado mais complexo e obscuro do sentimento humano na atualidade.

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

Nenhum comentário: