Eu conheci o clássico de fantasia e aventura "Willow - Na Terra da Magia" (1988) de uma forma muito inusitada. No final dos anos oitenta, eu ainda era uma criança e não podia ir sozinho ao cinema. Conhecer o longa não foi através de trailers ou até mesmo quando o filme foi exibido pela primeira vez na TV, mas sim bebendo Toddy.
A coleção promocional do Toddy inspirada no filme consistia em miniaturas de plástico dos personagens. Logicamente era uma forma de a empresa vender bastante as suas garrafas, já que cada uma vinha com um personagem diferente. Não é preciso ser gênio para saber que o bonequinho do "Willow" foi algo difícil de achar na época, depois de diversas compras.
Anos mais tarde, fui conhecer o longa em uma determinada noite na sessão da Tela Quente, da Globo, no início dos anos 90. Para uma criança como eu, foi uma alegria conhecer finalmente do que se tratava a história, já que eu somente tinha uma noção através de um resumo que vinha atrás da embalagem do Toddy. Mas vamos à história.
Dirigido por Ron Howard, na época conhecido pela direção de "Cocoon" (1985), e produzido por George Lucas, a trama se situa em um mundo mágico, onde conhecemos Willow Ufgood (Warwick Davis), um fazendeiro e aprendiz de mago, e Madmartigan (Val Kilmer), um grande esgrimista, que saem juntos em uma jornada numa terra devastada pela magia e monstros para salvar a vida de uma pequena princesa. De acordo com a profecia, essa bebê pode dar fim ao reinado da Rainha Má que atormenta a região.
Nascido de uma ideia vinda de George Lucas, o filme surgiu em um momento em que o gênero de fantasia e aventura não estava fazendo o mesmo sucesso de antigamente, mesmo quando alguns títulos obtiveram o seu status de cult, como foi o caso do ótimo "Krull" (1983). Porém, Lucas via no projeto uma forma de não somente criar uma boa aventura à moda antiga, como também testar alguns efeitos visuais novos que estavam sendo desenvolvidos na época. O resultado, revisto hoje, nos faz perceber como o longa se tornou pioneiro com relação a alguns efeitos técnicos que hoje se tornaram rotineiros no mercado.
Com recursos do estúdio Industrial Light & Magic, o filme foi um dos primeiros a usar o recurso de morphing digital, que permitia transições fluidas, contínuas e realistas entre duas imagens diferentes em live-action, sem a necessidade de cortes de câmera ou técnicas tradicionais de sobreposição. Esse recurso foi usado na marcante cena em que a feiticeira Fin Raziel (Patricia Hayes) é transformada consecutivamente em vários animais (uma cabra, uma avestruz, um pavão, um tigre) até finalmente retornar à sua forma humana. Logicamente, o recurso foi aprimorado em filmes revolucionários como "O Exterminador do Futuro 2" (1991) e, posteriormente, "Jurassic Park" (1993).
Mesmo com esses recursos de ponta, o filme possui diversos elementos técnicos tradicionais daquela época e que, revistos hoje, ganham maior peso em cena. O imenso dragão de duas cabeças que surge no decorrer da trama foi criado através do velho e bom stop motion, mas aprimorado através de computadores, sendo rebatizado na época de go-motion. Já no departamento de maquiagem, ninguém esquece da assustadora cena em que praticamente todos os protagonistas são sucumbidos aos poderes da feiticeira malvada, transformando-se em porcos em uma clara alusão ao clássico "A Odisseia", de Homero.
Visualmente, nota-se que George Lucas criou aquele universo bebendo muito da fonte da obra de J. R. R. Tolkien, ou seja, "O Senhor dos Anéis". Quando testemunhamos pela primeira vez a vila onde Willow mora, imediatamente nos vem à mente a passagem do "Condado" e dos carismáticos hobbits. Vale destacar que a produção foi pioneira ao contratar mais de duzentas pessoas com nanismo para interpretar os moradores daquele local, tornando esse momento ainda mais mágico e verossímil.
Conhecido na época por ter dado vida ao pequeno guerreiro Wicket em "Star Wars: O Retorno de Jedi" (1983), Warwick Davis obtém aqui o grande papel de sua carreira ao interpretar um jovem aprendiz de feitiços que carrega a insegurança sobre prosseguir ou não com o seu sonho. Tudo muda quando ele se torna uma espécie de herói predestinado a proteger a pequena princesa e levá-la em segurança para se tornar uma futura rainha. Qualquer semelhança com "A Jornada do Herói" de Joseph Campbell não é mera coincidência, já que essa estrutura ainda hoje serve de base para conquistar novas plateias.
Vale destacar que este foi um dos primeiros sucessos de Val Kilmer, na época colhendo os louros após ter sido coadjuvante em "Top Gun - Ases Indomáveis" (1986). O seu Madmartigan nada mais é do que um esgrimista desgarrado que não tem o menor interesse em se envolver em grandes missões, mas que, com o tempo, não tem outra escolha a não ser demonstrar o que sabe fazer de melhor com uma espada. Merece destaque também o seu par romântico, Sorsha, interpretada pela atriz Joanne Whalley, com quem viria a se casar após as filmagens.
Com personagens carismáticos, muita magia, ação e aventura, o filme acabou ganhando status de cult no decorrer dos anos, mesmo tendo tido apenas um relativo sucesso nas bilheterias na época do lançamento. Ao meu ver, as crianças sempre se identificaram com Willow: um protagonista pequeno, mas com uma força de vontade gigantesca para fazer o bem e proteger a pequena princesa frente às forças do mal. Para mim, foi uma grande aventura que começou a partir do momento em que passei a colecionar bonequinhos de plástico que vinham na garrafa de Toddy, fazendo-me embarcar em uma jornada inesquecível que marcou a minha infância como um todo.
Lançado recentemente em uma edição especial em DVD pelo selo "Obras Primas do Cinema", "Willow - Na Terra da Magia" é um grandioso clássico de aventura à moda antiga que continua conquistando o coração de várias gerações ao longo das décadas.
Faça parte:
Facebook : www.facebook.com/ccpa1948


