Sinopse: O protagonista Overman (Caco Ciocler) é um super-herói em decadência, desempregado, endividado e vivendo escondido em uma pensão de terceira categoria, preso a uma profunda crise existencial e aos seus próprios excessos.
Quando o público geral pensa em quadrinhos brasileiros, imediatamente vem à mente a "Turma da Mônica". Porém, há HQs mais corajosas, cuja linguagem sintetiza os altos e baixos de um país sempre em conflito com governos, com o sistema capitalista e com uma luta de classes que até hoje não tem fim. Neste cenário, é preciso dar destaque à obra de Laerte Coutinho.
Criadora de tiras icônicas como "Piratas do Tietê", a cartunista teve seu universo levado ao cinema na animação "A Cidade dos Piratas" (2018), de Otto Guerra — filme que, revisto hoje, parece quase profético quanto ao que o Brasil enfrentaria nos anos seguintes. Entre suas criações mais memoráveis está o Overman, um super-ser repleto de problemas cotidianos com os quais qualquer brasileiro se identifica, o que fez da tirinha um sucesso cult imediato. Eis que chega agora aos cinemas "Overman" (2026), uma adaptação que vai na contramão das convenções do gênero.
Dirigido por Tomás Portella, o longa nos apresenta Overman (Caco Ciocler), um super-herói desempregado à beira de um colapso emocional e financeiro, buscando com todas as forças um propósito de vida. Tudo muda quando ele recebe uma proposta para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública e enxerga ali a chance de colocar a vida nos eixos. Contudo, quando Pâmela, sua fiel ajudante, começa a se tornar tão famosa quanto ele, Overman precisa lidar com as crises de ego, além de descobrir que uma alta figura de autoridade pode estar prejudicando a cidade.
É fácil comparar o protagonista a outros personagens que fogem à regra básica do gênero, como o Deadpool. Em ambos os casos, são figuras que subvertem o heroísmo tradicional, mesmo quando se veem forçadas a se alinhar ao sistema para obter alguma redenção no meio do caminho. No caso de Overman, ele tenta colocar em prática seu lado heroico, mas sem alcançar no íntimo a realidade que desejava.
Tomás Portella constrói uma trama que coloca o personagem diante de um dilema existencial curioso e com o qual qualquer brasileiro se identificará. A veia criativa de Laerte está pulsante na tela, a ponto de certas situações absurdas se tornarem metáforas perfeitas daquilo que ouvimos em tempos turbulentos de um Brasil fragmentado. A ideia de retratar o vilão como o próprio sistema capitalista pode soar caricata à primeira vista, mas faz todo o sentido dentro do embate enfrentado pelo protagonista.
Caco Ciocler se destaca ao interpretar um personagem que poderia facilmente parecer ridículo em uma versão em live-action. O ator captou com perfeição o tom da obra: visualmente e em sua personalidade sarcástica, o Overman da tela é extremamente fiel às tiras, sem deixar de lado pontuais momentos de ousadia. Claro que o espectador habituado ao lado mais comercial e higienizado do gênero achará o longa estranho, mas é justamente esse estranhamento que o torna um ponto fora da curva em uma época em que os filmes de super-heróis já tiveram dias mais gloriosos.
"Overman" é uma ótima adaptação da obra de Laerte Coutinho, provando que também temos nossos próprios heróis nos quadrinhos — mas com um tempero e um caldo genuinamente brasileiros.
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