Sinopse: K., um homem sem memória, é acolhido por um trabalhador solitário em um bairro empobrecido de Porto Alegre. Castigada por chuvas incessantes, a cidade serve de cenário para uma realidade de desigualdade extrema e inteligência artificial avançada.
Diferente do que muitos imaginam, o cinema brasileiro conta com uma rica tradição de produções que exploram questões universais através da ficção científica. Títulos recentes como "Bacurau" (2019) e "O Último Azul" (2025) usam o gênero para projetar e refletir sobre os dilemas políticos de um Brasil historicamente instável. Em "Futuro Futuro" (2026), quarto longa escrito e dirigido pelo gaúcho Davi Pretto, essa premissa ganha um contorno singular ao incorporar traumas coletivos e recentes do nosso cotidiano à narrativa.
A trama se passa em um futuro próximo, em uma quebrada distópica de Porto Alegre onde a tecnologia de inteligência artificial, embora avançada, está ao alcance das classes populares. O elemento central dessa presença é um assistente virtual — no estilo da Alexa —, cuja interface emite uma chamativa luz vermelha. É nesse ambiente que acompanhamos K. (Zé Maria Pescador), um homem desmemoriado acolhido por um velho clickworker solitário (João Carlos Castanha).
K. sofre de "neurodeflação súbita", uma erosão cognitiva de causas desconhecidas que provoca distúrbios neurológicos severos, como a perda da capacidade de formular imagens mentais e a amnésia total. Embora a narrativa dialogue com tropos clássicos da ficção científica já explorados no cinema e na literatura, Pretto utiliza a distopia para construir uma profunda reflexão sobre o momento presente e as crises imprevisíveis que passamos a enfrentar.
A enchente devastadora que assolou o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, é integrada à diegese da obra, reforçando que a tragédia climática permanece um problema urgente e contínuo. Ao entrelaçar esse trauma à trama tecnológica, Davi Pretto entrega um longa que se desacopla do padrão das grandes produções nacionais recentes, assumindo o papel de um verdadeiro "estranho no ninho". Essa sensação de inadequação sintetiza a própria jornada de K., que busca apenas encontrar um lugar em um mundo cujo amanhã parece completamente incerto.
Consagrado no Festival de Cinema de Brasília de 2025 com quatro prêmios do Júri — Melhor Filme, Roteiro, Montagem e uma Menção Especial para a atuação de Zé Maria Pescador —, o longa também se destaca pelo rigor estético. A fotografia saturada em tons avermelhados transforma Porto Alegre em um cenário claustrofóbico e desconfortável, revelando uma sociedade perdida em sua própria dependência tecnológica e gradativamente desconectada da sua humanidade.
"Futuro Futuro" é um "peixe fora d'água" no panorama do cinema brasileiro contemporâneo — e é justamente por essa coragem de fura-bolhas que merece ser visto.
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