Sinopse: Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história.
Quando as enchentes de maio de 2024 começaram no Rio Grande do Sul, eu estava trabalhando em Sapucaia do Sul e testemunhando a chegada das águas na capital através da tela do meu celular. Aos poucos, fui vendo pelos noticiários as cidades sendo destruídas pela força das águas e as pessoas ficando desabrigadas, transformando tudo em um cenário apocalíptico. Porém, nem todos os registros estavam ao nosso alcance, pois, daquela data em diante, cada indivíduo tinha uma história única a ser contada.
Por mais profissionais que sejam, os veículos da mídia tradicional jamais terão a capacidade de adentrar as entranhas daqueles que sofreram com a tragédia, ou de escolher uma única pessoa que se torne a representação perfeita de um povo afetado em maior ou menor grau. Fora da grande mídia, no entanto, cada um registrou os eventos à sua maneira, revelando-nos algo que não foi visto pela maioria. "800 Milímetros: Histórias que resistiram à chuva" (2024) é um registro compacto sobre os fatos, mas que possui um peso enorme ao revelar o lado humano perante o inexplicável.
Dirigido por Thiago Lazeri, o documentário registra os eventos de maio de 2024, período em que o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história. Em apenas dez dias, cidades inteiras foram devastadas pela chuva, pela lama e pelas enchentes. A partir dos testemunhos de pessoas que atravessaram essa experiência, o longa acompanha histórias de perda, sobrevivência e reconstrução, refletindo sobre a memória, o trauma coletivo e os impactos sociais e ambientais da tragédia.
Lembro-me de que, quando os trens foram liberados até a estação Mathias Velho, decidi ir até lá para ver a situação daquele bairro de Canoas após as águas baixarem. Ao chegar, uma sensação mórbida me atingiu em cheio: testemunhar o horror da destruição ao vivo trouxe um impacto que não havia sido transmitido a mim através da mídia tradicional. Ao meu ver, as reportagens de TV capturaram apenas o que era factual e essencial, mas não o horror real da situação.
O documentário de Thiago Lazeri nos leva ao cenário das consequências daquele mês de maio, onde o realizador registra não somente o lado solidário daqueles que decidiram ajudar o próximo, mas também a reconstrução daquilo que foi perdido. O que vemos na tela não é uma reconstituição fria dos fatos, mas sim a revelação crua de uma destruição vinda da própria natureza, fazendo-nos constatar o quanto somos frágeis perante a sua fúria. Os depoimentos das personagens são profundamente sinceros, e elas não têm medo de expor suas dores emocionais ao se depararem com a incerteza de por onde recomeçar do zero.
Através de sua lente, Thiago registra os estragos e recolhe relatos que nos fazem imaginar como eram as residências antes do ocorrido, permitindo-nos comparar mentalmente ambos os cenários. Dois anos depois, ainda existem pessoas que seguem na reconstrução de suas vidas, seja limpando o que foi destruído ou recomeçando a caminhar em outra cidade que não foi atingida como um todo. Porém, por mais que tenham forças para reconstruir, fica o aviso: nem tudo terá retorno.
Talvez o momento mais emocionante do documentário seja justamente o de Lucilene e Dona Lenite, moradoras de Muçum, município gaúcho localizado no Vale do Taquari. Lá, elas não apenas testemunharam seus lares sendo devastados, como também o cemitério onde estavam sepultados os seus entes queridos. O ápice desse momento é a dolorosa constatação de que a enchente não atingiu somente os vivos, mas levou consigo até mesmo os mortos em seu descanso.
"800 Milímetros: Histórias que resistiram à chuva" é o registro mais humano e cru sobre a tragédia de maio de 2024 — alcançando um efeito de empatia e realidade que a mídia tradicional simplesmente não conseguiu transmitir.
Mais informações sobre o documentário vocês conferem no site oficial clicando aqui.
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