Nota: Filme exibido para os associados no dia 15/08/26.
Os anos noventa foram a era de ouro para aqueles que curtiam a MTV, canal que exibia os mais diversos videoclipes que entraram para a história. Foi através desse período que muitos diretores começaram a carreira na direção musical, como David Fincher e Spike Jonze. Porém, além daqueles que migraram dessa área, houve também cineastas que buscavam inspiração na estética dos videoclipes para realizar seus longas-metragens para o cinema.
Vale salientar que isso não se restringiu aos EUA, espalhando-se pelo mundo. Na Alemanha, por exemplo, surgiram realizadores que começaram a fazer filmes experimentais, explorando não só a linguagem rápida ao estilo MTV, mas também utilizando as primeiras câmeras digitais em um período de transição entre o analógico e o digital. Nessa época surgiu Tom Tykwer, cineasta que filmava curtas-metragens desde os onze anos de idade e que, em 1998, lançou "Corra Lola, Corra" — um dos filmes que melhor sintetizou a fusão da linguagem do videoclipe com o universo da sétima arte.
Na trama, Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de contrabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos e acaba sendo roubado por um mendigo. Ele tem apenas 20 minutos para recuperar o dinheiro ou será morto pelo seu chefe, Ronnie. Sem opção, Manni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda ao pai (Herbert Knaup), presidente de um banco. Assim, Lola corre pelas ruas de Berlim, mas algo inesperado acontece em sua jornada.
O loop temporal (ou laço temporal) é um recurso da ficção em que um período específico de tempo se repete. Quando um limite de tempo é atingido, tudo reinicia e volta ao ponto de partida. No cinema, esse recurso narrativo já foi usado em diversos longas, do drama à comédia. "Feitiço do Tempo" (1993) foi um dos precursores desse formato e serviu de grande influência ao longo da década de noventa.
Embora parta de uma premissa similar, Tom Tykwer faz um trabalho completamente diferente aqui: ele pega apenas vinte minutos de história e os apresenta de três formas distintas, mostrando como qualquer passo em falso faz com que Lola e as pessoas com quem ela cruza tenham destinos completamente diferentes. Vemos Lola correndo em direção ao pai em três ocasiões; quando algo dá errado, o tempo "reseta" para recomeçar tudo do zero em uma nova chance. É como um jogo de videogame em que o personagem morre, ocorre o game over, mas logo se ganha uma nova vida para tentar novamente.
É curioso notar o que acontece quando Lola cruza com determinados personagens — seja uma senhora conservadora irritada ou um rapaz de bicicleta querendo vendê-la. Dependendo de como se dá esse encontro, os destinos dessas pessoas mudam drasticamente em cada versão, mostrando que basta uma pequena ação para alterar os rumos de uma vida. Isso nos é apresentado por meio de fotografias em flash-forward inseridas rapidamente, com uma edição frenética.
Todo o filme segue esse ritmo acelerado, combinando uma montagem dinâmica a passagens em desenho animado e uma trilha sonora techno contagiante (da qual a própria Franka Potente cantou algumas faixas). O uso das primeiras câmeras digitais fica evidente em cenas como a conversa entre o pai da protagonista e sua amante no escritório. Nesses momentos, a imagem assume uma textura mais precária, revelando como os realizadores ainda estavam aprendendo a manejar essa nova ferramenta e a incorporá-la à linguagem cinematográfica.
Se por um lado esse aspecto do vídeo envelheceu com as marcas de seu tempo, por outro o filme continua mais fresco do que nunca. É um dos trabalhos mais dinâmicos do período ao equilibrar ação, ficção e boas doses de reflexão. Correndo quase sem parar, Franka Potente entrega uma atuação marcante na pele da personagem que percorre pontos conhecidos de uma Berlim ainda em metamorfose após a queda do muro. Lola cruza tanto com gerações acostumadas com o país dividido quanto com jovens que cresceram sob um novo mundo e promessas nem sempre cumpridas.
Sob uma ótica interpretativa, o longa oferece múltiplas leituras: desde a possibilidade de obter uma segunda chance na vida até a importância de tomar decisões para alcançar o nosso melhor. A cena em que Lola dá a mão a um homem sofrendo um ataque cardíaco dentro de uma ambulância não serve apenas para acalmá-lo, mas funciona como sua própria redenção particular nessa cruzada contra o tempo. Ao final, testemunhamos uma recompensa selada, deixando os personagens diante de um futuro aberto e indefinido.
"Corra Lola, Corra" permanece como um dos mais belos e autênticos representantes da geração MTV, tendo se tornado um clássico cult atemporal.
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