Sinopse: Longa-metragem brasileiro que adapta cinco contos clássicos de Clarice Lispector para o cinema.
A palavra antologia refere-se a uma coleção de textos, músicas ou filmes reunidos em uma única obra. Quando procuro me lembrar do meu primeiro contato com esse tipo de estrutura, vem-me à mente os longas de horror do estúdio inglês Amicus, que, por sua vez, baseavam-se em clássicos literários ou até mesmo em HQs, como "Contos da Cripta". No "caso de Rio de Clarice" (2026), trata-se de um filme que explora o universo literário da escritora Clarice Lispector, tornando-se uma espécie de cartão de visita para aqueles que nunca leram seus contos.
Dirigido por Eunice Gutman, Maria Luiza Aboim, Taciana Oliveira, Barbara Kahane e Nicole Algranti, o filme reúne cinco adaptações dos contos da escritora em episódios comandados por essas cinco diretoras. Inspirando-se nas obras "Feliz Aniversário", "Mal-estar de um Anjo", "A Bela e a Fera", "Amor" e "Preciosidade", o filme explora o lado intimista de Clarice e o universo particular das mulheres.
Sem sombra de dúvida, a adaptação mais famosa da obra de Clarice Lispector para o cinema é "A Hora da Estrela" (1985), de Suzana Amaral, na qual a ingenuidade da protagonista faz com que nos identifiquemos de forma profunda. Uma das últimas adaptações a que eu havia assistido no cinema foi "A Paixão Segundo G.H." (2023), de Luiz Fernando Carvalho, que explorava a solidão e as divisões de classe afetando a protagonista em um verdadeiro jogo psicológico. Esses elementos narrativos são vistos novamente nesta nova adaptação.
Baseado nos contos da autora, as cinco diretoras conseguem retratar com certo êxito os aspectos de tempos mais conservadores, nos quais as mulheres buscam se colocar à frente daquela realidade sufocante. "Feliz Aniversário", por exemplo, é a representação de uma personagem não alinhada à hipocrisia familiar — uma família que se vende como perfeita, mas não consegue esconder seus "esqueletos no armário" ao longo da história. Em todos os episódios, a figura masculina fica em segundo plano, como se a presença dos homens fosse irrelevante ou até alienada perante a complexidade do universo feminino.
Particularmente, gostei muito do segmento "Mal-estar de um Anjo", graças à atuação da atriz Letícia Spiller. Inicialmente, a ex-paquita nunca havia me convencido como atriz, percepção que começou a mudar a partir de sua atuação no curta "O Pulso" (1997), dirigido por José Pedro Goulart. Aqui nesta trama, nota-se como a intérprete consegue nos transmitir toda a dúvida e confusão mental a partir do momento em que conhece outra personagem dentro de um táxi, fazendo disso o ponto de ignição para seus conflitos internos.
Em suma, são histórias sobre o papel das mulheres perante um mundo dominado por homens, onde os abusos moral e físico se fazem presentes, mas sem fazer com que elas sucumbam às sombras. Clarice Lispector talvez tenha visto desde cedo o lado duro desse universo cheio de regras, fazendo com que suas personagens se desprendam de correntes invisíveis impostas pela sociedade. Ao menos até aqui, as adaptações cinematográficas têm feito jus à sua força.
"Rio de Clarice" é um convite instigante para aqueles que nunca adentraram o universo literário de Clarice Lispector, despertando o desejo de procurar seus livros no sebo mais próximo.
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