Nota: Filme exibido para os associados no dia 30/08/26
Sinopse: O filme acompanha Franz Kafka em diferentes momentos de sua vida, da infância aos anos de maturidade, abordando seus conflitos familiares, relacionamentos e o trabalho burocrático que dividia espaço com sua verdadeira vocação literária.
Franz Kafka foi um dos maiores gênios da literatura mundial, cujo reconhecimento pleno só veio após sua morte precoce. Entender as raízes de sua obra exige uma análise profunda — mesmo que, por vezes, até os estudos mais dedicados arranhem apenas a superfície. "Franz" (2025) opta por uma abordagem que se envereda para o lado humano do escritor, oferecendo uma clara noção de suas motivações ao conceber determinadas histórias.
Dirigida por Agnieszka Holland, a trama acompanha Kafka desde a infância em Praga até sua morte na Áustria, no período pós-Primeira Guerra Mundial. Testemunhamos seus primeiros passos na escrita, a difícil relação com o pai — que exigia sua dedicação ao escritório de seguros —, o início da amizade com seu editor Max Brod e os complexos relacionamentos amorosos com Felice Bauer e Milena Jesenská. Aos poucos, fica claro para aqueles ao seu redor que ninguém é capaz de controlá-lo.
Holland constrói uma linha narrativa peculiar, em que passado, presente e futuro se cruzam sem prévio aviso, exigindo atenção constante do espectador. Acompanhamos a infância dura do protagonista e seu amadurecimento ao colocar em prática o que verdadeiramente anseia, mesmo quando vai contra as expectativas paternas. Nesse aspecto, cabe destacar a atuação de Peter Kurth, que constrói uma figura paternal autoritária, mas de forma surpreendente, revelando uma dinâmica entre pai e filho muito mais complexa do que se poderia imaginar.
Além disso, a cineasta surpreende ao colocar o protagonista diante do próprio futuro: vemos Kafka observar pessoas do século XXI contemplando seu legado em um museu. Em minha leitura, Holland cria um paralelo com a forma como o escritor enxergava o mundo — através de seus textos, é possível vislumbrar suas expectativas em relação ao futuro, quase nenhuma delas agradável. Embora obstinado em seguir seu destino, é inegável que ele não via com bons olhos o amanhã que se avizinhava, especialmente com a ascensão nazista a partir de 1933.
Curiosamente, os personagens próximos a Franz quebram a quarta parede para relatar, sob suas próprias perspectivas, as ações do escritor e seus passos seguintes, à medida que ele frustrava as expectativas de todos. Embora seja um recurso bastante explorado no cinema recente, aqui ele cumpre a função de dar ritmo à narrativa, ainda que pontualmente passe a sensação de que algumas passagens poderiam ser dispensadas. Nesse apuro técnico guiado pela direção, Idan Weiss busca construir um Kafka próprio, alinhado à proposta autoral da cineasta.
Talvez o filme desaponte apenas os leitores mais fervorosos do autor, já que seus livros não ganham um aprofundamento direto, ficando em segundo plano ao longo do longa. Há de se notar, contudo, que boa parte de suas criações se deu em um momento no qual a humanidade se desgastava com os impactos da Primeira Guerra e já se desenhava para um segundo conflito ainda mais devastador. Mesmo partindo antes dessa tragédia, Kafka parecia antever o que viria pela frente, inserindo em suas páginas não apenas fragmentos de si mesmo, mas também a trilha fraturada de toda uma geração — que as seguintes tentariam compreender por meio de seus livros e em museus de história.
"Franz" é poderoso em sua proposta, ainda que corra o risco de ser visto como aquém do esperado por quem busca uma transposição direta de seu grandioso legado literário.
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