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Sócio e comunicador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 98 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Cine Dica: Streaming: 'Apresentando os Ricardos'

Sinopse: Lucille Ball e Desi Arnaz se casaram em 1940 e viram sua fama decolar após estrearem uma das mais memoráveis sitcoms americanas chamada 'I Love Lucy'. 

A série sticoms norte americanas são, talvez, o melhor ingrediente para entreter um povo norte americano do qual o mesmo tenta se desligar dos verdadeiros problemas do mundo real. "I Love Lucy" (1951) foi um dos maiores sucessos desse formato, em uma época em que essa sociedade temia a guerra fria e tendo sido formados em temer a palavra "comunismo" sem ao menos saber o seu significado. "Apresentando os Ricardos" (2021) não é somente um curioso capítulo sobre os bastidores desse clássico, como também um pequeno retrato de tempos conservadores e bastante hipócritas para dizer o mínimo.

Dirigido por Aaron Sorkin, do filme "Os Sete de Chicago" (2020), o filme conta a história de Lucille Ball (Nicole Kidman) e Desi Arnaz (Javier Bardem), que são ameaçados por chocantes acusações pessoais, uma difamação política e tabus culturais no drama de bastidores. O longa revela a complexa relação romântica e profissional do casal, enquanto é mostrado o casal durante uma semana de produção de sua sitcom inovadora "I Love Lucy".

Em tempos atuais em que as discussões políticas andam acaloradas é interessante olharmos para trás e constatarmos que já houve época ainda mais paranoica do que a nossa quando a questão era sobre o comunismo. Em tempos de caça às bruxas muitos astros do cinema, diretores e roteiristas foram perseguidos por terem se filiado ao partido e sendo que alguns tiveram as carreiras arruinadas unicamente por acreditarem em uma ideia mais socialista. Lucille Ball, por sua vez, esteve ligada, mesmo que de forma indireta ao partido comunista, mas esse era um dos inúmeros problemas que ela tinha.

Estamos nos anos cinquenta, época que o mundo do entretenimento e a política vendiam para a sociedade norte americana uma realidade plástica, perfeita, porém, sem identidade própria. Lucille Ball foi uma atriz que lutou para obter o estrelato, mas teve que enfrentar de frente o preconceito por ser mulher em uma época em que o sistema patriarcado se escondia por detrás da cortina democráticas. Lucille Ball conseguiu o estrelato por ter se vendido, mesmo que em parte, para esse sistema, além de se apaixonar por  Desi Arnaz do qual ela acreditava que era o homem de sua vida.

Portanto é uma pena que o filme se resume em um único ponto da vida da atriz, ou seja, basicamente sobre a semana em que ela foi acusada de ser comunista e da possibilidade do seu marido ter um caso fora de sua vista. Por conta disso, o roteirista Aaron Sorkin não consegue em alguns momentos saber nivelar os dois assuntos, ao ponto que o filme vem e volta ao passado da protagonista e fazendo com que os temas quase fiquem em segundo plano. Porém, isso é contornado graças ao ótimo trabalho de Nicole Kidman.

Ao dar vida a Lucille Ball, Nicole transita em momentos de humor ácido para um lado dramático em poucos momentos, principalmente quando o seu olhar tem mais a dizer do que meras palavras que poderiam ser jogadas ao vento. O seu olhar, aliás, se casa perfeitamente com a proposta do filme, ao retratar uma Lucille Ball que queria dar tudo de si para um programa que nasceu somente para entreter a massa, mas que gostaria de passar algo mais além de sua pessoa. Não é à toa, por exemplo, que as filmagens de um jantar se tornem a peça central do conflito entre ela e os realizadores e fazendo com que Desi Arnaz quase fique em segundo plano da trama se não fosse, claro, a sempre competente atuação de Javier Bardem.

Falando nele, o seu Desi Arnaz é uma figura trágica dentro da história da tv norte americana. Pode ter obtido os louros do sucesso, mas não escapando do preconceito que esse país tinha com relação aos cidadãos latinos e da revolução Cubana que estava acontecendo. Isso é bastante sentido, por exemplo, em uma reunião que explicita muito bem isso, além do fato de que os engravatados dos estúdios sempre queriam vender um conto de fadas norte americano que somente existia para acobertar o lado farsante daquela sociedade e que era controlada por cordas invisíveis do universo cristão.

Não deixa de ser absurdo, por exemplo, o fato de Lucille Ball não poder aparecer grávida no programa, já que a personagem dela e de seu marido apareciam dormindo em camas separadas. A trama se passa nos tempos de Código Hays, onde os filmes e séries de tv caiam nas mãos de censores que trabalham em prol da igreja e dos bons costumes, ao ponto que vasos sanitários nunca podiam aparecer na tela do cinema. É uma pena, portanto, que Aaron Sorkin não tenha explorado ainda mais esse ponto no seu roteiro, já que esses assuntos sempre são um verdadeiro prato cheio para serem revistos e analisados em tempos contemporâneos.

O ato final também falha um pouco ao resumir rapidamente os problemas a serem resolvidos na vida Lucille Ball, quando na realidade mal eles estavam começando. Se isso é um ato falho, por outro lado, isso novamente é compensado pelo ótimo desempenho de Kidman, pois ela constrói para a sua personagem tendo a consciência de que a própria se vendeu ao sistema para sobreviver e por conta disso ela ganhou, mas ao mesmo tempo perdeu. Resumidamente, a trama cairia perfeitamente caso fosse em um formato de uma possível minissérie, pois aí sim teria mais tempo para explorar os outros diversos assuntos.

Com uma ótima atuação de J.K. Simmons, "Apresentando os Ricardos" é retrato ácido do mundo do entretenimento norte americano, mas que poderia ter sido mais corajoso e melhor trabalhado.

Onde Assistir: Amazon Prime.

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