Nota: Filme exibido para os associados no dia 21/02/26.
Sinopse: Sinopse: Diante de um futuro incerto, Witek, um jovem estudante de Medicina polonês, suspende seus estudos e corre para pegar um trem rumo a Varsóvia. A partir desse instante, o filme apresenta três desdobramentos possíveis de sua vida, cada um determinado por ter alcançado ou não o trem — e pelas escolhas que se seguem.
O termo loops se dá a determinadas tramas em que o protagonista se vê na mesma história, mas da qual testemunhamos versões diferentes de acordo com pequenos detalhes que fazem a diferença. Um dos primeiros filmes que eu assisti ao explorar isso foi no alemão "Corra Lola, Corra" (1998), de Tom Tykwer, mas sendo que antes disso havia sido moldado com o paladar hollywoodiano em "Feitiço do Tempo" (1993). Porém, "Sorte Cega" (1987) acaba sendo mais ousado ao colocar o protagonista diante de escolhas com relação aos rumos que o seu próprio país está vivendo.
Dirigido por Krzysztof Kieślowski, da trilogia das cores, o filme conta a história que se passa na Polônia, em 1981, onde o estudante de medicina Witek (Boguslaw Linda) pede uma licença de um ano da faculdade após a morte de seu pai, para repensar sua vocação. Ele decide viajar para Varsóvia, mas enquanto corre para tentar alcançar o trem na estação, três possíveis eventos acontecem. Na primeira possibilidade, Witek alcança o trem e reencontra sua ex-namorada, que pertence a um movimento clandestino anti-comunista, e acaba se juntando ao partido. No segundo evento, Witek é pego por um guarda na estação e reage, sendo enviado para julgamento e condenado a 30 dia de serviço comunitário. Ele se junta a um grupo de estudantes contrários ao sistema e publica artigos na imprensa underground. Na terceira possibilidade, ele não alcança o trem e decide voltar à universidade, casa-se com sua namorada e os dois se formam em medicina.
Conhecido por filmes com teor político, mesmo de forma subliminar, Kieślowski sofreu com a censura do seu próprio país ao lançar esse filme da sua maneira. Porém, a obra foi somente liberada em 1987, em um período em que o calor do conflito que estava acontecendo na Polônia já estava adormecendo. Antes tarde do que nunca, pois o longa capricha em uma trama em que se explora pequenos gestos ou atitudes que fazem toda a diferença com relação ao destino do indivíduo. No caso do protagonista visto na trama, não importa quais caminhos ele toma, pois o seu destino está traçado de acordo com o impasse do seu próprio país que se encontra naquele momento.
Os pequenos detalhes que moldam o destino do protagonista se concentram na estação do trem, sendo causado por uma simples moeda, ou pelo tropeço que o protagonista faz contra um mendigo que está tomando uma cerveja. Quando começa essa cena já sabemos que há uma nova chance para o protagonista trilhar, mas sempre o levando por um caminho sem volta e do qual não consegue escapar. Sem nenhum aprofundamento com relação a teorias sobre viagem no tempo, mas sim somente explorando o lado mais humano das escolhas que o indivíduo toma e que define a sua pessoa.
Boguslaw Linda dá um show de interpretação ao interpretar Witek em três situações que o moldam como pessoa. Em algumas situações, por exemplo, nem parece a mesma pessoa de acordo com os rumos que escolheu a partir do momento em que alcança, ou não, o trem que tanto corria para alcançar. Isso faz com que tenhamos uma dimensão da maneira como um indivíduo tem diversas escolhas para tomar um rumo, mas tendo que aceitar o fato que as suas decisões podem mudar completamente o seu curso que havia traçado.
Diante disso Krzysztof Kieślowski capricha em planos sequências caprichados, onde em alguns momentos a câmera se torna a representação da perspectiva do protagonista, para logo depois tomarmos o seu lugar e vermos a sua expressão diante dos fatos que ocorrem em cena. Além disso, o cineasta prega uma ficção alinhada com o teor quase documental, onde a sua câmera acompanha os seus personagens de forma granulada, tremida e como se nos passasse o fato que aquilo é verossímil, ao menos é o que ele anseia que a gente sinta isso. Tudo alinhado com uma fotografia sombria, onde as cores vibrantes dos anos oitenta não obtêm espaço diante de um país indefinido com relação ao seu próprio futuro.
A terceira e última história se torna o momento mais simples e claro do longa, mas não menos chocante diante da cena final que nos faz refletir sobre o filme após a sua sessão. Ao final, constatamos que não teremos saída enquanto um governo estiver sempre em conflito com os seus interesses mesquinhos e fazendo da democracia se tornar um mero sonho. Não é sempre que uma ideia extraída da mais pura ficção nos rende algo que nos faça pensar sobre o que nos faz seres humanos diante das diversas escolhas que nós tomamos.
"Sorte Cega" é um mosaico de possibilidades que podemos obter a partir de nossas escolhas, mas tendo o risco de sempre adentrarmos em um beco sem saída.
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