Filme Exibido para os associados no dia 18/04/26
Wong Kar-Wai é frequentemente apontado como o último grande romântico do cinema. Isso se deve à habilidade do realizador em criar longas nos quais o romantismo se torna o mote principal da obra. Porém, suas histórias de amor não caem na vala comum da previsibilidade.
Até pouco tempo, eu acreditava que sua maior obra-prima fosse "Amor à Flor da Pele" (2000), cujos encontros e desencontros do casal central formam uma das melhores experiências cinematográficas que assisti neste século. O feito se repetiria em "2046 - Os Segredos do Amor" (2004), elevando ainda mais seu cinema autoral no tratamento do tema. No entanto, sua obra-prima acaba sendo justamente "Amores Expressos" (1994), um filme sobre conexões em meio a uma metrópole em constante movimento.
Nas ruas de Hong Kong, as tramas se entrelaçam: uma mulher misteriosa de peruca loira, um jovem policial que a persegue na multidão e uma garçonete sonhadora que se apaixona por outro oficial. Todos se cruzam em uma cidade frenética, enquanto suas vidas se tornam mais complexas do que se imagina.
Segundo registros, Quentin Tarantino fez questão de intermediar um acordo com a Miramax para que o filme fosse exibido nos EUA. É evidente que o diretor identificou ali uma obra que não apenas falava sobre os dilemas do amor, mas que era embalada pelo melhor da cultura pop dos anos 90. O longa talvez seja a melhor síntese daquela década, em tempos nos quais o ser humano se via cada vez mais refém de um capitalismo desenfreado.
Estamos diante de uma Hong Kong saturada de luzes e cores, onde pessoas ocupadas parecem ignorar o que acontece ao redor. O comércio é incessante; vendedores ambulantes oferecem de itens legais a ilícitos nos lugares mais improváveis. Neste cenário de sobrevivência, o amor encontra espaço, desde que se mantenha a resiliência.
A mulher de peruca loira é a figura mais enigmática. Testemunhamos ela operando no submundo do crime, dançando conforme a música e tentando estar sempre um passo à frente. Quando o Policial 223 tenta conquistá-la em um bar, ela encara a situação como algo banal, enquanto ele ainda nutre esperanças de aplacar a solidão. Enquanto ela já experimentou o lado cru da vida, ele demonstra acreditar em contos de fadas em meio a uma realidade rígida.
Tudo isso é orquestrado por um Wong Kar-Wai inspirado, alternando cenas reflexivas com sequências frenéticas. Por instantes, parece que assistimos a um filme policial, com elementos de film noir e uma narração em off que se ajusta perfeitamente ao ambiente. Mas então, surge o inesperado.
Uma lanchonete em um beco qualquer serve como ponto de referência para uma nova história. O filme possui duas narrativas distintas, unidas pelo cenário e pelo romantismo dos personagens. Porém, se na primeira parte tudo parecia caminhar para o sombrio, a segunda nos conduz por uma trilha de leveza e reflexão.
A relação do Policial 663 com a garçonete Faye é tão contagiante que chegamos a esquecer a trama anterior. Isso se deve não apenas ao talento de Tony Leung, mas à atuação ambígua de Faye Wong, que constrói uma personagem enigmática cujas ações inusitadas revelam seu interesse pelo policial de forma singular.
É curioso observar como o diretor analisa a comunicação humana através dos objetos, como se as posses dissessem algo sobre nós. A casa do policial torna-se um mosaico de sua personalidade, ganhando profundidade quando Faye a "invade" para reorganizar sua vida. Essa premissa recorda o coreano Casa Vazia (2004), de Kim Ki-duk, embora com desdobramentos distintos.
Ao final, entre encontros e desencontros, o longa ensina que sempre haverá recomeços, mesmo quando o amor não corresponde às nossas expectativas. É uma síntese sobre pessoas comuns em busca de sonhos na selva de pedra, tentando manter a essência mesmo quando o mundo diz o contrário. Com uma trilha icônica que inclui "California Dreamin'" e a versão de Faye Wong para "Dreams", "Amores Expressos" é um clássico que sintetiza os dilemas amorosos em um mundo em eterna mutação.
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