"Eu sou o homem solitário de Deus"
Assim diz o protagonista Travis, ex - soldado do Vietnã que, com apenas 26 anos, sofre de insônia crônica e se ocupa assistindo filmes pornos em cinemas baratos. Para preencher o seu vazio existencial, ele decide trabalhar como taxista em qualquer horário e obtendo uma encruzilhada nas madrugadas escuras, sujas e violentas de uma Nova York decadente. Por conta disso algo desperta nele, ao desejar retirar das ruas os cafetões, prostitutas, drogados e todos aqueles que na sua visão são uma verdadeira escória dentro da sociedade.
Ao meu ver, Martin Scorsese faz aqui uma versão modernizada de "Memórias do Subsolo", do escritor russo Flódor Dostolêsvki, sendo que aqui se retira o cenário de São Petersburgo e dando lugar a uma das cidades americanas mais conhecidas do mundo, mas que na visão do protagonista está apodrecendo.
Assim como clássicos do faroeste protagonizados por cavaleiros solitários, Travis se apaixona por uma secretária do comitê de campanha de um senador à presidência (Cybill Shepherd). Ambos saem para tomar um café no primeiro encontro, mas bastou no segundo para que o protagonista, da forma mais estúpida possível, a leva a um cinema pornô. A partir do momento em que ela se afasta ele decide arquitetar um atentado contra o senador, e ao mesmo tempo ajudar uma jovem prostituta chamada Iris (Jodie Foster) a sair das ruas e assim obter uma razão para a sua existência.
Em início de carreira Martin Scorsese cria aqui uma de suas maiores e mais polêmicas obras primas. "Taxi Driver" é aguçado ao se tratar de questões como o vazio existencial e sendo o suficiente para fazer com que o cineasta se tornasse uma das maiores revelações de um período em que o cinema rebelde da "Nova Hollywood" estava mais viva do que nunca. Robert De Niro é sem sombra de dúvida o coração pulsante do longa, que na época já tinha ganhado um Oscar pelo "Poderoso Chefão - Parte II" (1974).
Para as filmagens, o intérprete decidiu trabalhar de verdade como taxista em 12 horas por dia para, não somente entender essa profissão, como também sobre o que leva uma pessoa a agir de acordo com relação ao que ela enxerga no seu mundo real. Além disso, ele também estudou sobre pessoas com problemas mentais, desde elas possuírem tiques nervosos e paranoias de acordo com relação ao que eles acham ameaçador. De Niro é alguém que também gosta de improvisar nas cenas, sendo que o momento onde ele fala na frente do espelho, ao disparar a frase "você está falando comigo?", é algo que ele próprio havia inventado e entrando para a história do cinema de forma instantânea.
Revisto hoje é incrível pensar que "Taxi Driver" foi escrito em apenas cinco dias pelo roteirista Paul Schrader, mas sendo o suficiente para nos apresentar uma trama da qual melhor sintetiza a panela de pressão que Nova York estava passando naqueles tempos, onde a violência e a degradação estava mais do que explícita, seja ela na noite ou no dia. Além disso é uma representação do estado de espírito e mental do povo norte americano após a derrota no Vietnã, o lado escancarado do caso Watergate e uma crise financeira e da qual não se via desde os anos trinta. Tudo isso pincelado com o melhor do subgênero noir, mas com as cores de uma época de inúmeras metamorfoses, sejam elas comportamentais ou políticas.
O longa recebeu quatro indicações ao Oscar em 1977, de Melhor Filme, ator, atriz Coadjuvante e Trilha Sonora (de Bernard Hermann). Acabou não levando nada naquela cerimônia e se tornando mais uma de muitas injustiças da história da premiação, principalmente ao não conseguir enxergar em obras como essa o quanto ela fala sobre a sua própria realidade em que havia sido lançada. Ao menos os franceses sempre foram os mais espertos e deram ao filme a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
"Taxi Driver" é sobre a violência e a paranoia vinda das ruas de Nova York e encarnadas na mente perturbada de um protagonista ao buscar um significado pela sua existência.
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