Sobre o Filme:
Stephen Daldry tem predileção por tramas nas quais os personagens se veem envolvidos com o universo da literatura. Em "As Horas" (2002), por exemplo, os livros de Virginia Woolf conduzem personagens femininas a enfrentar certos dilemas e desejos reprimidos pela sociedade como um todo. Em "O Leitor" (2008), a literatura se torna peça primordial para conhecermos o lado mais obscuro do ser humano — e o modo como ele chega a esse ponto sem saber ao certo como lá aportou.
A trama se passa na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial, onde conhecemos o adolescente Michael Berg (David Kross), que se envolve, meio por acaso, com Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma mulher mais velha do que ele. Os dois engatam um tórrido caso de amor, entrelaçado por sexo e leituras de diversos clássicos e contos que o jovem declama para ela. Repentinamente, Hanna desaparece, e Berg só volta a reencontrá-la anos mais tarde, quando ela é julgada por crimes cometidos a serviço do nazismo.
Stephen Daldry prefere não dar muitas explicações de imediato sobre as motivações dos protagonistas. O Michael Berg mais velho (Ralph Fiennes) revela, através de suas expressões, que carrega um peso enorme vindo do passado — algo que só compreendemos gradualmente através das lembranças projetadas na tela. Ao focar em um primeiro ato cuja dinâmica se passa majoritariamente em um apartamento, o filme me ressoou "Último Tango em Paris" (1972), de Bernardo Bertolucci, no qual dois desconhecidos se relacionam para preencher suas vidas vazias. No caso de "O Leitor", no entanto, não se trata apenas de preenchimento, mas também da tentativa de um dos personagens de não se esquecer de quem realmente é perante um passado que o assombra.
Dona de uma carreira exemplar desde "Almas Gêmeas" (1994), Kate Winslet se entrega a um dos papéis mais complexos de sua filmografia — performance que, curiosamente, possui um peso equivalente ao de "Foi Apenas um Sonho", lançado no mesmo ano. Sua personagem carrega uma raiva contida, voltada não exatamente para as pessoas ao seu redor, mas para si mesma, diante dos atos e das consequências de um passado sombrio pelo qual o mundo a julgará sem piedade. Se no primeiro ato não há pistas sobre quem ela é, o segundo escancara a trágica verdade.
Embora o filme tenha sido lançado em um período em que o Holocausto já havia sido abordado exaustivamente no cinema, é interessante notar como o tema ainda atrai o público, sobretudo quando envolve o campo de Auschwitz. Ainda que a história não seja baseada em fatos reais, mas sim na adaptação do romance de Bernhard Schlink, o peso do campo de concentração ressoa forte durante o julgamento de Hanna — que não se ilude com a possibilidade de ser absolvida. Pelo contrário: ela confessa seus crimes contra a humanidade, mesmo diante de uma redenção distante.
O papel da literatura se torna central no momento em que une os protagonistas através das páginas, despertando em ambos o que há de melhor no ser humano, mesmo quando corrompido por sombras profundas. O filme talvez não seja sobre a busca por redenção, mas sobre sintetizar o fato de que todos carregamos dois lados de uma mesma moeda, restando-nos compreender como não sucumbir ao vale das sombras. Ao final, a arte da leitura atribui algum significado a esses personagens perdidos, mesmo quando eles desejam, no fundo, que certos erros jamais tivessem sido cometidos.
"O Leitor" é um filme que merece ser redescoberto pelas novas plateias, no qual o papel da literatura dentro da narrativa se mostra cada vez mais envolvente à medida que o tempo passa.
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