Sinopse: Fernanda retorna à fazenda de seu tio em Goiás após anos distante, trazendo as cinzas de sua falecida mãe adotiva.
Quando buscamos nossas próprias raízes, podemos tanto rejeitar nossa real origem quanto abraçá-la por inteiro. Em "Açúcar" (2017), de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, vemos uma protagonista em busca do direito às suas terras, tendo que aceitar mistérios sobre de onde veio e confrontar os próprios preconceitos. "Fogaréu" (2026) segue uma premissa familiar, desvendando a história hipócrita do lado conservador de um pedaço de terra do Brasil.
Dirigido por Flávia Neves, o filme acompanha Fernanda, que volta para a fazenda da família em Goiás para trazer as cinzas de sua mãe. Sua presença e a busca obstinada pela verdade sobre suas raízes abalam a fachada dessa elite agrária conservadora, fazendo com que seu tio latifundiário (Eucir de Souza), em plena campanha para prefeito, a veja como uma ameaça. Não demora para que a jovem descubra segredos familiares que permaneciam adormecidos ao longo dos anos.
A Procissão do Fogaréu, na Cidade de Goiás, é uma tradicional encenação religiosa da Semana Santa (Quarta-feira Santa) realizada desde 1745 na antiga capital goiana. Os participantes, chamados de farricocos, vestem túnicas compridas e chapéus cônicos pontiagudos (capuzes) para representar os soldados romanos que perseguiram e prenderam Jesus Cristo.
Flávia Neves faz questão de apresentar essa encenação logo na abertura do filme para causar um efeito imediato no espectador: o desavisado logo pensará tratar-se da Ku Klux Klan em terras brasileiras. Essa relação de causa e efeito é intencional, principalmente em tempos em que o conservadorismo retrógrado assola o país e renova o receio de retrocessos. Contudo, o longa nos lembra que essa realidade talvez estivesse ao nosso lado há muito mais tempo do que imaginamos.
Fernanda pertence a essa família tradicional, mas suspeita de suas reais origens e, sobretudo, das ligações dos povos indígenas com aquelas terras. O filme não apenas faz uma crítica ácida aos latifundiários que tentam apagar a memória dos verdadeiros donos da terra, como também revela como o poder econômico empurra esses corpos para as margens da sociedade. A cena em que Fernanda observa esses povos incrustados e definhando nos cantos da cidade sintetiza com precisão essa engrenagem.
Desde sua atuação como a jovem Clara em "Aquarius" (2016), Bárbara Colen chama atenção por composições contidas, mas que dominam a cena por sua aura enigmática. Aqui, sua personagem transita entre a lucidez, a obsessão e a busca pela lógica em meio a fatos chocantes. Já o tio é a perfeita encarnação da hipocrisia de certas elites regionais contemporâneas, cujos crimes e abusos nunca podem ser pronunciados, apenas enterrados.
A diretora demonstra ótima maturidade nas transições de cena: raramente sabemos se o que vemos são sonhos, delírios ou a pura realidade, criando fragmentos que nos estimulam a formular nossas próprias teorias. O ato final deixa o desfecho em aberto, como se a realizadora exigisse do espectador a construção de um veredito sobre o que testemunhou — ainda que lance um tênue fio de esperança nos últimos minutos. A cena final da protagonista simboliza a caminhada de um Brasil rumo a um futuro incerto, enquanto as sombras conservadoras continuam a nos assombrar.
"Fogaréu" é o retrato contundente da busca por origens cujas raízes tentam ser apagadas pelos aproveitadores de sempre.
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