Sinopse: Três histórias que giram em torno de relações parentais e fraternais.
Jim Jarmusch é um diretor norte-americano muito conhecido pelo seu lado autoral; basta assistir a um de seus filmes para se sentir encantado, pois ele explora o lado mais humano e complexo de seus protagonistas. "Flores Partidas" (2005), por exemplo, é um dos títulos que mais revisitei ao longo destes anos, assim como "Paterson" (2016), que fala muito sobre as escolhas que os personagens tomam e como isso influencia seus percursos de vida. "Pai Mãe Irmã Irmão" (2025) aborda laços familiares com os quais nos identificamos, tornando o filme uma experiência digna de nota.
Na trama, são apresentadas três histórias independentes, mas interligadas, principalmente no que diz respeito às relações entre filhos adultos e pais distantes. Ao se reunirem após anos sem se ver, eles são forçados a confrontar tensões não resolvidas e a avaliar o tempo que passou. Curiosamente, as tramas se passam em três países diferentes: EUA, Irlanda e França.
As três histórias, embora protagonizadas por personagens distintos, possuem similaridades que surgem em momentos específicos, seja pela figura dos skatistas ou pela presença de um relógio que é praticamente o mesmo em todos os contos. Ao meu ver, os skatistas representam "tempos dourados", remetendo a uma época em que os protagonistas eram mais livres e jovens — um passado ao qual não se pode voltar, restando apenas seguir em frente. Quanto ao relógio, ele representa o fato de que, por mais inanimados que pareçam, os objetos possuem valor sentimental; por onde passam, ficam em mãos que poderão gerar novas histórias significativas.
Jarmusch procura criar certa expectativa em relação ao encontro dos filhos com os pais, transmitindo a sensação de que algo pesado pode acontecer a qualquer momento. Se sentimos isso quando o patriarca segura um machado na primeira trama, em contrapartida, a mesa com café e guloseimas da segunda história torna-se um jogo psicológico, onde a mãe analisa cada gesto e fala das filhas. Tudo é filmado de forma que a simetria dá as cartas, transformando uma simples visita em um jogo onde sentimentos guardados afloram aos poucos.
Contudo, não há brigas nem tragédias escancaradas, mas sim a sensação da falta de coragem dos irmãos em se abrirem para seus pais — momentos que podem não se repetir. Se isso é latente nas duas primeiras partes, a última, por sua vez, reforça que todo começo tem seu fim. O que resta é colher a história que nossos entes queridos deixaram, seja através do que escreveram ou do que acumularam. Além de ser tecnicamente impecável, o filme é orquestrado por um grande elenco.
Enquanto os veteranos Tom Waits e Charlotte Rampling cumprem com êxito os papéis de pais excêntricos, Adam Driver, Mayim Bialik, Cate Blanchett e Vicky Krieps representam uma geração presa a sistemas e compromissos, sem tempo para compreender a real natureza de seus pais. Já os irmãos gêmeos interpretados por Luka Sabbat e Indya Moore, na terceira trama, trazem o oposto: o peso do arrependimento por não terem tido tempo de compreender seus pais em vida.
Em tempos nos quais a sociedade se encontra cada vez mais conectada ao trabalho e às redes sociais, o filme nos alerta para prestarmos mais atenção às pessoas à nossa volta e ao tempo que passa sem percebermos. Não cabe esperar; é preciso agir antes que seja tarde. "Pai Mãe Irmã Irmão" é uma análise minuciosa sobre laços familiares que se encontram, mas que, ao mesmo tempo, parecem distantes.
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