Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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Sinopse: Um lenhador leva uma vida tranquila enquanto lida com o amor e a perda em uma época de profundas transformações nos Estados Unidos do começo do século 20.
A gente nasce sozinho, morremos sozinhos e portanto viver sozinho não deveria ser um desafio mas um detalhe a ser aceito. Essa frase me veio à mente ao assistir ao ótimo "Gravidade" (2013), onde o espetáculo do universo despertava o desejo da protagonista em continuar viva e seguir com o seu destino. "Sonhos de Trem" (2025) não fala somente sobre o desafio perante a solidão, como também sobre como o mundo em volta muda independente do que aconteça com a gente em vida.
Dirigido por Clint Bentley, e baseado no conto escrito por Denis Johnson, o filme conta a história de Robert Grainier (Joel Edgerton) , madeireiro responsável por construir e expandir ferrovias pelos Estados Unidos no início do século XX. Robert cresceu entre as florestas do Noroeste do Pacífico. Robert precisou passar longos períodos afastado de quem mais amava: sua esposa Gladys (Felicity Jones) e sua pequena filha. Quando uma tragédia sem precedentes atinge a família, ele precisa aceitar a derrota e se esforçar para seguir em frente nesta jornada da vida.
O filme pode ser interpretado como a jornada do homem comum perante o progresso desenfreado do mundo em volta e do qual faz com que o tempo cada vez mais se acelere. Em meio a isso temos Robert que desde cedo mantém um olhar curioso com relação ao mundo, onde a violência se torna comum e se vê diante de um trabalho que mata aos poucos uma parte da natureza para que poderosos possam obter lucro. Contudo, Robert não muda, mas segue em sua jornada particular, mesmo quando ela lhe abre certas feridas emocionais que são difíceis de cicatrizar.
Além de uma direção primorosa de Clint Bentley é preciso destacar a bela fotografia feita pelo brasileiro Adolpho Veloso, onde cada quadro nos passa a sensação de uma terra fresca, mas que aos poucos é modificada pela mão do homem. As cores quentes iniciais do primeiro ato vão obtendo aos poucos tons sombrios, mas se nivelando com momentos em que há uma luz nas cenas que simboliza um lampejo de esperança para o protagonista. Não é à toa que Adolpho Veloso acabou levando o prêmio de melhor fotografia no último Critics Choice Awards.
Atuando desde o início dos anos noventa, tanto para a tv como para o cinema, Joel Edgerton obtém aqui uma de suas melhores atuações de sua carreira, onde ele consegue passar para o seu personagem certa doçura em uma realidade em que poderia lhe fazer se tornar uma pessoa mais dura. Ao mesmo tempo, o protagonista lida com o fato de estar quase sempre trilhando entre a lucidez com a possibilidade de estar vendo coisas com relação a sua família perdida nas chamas. A sua busca pelos seus entes queridos é o que torna o coração pulsante como um todo e fazendo a gente desejar que ele fique bem ao longo do caminho.
O filme, portanto, explora a questão de que todo o começo tem o seu fim. Porém, a vida continua, independente do que aconteça, pois ela cresce em meio a morte e gerando um novo recomeço cuja uma nova história irá se contar. Ao final, o protagonista se torna o nosso próprio olhar com relação a beleza e o lado implacável deste mundo sempre em movimento.
"Sonhos de Trem" é sobre fins e começos e onde a vida seguirá mesmo quando um dia ficaremos para trás.
Sinopse: Abandonada quando menina, Kya cresceu nos perigosos pântanos da Carolina do Norte. Quando um garoto da cidade é encontrado morto, Kya imediatamente se torna a principal suspeita. À medida que o caso se desenrola, o veredicto torna-se mais obscuro.
Ao menos nestes últimos vinte anos se tornou comum o cinema adaptar livros que se tornaram verdadeiros sucessos e que de em comum havia um crime a ser solucionado. Porém, não é sempre que o cinema norte americano acerta em saber separar cinema da literatura, sendo que a linguagem da escrita funciona muito mais nas folhas do que adaptadas em imagens em movimento. "Um Lugar Bem Longe Daqui" (2022) é um destes casos em que adaptação poderia ter sido melhor, desde que não tivesse caído em certas armadilhas em sua adaptação.
Dirigido por Olivia Newman, o filme é baseado no aclamado livro "Where the Crawdads Sing", de Delia Owens, onde acompanhamos a jovem Kya (Daisy Edgar-Jone), abandonada por sua família no decorrer dos anos e que pela comunidade ela é conhecida somente como a menina do pântano. Isolada na pequena cidade da Carolina do Norte, e o filme segue duas linhas temporais: A primeira sobre as aventuras da menina, e a segunda é sobre a investigação de um assassinato de um jovem do local na cidade e fazendo com que Kya se torne a principal suspeita.
Ao ter essa informação de que o filme é baseado em um livro se percebe que a sua narrativa fluiria melhor se realizadores esquecessem de sua fonte e pensassem em fazer mais cinema. Porém, o filme ganha a nossa atenção pelo fato da protagonista já ser presa e fazendo com que a trama transite entre o presente e as suas lembranças sobre o seu passado, por vezes, doloroso. Vemos então uma pequena jovem crescer em meio às adversidades e usando o seu talento de desenhar para obter algum significado em sua vida.
Vinda de séries de tv, a jovem atriz Daisy Edgar-Jone ainda terá muito o que aprender em termos de atuação, muito embora ela consiga segurar o filme nas costas, mesmo quando a sua narração off soa um tanto desnecessária para a compreensão da história. O que me incomoda talvez seja justamente alguns clichês amorosos explorados na trama, sendo que as vezes ele soa previsível e fazendo com que a gente tenha uma noção do que acontecerá em seguida. O segundo pretendente da trama, por exemplo, já nos deixa claro que de boa pessoa não tem nada e nos dá uma noção dos elementos que o fizeram ser morto já no início da trama.
Por mais que a narrativa nos prende atenção, já existe do segundo ao terceiro ato da trama elementos que nos faz prever o que irá acontecer em seu ato final. Embora seja um ato falho, ao menos quando se chega a esse ponto estamos mais do que envolvidos em saber qual será o seu desfecho. O final, por sua vez, surpreende ao guardar um grande segredo que é somente revelado no minuto final da trama.
No saldo geral, é um filme que fala sobre o quanto a mulher sofria com o preconceito e o conservadorismo de tempos distantes dos EUA. Kya, por sua vez, foi construída em meio a dor e ao lado cego daquela comunidade que não conseguia enxergar além do que os seus olhos poderiam ver. Por pior clichê que seja, ao menos não foge da realidade de diversas mulheres que tiveram que lutar pela vida perante um machismo bestial e que ainda insiste em existir hoje em dia.
"Um Lugar Bem Longe Daqui" é aquela adaptação literária para o cinema cheia de clichês, mas que ao menos mantém a nossa atenção até o seu derradeiro final.
O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho, fez história na 83ª cerimônia do Globo de Ouro ao se tornar primeiro filme brasileiro a levar dois prêmios em uma mesma edição. O primeiro prêmio da noite veio na categoria de melhor filme em língua não inglesa. Foi a terceira vez que um filme brasileiro ganha essa premiação. As vitórias anteriores foram de Central do Brasil (1999) e Orfeu Negro (1960) - neste último caso, porém, tratava-se de uma produção ítalo-franco-brasileira.
"Estou honrado de estar nesse grupo de grandes diretores estrangeiros. Eu dedico este prêmio aos jovens diretores. Este é um momento muito importante para se fazer filmes, aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Jovens americanos, façam filmes", disse Kléber Mendonça Filho ao receber o prêmio.
Wagner Moura levou o segundo prêmio do filme ao ganhar como melhor ator em filme de drama. "É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis", disse.
Confira a lista completa de indicados e vencedores.
Melhor filme de drama
"Frankenstein"
"Hamnet: A vida antes de Hamlet" (VENCEDOR)
"Foi Apenas um Acidente"
"O Agente Secreto"
"Valor Sentimental"
"Pecadores"
Melhor filme de comédia ou musical
"Blue Moon"
"Bugonia"
"Marty Supreme"
"A única saída"
"Nouvelle Vague"
"Uma batalha após a outra" (VENCEDOR)
Melhor ator em filme de drama
Joel Edgerton, "Sonhos de trem"
Oscar Isaac, "Frankenstein"
Dwayne Johnson, "Coração de lutador: The Smashing Machine"
Michael B. Jordan, "Pecadores"
Wagner Moura, "O Agente Secreto" (VENCEDOR)
Jeremy Allen White, "Springsteen: Salve-me do desconhecido"
Melhor atriz em filme de drama
Jessie Buckley, "Hamnet: A vida antes de Hamlet" (VENCEDORA)
Sinopse: Marty Mauser, um jovem com uma ambição desmedida, está pronto para tudo para realizar seu sonho e provar ao mundo inteiro que nada é impossível para ele.
HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET
Sinopse: Agnes, esposa de William Shakespeare, luta para suportar a dor da perda do filho, Hamnet.
FAMÍLIA DE ALUGUEL
Sinopse: Um ator americano em Tóquio, em busca de um propósito na vida, consegue um emprego incomum: trabalhar para uma agência japonesa de "famílias de aluguel" interpretando papéis de estranhos.
AGENTES MUITO ESPECIAIS
Sinopse: Jeff e Johnny têm um sonho: entrar para a polícia do Rio de Janeiro. Durante um treinamento, eles recebem do comandante a missão de se infiltrar numa penitenciária para desmantelar o terrível "Bando da Onça", que aterroriza a cidade.
Até o início dos anos sessenta os EUA era vendido para o mundo como o símbolo perfeito de uma nação democrática e cujo bem e o mal eram bem definidos. Mas o mundo estava mudando, a contracultura explodindo e uma nova geração de jovens que começou a surgir não se via nesta propaganda que, por vezes, era bastante enganosa. Porém, o que talvez tenha matado essa inocência tenha sido justamente o assassinato de John F. Kennedy.
No dia 22 de novembro de 1963, em Dallas, Texas, Estados Unidos às 12h30. Kennedy foi mortalmente ferido por um disparo enquanto circulava no automóvel presidencial na Praça Dealey. Posteriormente as cenas de vinte e nove segundos que mostram o político sendo morto veio à tona para o público e fazendo com que a realidade perfeita daquela sociedade fosse desfeita. Por conta disso, não havia como mais Hollywood vender o que eu chamo de “cinema plástico” da época e tendo que ousar assim como os outros cinemas do mundo que estavam colocando isso em prática, como no caso, por exemplo, do movimento cinematográfico francês conhecido como Nouvelle Vague.
A virada começou mais precisamente nos últimos anos da década de sessenta, onde os estúdios decidiram dar carta branca para jovens diretores que queriam colocar os seus projetos na mesa. Com o código Rays enfraquecido, eles se viram no direito de fazer filmes mais realistas, reflexivos e revelando a verdadeira cara dos EUA que não se via muito nas salas de cinema. Foi então que 1967 veio e com ele surgiu aquele filme que inaugurou o que hoje chamamos de " A Nova Hollywood"..... Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas".
Baseado em fatos verídicos, o filme se durante a Grande Depressão, onde Bonnie Parker (Faye Dunaway) conhece Clyde Barrow (Warren Beatty), um ex-presidiário que foi solto por bom comportamento, quando este tenta roubar o carro de sua mãe. Atraída pelo rapaz, ela o acompanha. Ambos iniciam uma carreira de crimes, assaltando bancos e roubando automóveis.
Em seu início de carreira, Warren Beatty se viu obcecado pela história do casal de assaltantes que desafiou o sistema e indo até as suas últimas consequências. O intérprete entrou no projeto como produtor e convidando Arthur Penn para a direção, sendo que o realizador já havia chamado atenção através do incrível "O Milagre de Anne Sullivan" (1962). No decorrer da pré-produção foi então que Beatty o decidiu atuar como Clyde, mas faltava saber qual seria a intérprete para Boonie.
Muitas atrizes foram sondadas, sendo que até mesmo Jane Fonda foi pensado para a personagem. O papel acabou ficando para a bela Faye Dunaway, sendo que para os familiares da verdadeira Bonnie ela não tinha nada a ver com relação ao que se lembravam dela. Porém, ao assistirmos aos minutos iniciais do longa, se percebe o quanto eles estavam errados, pois foi em poucos instantes que Dunaway consegue nos transmitir uma personagem à beira da loucura perante a sua vida monótona e vendo em Clyde a chance de fazer algo de diferente. É então que nascia ali um dos casais da ficção mais famosos do cinema.
A química entre Beatty e Dunaway impressiona até hoje, onde vemos ambos se complementarem, mesmo quando Beatty demonstra sinais de impotência e sendo algo até então raro ao ser discutido para aquela época. Em termos de novidade, por exemplo, logicamente se tem na questão da violência, por vezes, explícita e onde o sangue jorra na tela a partir do momento em que os personagens levam bala. Até então isso era algo nunca explorado no cinema, sendo que Arthur Penn encheu os atores com saquinhos de sangue falso e uma vez que sendo estourados se criava então um momento bastante verossímil e violento.
Vale destacar também um dos primeiros trabalhos elogiados do ator Gene Hackman, que aqui interpreta o irmão de Clyde chamado Buck e nos brindando com uma interpretação digna de nota e que nos dá uma dimensão do que o intérprete faria posteriormente ao longo da carreira. Outra presença que nos chama atenção é a esposa do personagem de Hackman chamada Blanche, sendo interpretada pela atriz Estelle Parsons e que aqui ela é filha de um pastor e cuja o seu lado alterado nos passa a sensação de que ela está no lugar errado e na hora errada dentro do grupo. Não é à toa que ela veio a ganhar um Oscar de atriz coadjuvante pelo seu desempenho.
Em termos de reconstituição de época Arthur Penn caprichou tanto na fotografia como também na edição de arte. Ao retratar os tempos da depressão norte-americana vemos um país quase em frangalhos, onde assistimos os necessitados vendo no casal de assaltantes um símbolo de resistência contra o sistema capitalista que levou a nação a ruína. Curiosamente, o filme estava chegando em um momento em que os EUA estavam novamente em crise econômica com a sua entrada na guerra do Vietnã e se alinhando posteriormente com o escândalo Watergate.
Não faltou logicamente críticos conservadores da época alegando que o filme seria uma má influência para os jovens, pois segundo eles o longa endeusava a jornada criminosa do casal central. O caso é que o filme foi justamente abraçado pela nova geração da época que não seguia regras, gostava de seguir a sua própria moda e não se intimidavam ao questionar o próprio governo que vendia a todo o custo a propaganda do mundo perfeito. O que talvez ninguém estivesse preparado para época era o seu fulminante final como um todo.
A morte de Bonnie e Clyde nos minutos finais de projeção foi o fim e o início de uma nova era para Hollywood, cujo estúdios começaram a se arriscarem mais e lançando obras que hoje são consideradas obras primas do cinema como foi o caso de "O Poderoso Chefão" (1972). A cena por si só remete o próprio assassinato de John F. Kennedy, sendo uma espécie de mensagem subliminar ao nos dizer que os próprios norte-americanos se matam uns aos outros a partir do momento em que determinados indivíduos mudam o seu próprio percurso. A inocência, portanto, se desfez e o cinema norte americano acordou de forma tardia, mas muito bem-vinda.
Marcando também a estreia do inesquecível ator Gene Wilder, "Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas" é o marco inicial da melhor fase do cinema norte americano e simbolizando a morte da inocência do país como um todo.
Sinopse: Um impasse entre um xerife e um prefeito de uma pequena cidade gera um conflito entre vizinhos, em maio de 2020, em Eddington, Novo México.
Ari Aster é aquele tipo de cineasta autoral que ame ou odeie e por conta disso os seus longas sempre terão algo a dizer mesmo quando alguém não entender de imediato. Se "Hereditário" (2018) e "Midsommar" (2019) foram filmes que serviram para ele obter carta branca ao fazer o que bem entender, por outro, essa liberdade ganhou estranhamento e dividindo a opinião do público e da crítica com o seu "Beau Tem Medo" (2023)."Eddington" é mais um longa que irá dividir o público e é justamente por isso que merece ser conferido.
A trama se passa em Maio de 2020, durante a pandemia de Covid-19.Uma desavença entre o xerife (Joaquin Phoenix) e o prefeito (Pedro Pascal) de uma pequena cidade do Novo México chamada Eddington rapidamente transforma o local em caos ao instalar um estopim. Vizinhos são colocados uns contra os outros, deixando para trás a serenidade e tranquilidade que aparentemente predominava na cidade.
Em tempos de pandemia foi comum cada vez mais ver as pessoas quebrando as regras da quarentena, desde a sair sem máscara, desrespeitando o distanciamento e propagando fake news para denegrir aqueles que buscavam um meio de proteger a população do vírus. Ari Aster propõe fazer uma espécie de parábola com relação àquele período e usando a trama para termos uma dimensão do que já tínhamos visto no nosso mundo real. Revermos na tela determinadas situações nos faz perguntar o quanto recuamos ao abraçarmos a ideia de sermos sempre a voz da razão e endeusar aqueles que eram contra o combate à pandemia.
Ao mesmo tempo, o realizador escancara uma sociedade cada vez mais presa às redes sociais, em não somente se tornar uma celebridade instantânea, como também ficar propagando mentiras falsas e denegrindo outras pessoas. Neste cenário, portanto, há uma disputa política, seja pelos pensamentos distintos com relação ao vírus, como também usar isso como mera desculpa para piorar as diferenças um do outro. Uma realidade em que o indivíduo mesquinho se torna a voz que molda a mente de muitos e causando diversos estragos.
Joaquin Phoenix interpreta um xerife que vai contra todas as regras imposta pela prefeitura, ao ponto que enxerga o poder das redes sociais como uma forma de se promover como a solução para a cidade e desejando ser o novo prefeito. Ao mesmo tempo, Pedro Pascal interpreta a voz da razão na trama, mesmo se deparando com situações que o colocam encurralado e fazendo com que o xerife obtenha espaço. Já Emma Stone surpreende em uma atuação contida, mas que não esconde alguém esgotada perante tantas desinformações, mentiras e o desequilíbrio que começa a adentrar aquela cidade.
Desequilíbrio talvez seja a melhor palavra que se encaixa com relação ao seu desenvolvimento da história. Ari Aster exagera um pouco na criação de subtramas, mas que embora não apresente certa relevância, somente na reta final elas possuem alguma importância. Ao mesmo tempo, o sentimento com relação ao protagonista se torna conflituoso, já que a gente deseja que ele pague pelos atos que ele cometeu, mas não escondendo uma certa inocência quando achava que tudo tinha sob controle. É então que Ari Aster surpreende até mesmo em cenas de ação, onde o protagonista se vê encurralado e se armando até os dentes para enfrentar um inimigo desconhecido.
Acima de tudo, é um filme que fala sobre tempos sombrios, mas cuja desinformação, fake news e falsos profetas prosseguem e gerando assim a desinformação desenfreada que ainda persiste. Curiosamente, o realizador não permite que somente haja um lado culpado dessa história, pois os próprios que acreditam estar defendendo uma causa justa podem estar alimentando também a máquina de ódio e que deseja que tudo pegue fogo. Ao final constatamos que ambos os lados perdem nesta batalha, pois sempre tem algo maior que acaba saindo por cima.
"Eddington" nos revela uma sociedade em que cada um está preso em sua bolha e acreditando somente no que lhe convém mesmo quando tudo em volta se deteriora.