Sinopse: Uma garotinha vive seus primeiros anos em estado quase vegetativo no Japão pós-guerra. Quando prova chocolate pela primeira vez, seus sentidos despertam, iniciando uma jornada de puro deslumbramento.
Quando se é criança, o mundo se torna mágico e desperta a nossa atenção para cada detalhe que passa diante de nossos olhos. "Coraline" (2009), por exemplo, foi um longa com o qual me identifiquei bastante, pois a pequena protagonista vivia situações que até mesmo remetiam à minha infância. "A Pequena Amélie" (2025) caminha por uma trilha semelhante, na qual os primeiros anos de uma menina se transformam em uma experiência extraordinária, permitindo-lhe vivenciar tanto a felicidade quanto a tristeza.
Dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, o filme conta a história de Amélie, uma menina belga nascida no Japão em um estado praticamente inerte. Por volta dos seus dois anos, o contato com o sabor do chocolate — trazido por sua avó — e os estímulos ao seu redor fazem com que ela desperte e comece a se mover livremente pelo mundo. A partir daí, Amélie é confrontada com um senso de curiosidade único: ao perceber que o universo externo é repleto de novidades, ela parte em uma aventura para explorar tudo ao seu redor.
Embora seja uma animação feita de forma tradicional, é notório o uso de efeitos visuais digitais no decorrer da projeção. Tudo é colocado em prática para que o trabalho se consolide como um dos mais belos longas animados dos últimos anos — algo que merecia, inclusive, ser visto na tela grande. A curiosidade da protagonista perante o espaço transforma cada detalhe à sua volta em um verdadeiro mosaico de descobrimentos.
É instigante também a sua enigmática abertura, na qual surge uma reflexão teológica sobre Deus, sugerindo que Ele teria encarnado na menina para vivenciar a experiência humana. Embora essa perspectiva vá se transformando à medida que conhecemos a personalidade da pequena protagonista, a ideia sintetiza a noção filosófica de um olhar divino sobre as coisas cotidianas, conferindo ao longa um peso conceitual ainda maior. Se o filme se torna rico em conteúdo para os adultos, para os pequenos é um prato cheio por seu apelo visual e pelo carisma de Amélie.
Claro que não faltam elementos dramáticos. A personagem enfrenta perdas que a fazem quase perder o prazer de viver. O papel da morte, por exemplo, surge como uma representação de mudanças e mistérios que forçam a jovem a amadurecer. Ao mesmo tempo, a obra tangencia o impacto da guerra, que não provoca apenas perdas materiais, mas também fratura laços e visões de mundo que deveriam estar unidas.
Acima de tudo, é um filme meigo e afetuoso, cuja mensagem final nos exorta a viver ao máximo, lembrando que a vida é curta mesmo quando ignoramos essa verdade. Com apenas três anos, Amélie vivencia sentimentos que muitos adultos hoje já não conseguem enxergar, presos como estão em seus afazeres digitais e esquecendo-se do que nos torna humanos. Portanto, é sempre muito bem-vindo um longa como este, que nos relembra o quanto devemos agradecer pelo mundo fascinante em que vivemos.
"A Pequena Amélie" é uma obra que nos encanta por sua beleza estética e por sua reflexão genuína sobre o verdadeiro significado da existência.
Onde Assistir: Prime Vídeo
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