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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 12 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Surda'

Nota: O filme estreia dia 14 de maio.

Sinopse: A surdez de Angela gera preocupações durante sua gravidez sobre a conexão com sua filha. Após o parto, seu parceiro Héctor a apoia enquanto ela aprende a ser mãe em uma sociedade que não oferece acomodações adequadas para pessoas com deficiência auditiva.

Nos últimos tempos, o cinema tem explorado protagonistas cujo desafio é viver em um mundo silencioso e aprender a coexistir com ele. Se em "O Som do Silêncio" (2019) vemos o personagem lidando com uma perda súbita, e em "No Ritmo do Coração" (2021) testemunhamos uma família adaptada ao silêncio enfrentando o preconceito, "Surda" (2026) nos revela uma mulher que precisa aceitar um mundo onde o som é onipresente, enquanto busca o direito de ser compreendida em sua totalidade.

Dirigido por Eva Libertad, o filme narra a história de Angela (Miriam Garlo), uma mulher surda que vivencia a maternidade pela primeira vez ao lado de seu parceiro ouvinte, Héctor (Álvaro Cervantes). Com a chegada do bebê, Angela enfrenta as complexidades de ser mãe em uma estrutura social que não foi projetada para pessoas como ela.

Eva Libertad constrói a trama com uma delicadeza e simplicidade que cativam pelo carinho do olhar. Grande parte dessa atmosfera se deve ao fato de a cineasta dirigir a própria irmã; isso transforma a obra em algo que transcende a ficção, tornando-se um retrato quase real dos sentimentos da atriz Miriam Garlo. O filme parece ter sido moldado para ela, que consegue transmitir emoções genuínas, permitindo ao espectador uma dimensão mais profunda de sua realidade.

A protagonista Angela transita bem em seu cotidiano com o apoio de um parceiro que compreende sua condição. Contudo, após o nascimento da filha — que não possui a mesma deficiência — Angela passa a se sentir deslocada, como uma "estranha no ninho". Testemunhamos sua ação e reação: em boa parte da trama, ela observa o entorno, buscando formas de interagir sem se sentir isolada.

Em uma era de hiperconectividade e perda de privacidade, o filme revela que não ouvir o som ao redor tem seu lado negativo, mas também nos permite enxergar o que as pessoas, em geral, já não conseguem notar. A comunicação é o que nos torna humanos; mesmo na ausência de um sentido primordial, o toque e a compreensão bastam para eliminar o deslocamento. O ato final é primoroso: Angela aprende por meio de experiências duras, e o uso de cenas sem som algum torna a experiência cinematográfica sublime.

Vencedor de três prêmios Goya, "Surda" é um retrato delicado de quem luta contra limitações impostas pelo meio, ansiando apenas por ser notada e sentir-se verdadeiramente viva.

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Cine Dica: Newsletter de 14 a 20 de maio

Mostra Diana Ross no Cinema revisita a trajetória de uma das maiores figuras da cultura popular do século XX, enquanto as cópias restauradas de Suspiria e Veneno para as Fadas seguem em cartaz.A Cinemateca divulga sua programação de 14 a 20 de maio, com destaque para a mostra Diana Ross no Cinema, dedicada à trajetória cinematográfica de uma das figuras mais influentes da cultura popular no século XX e referência fundamental para a cultura afro-americana.

A mostra reúne três títulos estrelados por Diana Ross durante a década de 1970: o musical cult O Mágico Inesquecível (The Wiz, 1978), dirigido por Sidney Lumet; Mahogany (1975), melodrama ambientado no universo da moda; e O Ocaso de uma Estrela (Lady Sings the Blues, 1972), cinebiografia de Billie Holiday que rendeu à artista uma indicação ao Oscar. Todas as sessões da mostra têm entrada franca.

A programação da semana também conta com as cópias restauradas em 4K de Suspiria (1977), clássico absoluto do horror de Dario Argento, e Veneno para as Fadas (1986), obra-prima do cinema fantástico mexicano dirigida por Carlos Enrique Taboada. Informamos também que, devido a um problema técnico temporário, a divulgação da programação da Cinemateca está sendo realizada, neste momento, exclusivamente por meio de nosso Instagram (@cinematecacapitolio) e mailing eletrônico.

Confira a programação completa da Cinemateca clicando aqui.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Mambembe'

 Nota: O filme estreia dia 14 nos Cinemas. 

Sinopse: Um topógrafo viaja pelos cantos do Brasil e conhece três artistas de circo mambembe. As histórias desses personagens revelam uma trama contemplativa sobre o acaso e a construção artística.

"Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo" (2009), de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, fez escola na história do cinema brasileiro. A partir dele, consolidou-se uma onda de híbridos entre documentário e ficção, em que histórias elaboradas transitavam pelo viés documental, fundindo real e fantasia em um único projeto. Filmes como "Branco Sai, Preto Fica" (2014) e "A Vizinhança do Tigre" (2014) fortaleceram essa tendência, na qual as fronteiras entre o verídico e o inventado tornavam-se propositalmente nebulosas.

"Mambembe" (2026) segue essa mesma cartilha, mas com um diferencial: o filme não camufla onde começa e termina cada instância, o que torna a experiência cinematográfica ainda mais interessante. Dirigido por Fábio Meira — realizador de longas como "As Duas Irenes" (2017) e "Tia Virgínia" (2023) —, o filme narra o encontro de três mulheres de um circo itinerante (Índia Morena, Madonna Show e Jéssica) com um misterioso topógrafo. A partir dessas interações, desenha-se uma trama que mistura realidade e ficção ao longo de 15 anos, revelando-se uma jornada sobre o tempo, a arte circense e o próprio cinema.

Em seus trabalhos anteriores, Fábio Meira explora laços familiares que, por vezes, fogem do ideal de "família perfeita", revelando a face autêntica do cotidiano brasileiro. Pode-se dizer que "Mambembe" é seu filme mais pessoal ao transformar o fotógrafo andarilho, vivido por Murilo Grossi, em uma espécie de representação de seu próprio pai. É uma obra feita com evidente afeto, que presta homenagem ao universo circense — hoje em declínio, mas que mantém intacta a arte da resistência cultural.

O grande charme da obra reside na transição entre o registro ficcional e o documental. Enquanto Dandara Ohana dá vida a Jéssica (ex-artista de Belém), Índia Morena e Madonna Show interpretam a si mesmas, revisitando o passado ao cruzarem o caminho do protagonista. O resultado são atuações autênticas, em que o valor não está no improviso, mas na presença genuína dessas mulheres e no que elas se tornaram ao longo da vida.

Diferente das referências citadas no início, aqui Fábio Meira deixa as divisões mais claras, colocando-se à frente da câmera para dirigir seus intérpretes. É como se o projeto, inicialmente concebido como ficção, ganhasse força ao revelar sua própria construção, expondo a vontade de colocar a cultura em prática. Em muitos momentos, o que começa como uma cena simples ganha complexidade, como se qualquer passo em falso exigisse que os envolvidos recomeçassem do zero.

Além disso, o diretor utiliza com maestria o formato Super-8, remetendo ao início dos anos 80, quando essa estética era popular entre realizadores que buscavam um cinema fora dos padrões. Além de surgir em cena, o cineasta conduz uma ótima narração em off, essencial para momentos que não vemos, mas sentimos. Exemplo disso é a cena do encontro de Madonna com seu filho, cuja reconstituição ocorre apenas pela voz de Meira, tornando o momento digno de nota.

Acima de tudo, "Mambembe" é um filme sobre a resistência da arte brasileira perante os tempos de mudança. Em uma época em que o público anseia por novidades, o longa oferece os ingredientes ideais para quem deseja desfrutar de algo que foge das convenções. É uma experiência em que documentário e ficção se entrelaçam para revelar a força da cultura circense como um todo.

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Cine Dica: “Cinema socioambiental” tem três sessões com debate

Com nove produções brasileiras na programação, como Ilha das Flores (1989), “Xingu” (2011) e “Lixo extraordinário” (2010), a Sala Redenção convida o público a refletir sobre o cenário global de crise climática por meio da mostra “Cinema socioambiental”. A programação, realizada em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis do Rio Grande do Sul (Ibama/RS), acontece de 8 a 22 de maio com entrada franca.

A mostra inicia no dia 8, às 14h, com “Xingu” (2011), longa-metragem de Cao Hamburger que acompanha os irmãos Villas-Bôas na Expedição Roncador-Xingu, na década de 1940. No dia 14, no mesmo horário, “Lixo extraordinário” (2010) documenta o trabalho do artista visual Vik Muniz no Jardim Gramacho (RJ), maior aterro sanitário da América Latina. Ambas as sessões são seguidas de conversa com o setor Educativo do Ibama/RS.

Já no dia 15 de maio, às 14h, são exibidos os curta-metragens “O veneno está na mesa” (2011), “Ilha das Flores” (1989) e “Recife frio” (2009). Após a sessão, integrantes do G6+Direitos Humanos, grupo ligado ao Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da UFRGS, conduzem um bate-papo sobre os filmes. Na noite do mesmo dia, às 19h, a programação segue com “Águas de maio” (2025), longa-metragem que registra o trabalho voluntário realizado pela Faculdade de Farmácia da UFRGS e por outras entidades farmacêuticas durante as enchentes de 2024 no estado. A exibição é seguida de conversa com o diretor Lucas Moraes.

No dia 21, às 19h, é a vez de “Comida de mentira” (2025), documentário sobre a indústria dos ultraprocessados cuja apresentação é acompanhada de conversa com as professoras Tatiana Camargo e Marilisa Hoffman, do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências (PPGECI), e com os mestrandos Edu Lopes e Julia Sokolovsky.

Para finalizar a mostra, no dia 22 de maio, a Sala Redenção exibe “25 anos da Feira do Menino Deus: a cidade encontra o campo” (2020) e “Mãos à terra” (2025), às 14h e às 16h, respectivamente. Ambas as sessões contam com bate-papo com as pessoas realizadoras.

“Cinema Socioambiental” tem apoio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Casa de Cinema de Porto Alegre, Vitrine Filmes e ACT Promoção da Saúde.

confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

domingo, 10 de maio de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Uma Carta à Minha Juventude'

Sinopse: Em um orfanato, um jovem rebelde e seu cuidador formam um vínculo inesperado enquanto tentam superar seus passados dolorosos.

Certos traumas são difíceis de deixar para trás, principalmente aqueles que envolvem a perda de alguém. A situação se agrava quando isso acontece precocemente, cabendo ao lado sábio de uma pessoa vivida identificar o problema e oferecer ajuda, fundamentada em seus próprios dilemas superados. O filme indonésio "Uma Carta à Minha Juventude" (2026) é uma fábula verossímil sobre cicatrizes emocionais que parecem jamais fechar.

Dirigido por Sim F, o longa narra a história de um jovem rebelde cujo caminho se cruza com o de um cuidador introspectivo durante sua passagem por uma instituição de acolhimento. Apesar das dificuldades iniciais, ambos constroem uma relação sincera, na qual os traumas do passado tornam-se o combustível ideal para a manutenção dessa amizade.

A trama inicia-se de forma curiosa: passado e presente se intercalam sem aviso prévio, exigindo atenção redobrada do espectador. Esse recurso é essencial para compreendermos as motivações de um dos protagonistas e as razões que o levam a agir de forma quase paranoica em relação aos cuidados com a filha. Quando ele é forçado a encarar o passado, somos apresentados a um grande e revelador flashback.

É interessante notar como o diretor Sim F conduz uma narrativa em que os elementos dramáticos se elevam, mas também abre espaço para momentos de humor e ternura através do elenco mirim, permitindo que o longa dialogue com todas as idades. O filme destaca-se pela atuação do veterano Agus Wibowo, que interpreta o cuidador do orfanato. Ele constrói um personagem contido, que esconde dores latentes. Através do jovem protagonista, ele percebe que ainda é útil, buscando evitar que o rapaz cometa os mesmos erros que ele próprio cometeu outrora.

Embora produzido na Indonésia, o filme aborda temas universais, desde a prática do bem até a resiliência necessária para amadurecer perante os obstáculos. É uma obra com a qual nos identificamos; embora as dores emocionais possam nos assombrar, a mensagem de um terceiro pode aliviar o pesar e permitir o crescimento. "Uma Carta à Minha Juventude" é uma pequena e poderosa lição de vida para aqueles que ainda enfrentam perdas nesta jornada.

Onde Assistir: Netflix. 


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Cine Dica: Próxima Atração do Cine Clube Torres - 'Paraíso Perdido'

 "Paraíso Perdido", musical de Monique Gardenberg, na tela do Cineclube Torres na próxima segunda, dia 11, às 20h, com entrada franca.

Segue a programação do ciclo de maio na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, em homenagem ao ator porto-alegrense Júlio Andrade. Segue a programação do ciclo de maio na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, em homenagem ao ator portoalegrense Júlio Andrade. Paraíso Perdido é um clube noturno alternativo gerenciado por José (Erasmo Carmo) e movimentado por apresentações musicais de membros da família, os filhos Ângelo (Júlio Andrade) e Eva (Hermila Guedes), o filho adotivo Teylor (Seu Jorge) e os netos Celeste (Julia Konrad) e Imã (Jaloo), todos unidos pela música.

Neste musical, repleto de música popular romântica, também apelidade de "brega", o Júlio Andrade mostra também a faceta de cantor, interpretando a canção "Não Creio em Mais Nada" de Paulo Sérgio. "Poema boêmio, "Paraíso Perdido" é um convite a se discutir formações familiares erigidas na incongruência do querer, mas também um convite a se repensar convenções morais do nosso cinema." (Rodrigo Fonseca em O Estado de São Paulo).

A exibição integra um ciclo de 4 filmes que mostram a versatilidade de Júlio Andrade, hoje um dos mais talentosos atores da sua geração a nível nacional. A sessão será realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, contando para isso com a parceria e o patrocínio da Up Idiomas Torres. Entrada franca até a lotação do espaço.

O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.


Serviço:

O que: Exibição do filme "Paraíso Perdido" (2018) de Monique Gardenberg

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 11/5, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Disque M Para Matar'  

Nota: Filme exibido para os associados no último dia 02/05/26.  

Alfred Hitchcock nunca escondeu a sua predileção em fazer filmes dentro do estúdio ao invés de cenas externas. É curiosa, por exemplo, a cena que o casal central  de "Os Pássaros" (1963) sobem em um morro real para logo ver os dois em um cenário que logicamente foi feito em estúdio. São esses pequenos detalhes que sempre me chamaram atenção, porém, o  realizador nunca se limitou em rodar somente em estúdio, mas sim usar essa limitação para expandir a sua criatividade como um todo.

Em "Festim Diabólico" (1948) o realizador cria toda uma trama de assassinato dentro de um apartamento, onde o cineasta  filma boa parte das cenas em plano-sequência e nos dando a sensação que tudo foi feito em um palco de teatro. Há quem diga que essa transição entre teatro e cinema muitas vezes não dá certo, pois são duas artes de se contar uma história, mas cuja as ferramentas quase nunca são as mesmas. "Disque M Para Matar" (1953) é uma pequena aula de como se faz um filme que nos transmite uma peça de teatro, mas tendo consigo as peças que moldam a sétima arte como um todo.

Baseado na peça de  escrita pelo dramaturgo inglês Frederick Knott, o filme se passa em Londres, onde um ex-tenista decide matar sua mulher, para poder herdar seu dinheiro e também como vingança por ela ter um amante norte americano e que se encontra na cidade. Ele acaba chantageando um colega de faculdade para matá-la, dando a entender que o crime teria sido cometido por um ladrão. Mas quando algo sai muito errado, ele vê uma maneira de dar um rumo aos acontecimentos em proveito próprio.

Basicamente Hitchcock filma quase boa parte de toda trama dentro do apartamento onde ocorre o crime, sendo que raras vezes surge uma cena externa e quando elas acontecem é notório que elas foram rodadas em estúdio. Pelo fato de ocorrer em um único cenário a trama nos provoca certa claustrofobia, principalmente quando a tensão surge no ar, seja no momento em que o marido começa arquitetar o seu plano, como também o crime em si que se torna o ápice do filme como um todo. Além disso, o realizador não deixa de fazer os seus jogos de câmera mesmo em um espaço limitado, como no caso das curtas cenas de plano sequência que impressionam até nos dias de hoje.

Mas uma das minhas partes preferidas é quando o marido contrata o assassino, interpretado por Patrick Allen, e começa lhe explicar como tem que ser feito o crime perfeito. Repare que, neste momento, Hitchcock filma de cima, como se nos dissesse para prestarmos atenção em cada peça do local que servirá de cenário para o possível assassinato. Uma vez que isso acontece, criamos então a cena do crime mentalmente, mas para somente não se encaixar com os desdobramentos do ato quando acontece. A cena, por sua vez, se torna o momento mais sufocante do longa, principalmente pela maneira que um dos personagens morre e cuja uma tesoura se torna peça primordial do ato.

Vale destacar que esse foi o primeiro filme Grace Kelly trabalhou com Alfred Hitchcock, sendo que posteriormente ela viria a trabalhar com ele  em "Janela Indiscreta" (1954) e "O Ladrão de Casaca" (1955). É curioso, por exemplo, a maneira como o diretor apresenta a sua personagem nas primeiras cenas, sendo inicialmente com roupas comportadas nas cenas com o marido, para logo a seguir vê-la com um vestido vermelho com o amante. Seria uma forma de, inicialmente, discordarmos dela por estar traindo o marido, mas para logo em seguida sentirmos pena dela por estar sendo vítima de um crime hediondo.

Já Ray Milland esbanja elegância, ao interpretar o marido de uma forma refinada, controlada e extremamente fria com relação às suas reais intenções dentro da trama. Ardiloso como ninguém, o seu personagem simplesmente deixa o assassino contratado em um beco sem saída e cuja cena se torna outro ponto alto do longa. Ray Milland se tornou conhecido por ter levado um Oscar pelo seu desempenho em "Farrapo Humano" (1948), mas na minha opinião ele obteve aqui a melhor atuação de sua carreira. 

E se por um lado Robert Cummings se torna um ponto fora da curva ao interpretar o amante, do outro, Patrick Allen esbanja simpatia ao interpretar o detetive Pearson. Com jeito refinado e frio em suas observações, é mais do que notório que o personagem foi inspirado no protagonista  Hercule Poirot dos livros de Agatha Christie e que com certeza o intérprete se encaixaria perfeitamente caso tivessem feito alguma adaptação dos livros na época. O personagem em si se torna o verdadeiro protagonista no final do longa e fazendo com que a sua investigação se torne dinâmica até o último minuto da história. 

Curiosamente, "Disque M Para Matar" também foi uma forma de Alfred Hitchcock experimentar o uso do 3D da época, ao fazer com que alguns objetos de cena nos desse a sensação de estarem saltando da tela. Mas assim como no cinema recente, essa forma de assistir cinema não perdurou muito, sendo que não importa quantas coisas são jogadas contra o público quando está assistindo ao longa, sendo que o mais importante é aproveitar uma boa história. Nisso  Alfred Hitchcock tinha grande talento, mesmo quando surgia uma nova tecnologia que pudesse mudar o seu foco.

Em "Disque M Para Matar" nos revela um Alfred Hitchcock ilimitado, mesmo quando a trama gira em torno de um único cenário.   

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