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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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domingo, 12 de julho de 2026

Cine Especial: Cineclube Torres - 'Que Fiz Eu Para Merecer Isto?'

Nos primórdios de sua carreira, Pedro Almodóvar talvez tivesse o desejo de extravasar, através de sua arte, algo que não podia ser colocado em prática nos tempos do Franquismo (1939 - 1975). Se isso já era notado em "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão"(1980), logo foi escancarado em "Maus Hábitos" (1983), obra que fez vários setores ainda defensores dos tempos ditatoriais irem à loucura. "Que Fiz Eu Para Merecer Isto?"(1984) é a desconstrução da família politicamente correta — aquela que sempre esteve lá, porém de forma censurada.

Na trama, Gloria (Carmen Maura) é uma dona de casa infeliz, casada com Antônio (Ángel de Andrés López), um motorista de táxi grosseiro e infiel. Gloria é obrigada a trabalhar incessantemente para sustentar a família, que ainda é composta por um filho traficante, uma sogra excêntrica e outro adolescente, que ela decide "vender" ao seu dentista. Para completar, Gloria, viciada em anfetaminas e remédios, entra em uma fase de abstinência e passa a perder o controle.

Embora a produção tenha sido feita após a extinção da ditadura franquista, no meu entendimento, o filme pode ser interpretado como um simbolismo ou uma representação dos primeiros anos da vida do cineasta como um todo. Os dois irmãos vistos na tela, por exemplo, parecem alter egos de sua pessoa quando jovem — muito embora essa talvez não tenha sido a intenção consciente do realizador, permitindo que o espectador tire suas próprias conclusões. Em contrapartida, as mulheres da história funcionam como a manifestação dos diversos tipos de personalidades femininas que rodeavam o diretor em tempos hoje longínquos.

Se levarmos em conta essa representação de sua juventude, a ideia se solidifica ao notarmos que a fotografia do lado de fora daqueles apartamentos é um tanto acinzentada, como se não houvesse muita expectativa positiva. Em contraposição, o apartamento, mesmo sendo um cenário minúsculo, é repleto de cores quentes e fotografias de artistas, escondendo alguns prazeres que aquela família oculta dos olhares externos. Se em "Maus Hábitos" as personagens buscavam refúgio no convento para suprir suas necessidades, aqui a família tradicional não esconde, do lado de dentro do lar, que está mais fragmentada do que nunca.

Carmen Maura brilha ao interpretar uma mulher à beira de um ataque de nervos, que busca satisfação fora do casamento, mas não tem essa necessidade correspondida. Além disso, seu lado frio se torna tão acentuado que ela não hesita em entregar um dos filhos a um dentista possivelmente pedófilo, culminando em momentos desconcertantes, para dizer o mínimo. Porém, tudo é tratado com a maior naturalidade, pois os absurdos cotidianos daquela família fazem com que essa situação se torne um mero detalhe.

O filme aborda a questão da impotência, porém não somente a sexual, mas também a incapacidade daquelas pessoas em contornar os problemas que surgem. Dessa impotência nasce a frieza, fazendo com que alguns personagens tratem de certos assuntos com total banalidade, sem se importar com as consequências. Porém, uma vez que o inevitável acontece, os personagens que surgem na tela — dentro ou fora do apartamento — já estão completamente sugados por seus próprios devaneios.

Ao final, o filme nos revela o destino daquela família: cada um segue o seu devido caminho, enquanto a mãe se vê sozinha, da maneira que finalmente queria. Porém, quando um dos filhos retorna para casa, revela-se um elemento simbólico: se anteriormente todos queriam se livrar uns dos outros naquele cenário, no fim, viram-se impotentes perante a solidão. No meu entendimento, Almodóvar nos diz que se tornou o que é hoje graças ao papel primordial das mulheres em sua realidade, quase nunca se sentindo impotente perante tempos em que ainda não se tinha uma noção clara sobre o próprio futuro.

"Que Fiz Eu Para Merecer Isto?" é uma das obras fundamentais do início da carreira de Pedro Almodóvar e revela as raízes primordiais que moldaram a sua identidade artística.


"O que fiz para merecer isto?", clássico de Pedro Almodóvar, na sessão de segunda-feira dia 13, às 20h, no Cineclube Torres.

No sábado, dia 11, o Cineclube Torres estará também presente na III Mostra de Artes na Galeria Ten Caten, com uma seleção de cartazes desenhados pelo Tommaso Mottironi. Na próxima segunda, no âmbito do ciclo de filmes de julho, com protagonistas femininas ligadas a trabalhos domésticos, tem a oportunidade de (re)ver uma comédia dramatica do renomado Pedro Almodóvar. Em "O que fiz para merecer isto?" Gloria (Carmen Maura) trabalha dobrado para sustentar o marido infiel e uma sogra exploradora. Mas a dupla jornada, o vício em remédios controlados e o bairro problemático levam a uma espiral de acidentes e confusões.

'"Que Fiz Eu Para Merecer Isto? se destaca entre os filmes menos estilizados de Almodóvar, mas talvez seja um dos mais importantes no retrato e problematização dos dilemas urbanos e domésticos da classe trabalhadora de Madri (e de grande parte do mundo ocidental). Densa população, moradias quase inabitáveis, analfabetismo, delinquência juvenil, abuso de drogas e desemprego em índices altíssimos – ainda maiores para as mulheres. Tudo devidamente retratado e criticado, ainda que com gargalhadas garantidas e a assinatura singular de Pedro Almodóvar.' (Conrado Heoli)

As sessões serão realizadas às segundas-feiras às 20h na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço.No sábado, às 16 na Galeria Ten Caren (R. Júlio de Castilhos, 477) o vernissage da III Mostra de Artes, com 6 artistas convidados, incluindo o designer dos mais de 100 cartazes do Cineclube Torres. (Ver matéria anexa)

O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.


Serviço:

O que: Exibição do filme "O que fiz para merecer isto?" (1984) de Pedro Almodóvar

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 13/7, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur

CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917