Sinopse: É um dia decisivo na vida de Steve (Cillian Murphy), o dedicado diretor de um reformatório inglês nos anos 90.
Tim Mielants é um cineasta belga que construiu uma sintonia notável ao dirigir Cillian Murphy. Após trabalharem juntos na terceira temporada de "Peaky Blinders" (2013-2022) e na adaptação de "Pequenas Coisas Como Estas" (2024), a parceria se repete em "Steve" (2025). Aqui, o diretor extrai ao máximo o talento do ator em meio a uma trama que coloca todos os personagens à beira de um ataque de nervos e rebeldia.
Com roteiro assinado por Max Porter, inspirado em seu próprio livro (Shy), acompanhamos um único dia na vida do protagonista Steve (Cillian Murphy), diretor de um reformatório inglês na década de 1990. Enquanto tenta proteger a integridade da instituição e evitar o seu iminente fechamento, ele enfrenta a deterioração de sua própria saúde mental, esgotada pela exaustão e pelas exigências do trabalho. Em paralelo aos esforços de Steve, o jovem Shy (Jay Lycurgo) lida com os traumas do passado e a escassez de perspectivas para o futuro.
O subgênero de filmes ambientados em reformatórios não é novidade na história do cinema. Infelizmente, algumas obras acabam passando despercebidas pelo grande público, como o elogiado "O Reformatório Nickel" (2025). "Steve", contudo, conta com a vantagem de ser estrelado por um ator vencedor do Oscar — embora a narrativa entregue muito mais do que apenas um grande nome no elenco.
Para começar, Mielants não poupa esforços para nos imergir naquele cenário — por vezes acolhedor, por vezes infernal. Sua câmera desliza com facilidade por corredores, salas de professores e salas de reunião, onde as discussões se tornam cada vez mais acaloradas à medida que o tempo avança. O filme explora a virtude daqueles profissionais em querer ajudar os jovens, evidenciando o contraste com a omissão governamental, mais interessada em mover as engrenagens do sistema do que em investir em uma educação que acolha os excluídos.
Por conta disso, vemos um belo casamento entre a direção e o elenco. Cillian Murphy se entrega ao personagem de corpo e alma; sua obsessão em ajudar aqueles garotos levanta questionamentos no espectador, mas aos poucos compreendemos suas motivações e o motivo de seu ritmo incansável mesmo quando tudo parece ruir. Quando detalhes de seu passado vêm à tona, percebemos que Steve não é apenas uma figura virtuosa, mas alguém em busca de redenção para aplacar seus próprios fantasmas.
Vale destacar também o excelente elenco jovem. A obra explora uma estética quase documental inserida na ficção, conferindo um tom ainda mais cru e naturalista às cenas. Nota-se que parte das sequências nasce do improviso, onde os atores reagem organicamente à urgência do ambiente — aquele espaço que representa, ao mesmo tempo, uma segunda chance e a iminência do declínio. O destaque vai para Jay Lycurgo, que protagoniza momentos angustiantes e leva os personagens ao seu redor a testarem os próprios limites.
Em suma, o filme é um belo exemplo de direção autoral aliada a atuações entregues e viscerais. Resta aguardar a próxima colaboração entre Tim Mielants e Cillian Murphy, parceria que continua rendendo obras marcantes. Em "Steve", caminhamos lado a lado com o protagonista para adentrar seus conflitos e sua constante busca pela paz de espírito.
Onde Assistir: Netflix
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