Sinopse: intensa e destrutiva paixão entre Heathcliff, um órfão adotado, e Catherine Earnshaw, filha de seu benfeitor, nas charnecas inglesas.
O livro "Morro dos Ventos Uivantes" (1847), da escritora Emily Brontë, entra facilmente na lista das obras literárias essenciais para as pessoas lerem antes de morrer. No decorrer da história do cinema já houve algumas adaptações significativas, como aquela lançada em 1939 e protagonizada por Laurence Olivier. Agora chega a versão de "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) para o século 21 e que com certeza dividirá a opinião de alguns.
Dirigido por Emerald Fennell, do filme "Bela Vingança" (2020), o filme conta a história das famílias Earnshaw e Linton. Centrada em Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), um romance intenso surge para destruir a vida dos dois jovens. O filho adotado do inquilino e Catherine entram em um jogo de obsessão, rejeição e vingança, ao mesmo tempo no qual tentam se distrair com essa louca paixão.
Uma coisa que eu sempre digo com relação às adaptações literárias para o cinema é que nunca se deve ser 100% fiel ao livro, pois faz com que o longa perca a sua identidade e tão pouco possuindo uma linguagem cinematográfica. Pegamos como exemplo adaptação de O Código Da Vinci" (2006), fiel a sua fonte de origem, mas zero em personalidade e ficando preso ao sucesso que o livro havia adquirido. Já "Blade Runner" (1982) não é somente uma adaptação da obra de Philip K. Dick, como também funcionado pelo fato de Ridley Scott ter abraçado liberdades artísticas e adotando muito mais uma linguagem cinematograficamente falando.
"Morro dos Ventos Uivantes" foi uma obra literária que não só teve suas adaptações levadas para o cinema, como também serviu de inspiração para outras escritoras. Stephenie Meyer, por exemplo, sempre deixou claro que buscou inspiração no clássico ao elaborar a sua série literária "Crepúsculo", assim como também E. L. James ao realizar a sua obra "Cinquenta Tons de Cinza". Em ambos os casos são sobre histórias de amor inocentes, mas que começam a transitar para um lado intenso e até mesmo abusivo.
É então que eu percebo que essa nova adaptação do clássico de Emily Brontë é uma espécie de absorvente de tudo que já tinha sido feito antes. Emerald Fennell adapta a história para o cinema, mas deixando de lado o amor sugestivo e moldando para algo mais forte e carnal. Se observa desde o início que o casal central possuem certa atração um pelo outro, mas não escondendo o desejo de ser consumado, mesmo quando isso somente acontece mais adiante na trama. Curiosamente, o lado inocente dosado no primeiro ato se torna até mesmo um contraste para o que está por vir ao longo da projeção.
O atrito entre classes que gera o conflito amoroso se torna fiel a sua fonte original, mesmo quando ele soa piegas ou até mesmo um verdadeiro dejavu para aqueles que cresceram assistindo ao melhor e ao pior de novelas mexicanas. Tanto Margot Robbie como Jacob Elordi se entregam em atuações que não se prendem à sua fonte original, porém, me passando a sensação um tanto que artificial e que ganha melhores contornos no decorrer da projeção. Se as atuações nos soam parciais, isso é contornado pela direção de Emerald Fennell, mesmo quando ela pisa no acelerador de forma anormal.
É um filme de época, mas com uma linguagem pop contemporânea, com direito até mesmo de músicas que não se casam muito bem com a trama. Isso me lembrou do longa "Maria Antonieta" (2006), de Sofia Coppola, mas que já na época soava estranho, mas sobrevivendo no decorrer do teste do tempo. Ainda é cedo para afirmar se essa visão autoral irá sobreviver no decorrer dos anos, mas não deixa de ser uma jogada curiosa para dizer o mínimo.
Visualmente o filme é um verdadeiro colírio para os olhos, mesmo quando a edição de arte mais parece como uma produção que foi criada diretamente streaming. Se por um lado isso falha, ao menos a fotografia se casa com perfeição com o lado colorido de um figurino exótico e quase todos sendo protagonizados pela Margot Robbie em doses cavalares e que chegam a beirar para o lado inverossímil diga-se de passagem. A edição de cenas, por sua vez, é quase frenética, mas se tornando uma mera desculpa para ver a protagonista usar um figurino diferente a cada segundo de projeção e que com certeza irá irritar os olhos de alguns.
Porém, o que mais irá dividir a opinião do público com relação a essa adaptação será essa pregação pelo lado masoquista de uma história de amor que sempre foi vista de uma forma mais inocente. Ao meu ver Emerald Fennell quis pegar carona dessa geração que leu o sucesso "Cinquenta Tons de Cinza", mas cuja a maioria amadureceu e que hoje vê esse tipo de relação como politicamente incorreta. O lado sugestivo se torna obsessivo, ao fazer com que a tragédia amorosa não aconteça pela diferença de classes, mas por um amor carnal quase irracional em algumas passagens.
Emerald Fennell, portanto, acerta em dar novos rumos a sua adaptação, mas falha ao mirar em um público que hoje está sempre em transformação constante com relação ao sexo e que nem todos hoje em dia enxergam como uma peça primordial em um relacionamento. Só o tempo dirá se a mudança de rumo foi válida, ou se ela foi mal calculada. Por enquanto, a sensação que eu tenho é divisória e que somente irá mudar em uma eventual segunda análise quando for assistir novamente a obra.
"O Morro dos Ventos Uivantes" é a mais nova adaptação do clássico literário que mira um determinado público alvo, mas cujo seu teor irá dividir a opinião de muitos e principalmente por não conseguir um nivelamento exato.
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