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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Coyote vs. Acme'

Sinopse: Após os produtos da Acme falharem vezes demais em sua incansável perseguição ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide contratar um advogado de porta de cadeia para processar a Acme Corporation.

"Uma Cilada Para Roger Rabbit" (1988) ainda é a maior referência quando se trata da interação entre atores reais e animação, sendo apontado por muitos como a obra-prima desse subgênero. Houve, claro, boas tentativas posteriores — como o ótimo "Tico e Teco: Defensores da Lei" (2022) —, mas sem atingir o patamar de perfeição alcançado pela obra de Robert Zemeckis. Eis que surge "Coyote vs. Acme" (2026), um longa que, embora não atinja esse estado de perfeição, diverte com inteligência e nos brinda com ótimas doses de reflexão.

Dirigido por Dave Green, o filme nos reapresenta a Wile E. Coyote no deserto, obstinado como sempre em capturar o Papa-Léguas. Contudo, ao se dar conta de que todos os aparatos da ACME Corporation falham sistematicamente, ele decide ir à cidade para processar a empresa. Ao contratar o advogado Kevin Avery (Will Forte), ambos logo percebem que enfrentar um gigante corporativo está longe de ser uma tarefa simples.

Chuck Jones foi, sem sombra de dúvida, o maior gênio por trás do enorme sucesso dos Looney Tunes na Era de Ouro da animação, quando os curtas eram exibidos nas salas de cinema. O curioso é que, mesmo sendo figuras caricatas, os personagens transbordavam carisma e conquistavam a empatia imediata do público. No entanto, talvez nenhum deles tenha gerado tanta identificação quanto o Coyote.

Em sua persistência inabalável para capturar a ave, o personagem tornou-se um símbolo involuntário da perseverança de uma sociedade que busca seus objetivos a despeito dos obstáculos. O detalhe irônico é que o obstáculo principal acaba sendo justamente a tralha vendida pela ACME — e é a partir dessa premissa simples, porém brilhante, que o filme captura a nossa atenção do início ao fim.

A partir desse gancho, os realizadores constroem uma crítica ácida contra grandes corporações que manipulam a sociedade pelo consumo para inflar suas próprias contas bancárias. O roteiro toca em feridas ainda mais profundas ao revelar que os personagens animados funcionam como meras cobaias para a ACME testar seus produtos — uma metáfora corajosa e reveladora. Não é à toa que a própria Warner tenha relutado em lançar o filme nos cinemas; felizmente, graças à comoção do público, o longa finalmente encontrou a luz do dia.

O charme da produção reside, em grande parte, no resgate nostálgico. O roteiro abre espaço para reverenciarmos os clássicos curtas do Coyote, despertando aquela memória afetiva tão cara ao espectador. Tecnicamente, o cuidado com a interação entre o elenco em carne e osso e a animação tradicional é notável, chegando perto da fluidez vista em Roger Rabbit. Além disso, há excelentes referências à história do cinema — a própria aparição do Pernalonga serve de gancho para uma sátira primorosa ao clássico "Todos os Homens do Presidente" (1976).

Infelizmente, nem tudo funciona perfeitamente. O núcleo humano não tem o mesmo carisma do elenco animado. Por mais que se esforce, Will Forte acaba resultando em uma presença pálida diante do brilhantismo do Coyote em cena, oscilando entre a comédia bobajona e momentos dramáticos um pouco forçados. Quem se sai melhor é John Cena na pele de um dos executivos da ACME: seu estilo caricato e canastrão casa perfeitamente com o tom cartunesco da narrativa.

"Coyote vs. Acme" chega em um momento em que os grandes estúdios se transformaram em conglomerados frios, cujos executivos priorizam o lucro em detrimento da qualidade artística. Torna-se poético e irônico ver um filme debochar justamente dessa indústria do entretenimento controlada por gigantes. No fim, o Coyote nos ensina a nunca desistir, mesmo quando enfrentamos corporações que insistem em tratar o público como mero gado consumidor.

Trata-se de uma grata surpresa que alinha entretenimento de qualidade a uma crítica madura contra a Hollywood atual — um ecossistema cada vez mais perdido em suas próprias marcas e franquias inesgotáveis.


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