Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
Me acompanhem no meu:
Twitter: @cinemaanosluz
Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com
A cinesemana de 26 de março a 1° de abril reúne quatro estreias na nossa programação. Um dos destaques é ENZO, filme póstumo do diretor francês Laurent Cantent, sobre um adolescente que deixa sua família rica para realizar os seus projetos pessoais, junto com O OLHAR MISTERIOSO DO FLAMINGO, produção chilena que traz a visão de uma adolescente sobre o início da disseminação da Aids. Outra novidade é NARCISO, novo longa do diretor Jeferson De, sobre um menino negro que sonha em ser adotado. Também temos o relançamento de EU, TU, ELE, ELA, primeiro longa da diretora Chantal Akerman (1950 – 2015) e referência de um cinema queer e feminista.
Seguem em cartaz A GRAÇA, nova parceria do diretor italiano Paolo Sorrentino com o ator Toni Servillo, e a A MENSAGEIRA, produção argentina premiada no Festival de Berlim. O longa norueguês VALOR SENTIMENTAL, vencedor do Oscar de melhor filme internacional, também continua na nossa programação, junto com o espanhol SIRÂT, que concorreu pelo mesmo prêmio.
A semana também é de muitas exibições especiais. Na sessão Almanaque 21 o destaque é ISTO É SPINAL TAP, de Rob Reiner, enquanto o Dia do Cinema Gaúcho, comemorado em 27 de março, será lembrado com uma sessão especial de UMA EM MIL, longa assinado pelos irmãos Tiago e Jonatas Rubert. Na volta da Sessão Nostalgia, o destaque é SINTONIA DE AMOR, de Nora Ephron, em comemoração ao Mês da Mulher.
Confira a programação completa da cinemateca clicandoaqui.
Sinopse: Ben Richards (Glen Powell), um homem desesperado que entra num reality show mortal, "O Sobrevivente", para ganhar dinheiro e salvar sua filha doente.
Eu me lembro que assisti pela primeira vez ao filme "O Sobrevivente" (1987) em um distante domingo na Band quando eu estava voltando da casa de uns parentes. Por ser estrelado pelo herói dos filmes de ação da época, Arnold Schwarzenegger, fiz questão de assisti-lo mesmo quando já estava na metade da história. Revi alguns anos atrás e posso dizer que o filme envelheceu mal, não pela sua temática em si, mas sim pela sua estética muito oitentista.
Baseado na obra de Stephen King, o filme tinha tudo para ser um longa a frente do seu tempo, pois a trama falava sobre um futuro totalitário, onde o governo alinhado com programas de TV entretém a sociedade através de reality show manipuladores e que controlavam a opinião do público. Uma trama bem a frente do seu tempo, mas do qual King se inspirou em tempos da era Ronald Reagan, em que a ideia do consumismo acima de tudo era o único meio de sustentar o império norte americano como um todo. Agora temos o novo "O Sobrevivente" (2025), longa que é mais próximo em termos de fidelidade ao livro, mas que chegou um pouco atrasado.
Dirigido pelo genial Edgar Wright, o filme retrata um futuro sombrio dos nos Estados Unidos, onde a economia está em colapso e a violência global se intensifica. Nesse cenário caótico, Ben Richards (Glen Powell) encontra sua única chance de salvar a família ao se voluntariar para participar do violento game show "O Sobrevivente". Os participantes precisam escapar de uma equipe de assassinos profissionais enviados para matá-los durante 30 dias, com a promessa de ganhar um prêmio em dinheiro.
Edgar Wright é um desses casos de cineastas autorais que não tem exatamente carta branca para fazer o que bem entender nos seus longas. Se por um lado ele conquistou o mundo através do seu genial "Todo Mundo Quase Morto" (2004), do outro, ele viu o seu projeto "Homem Formiga" (2015) ser roubado pela Marvel e fazendo perceber que os estúdios é que dão a palavra final por mais que você seja criativo. Ao menos em "O Sobrevivente" percebo um realizador que procura fazer um longa de sua maneira, mesmo com as regras do estúdio em sua cola.
Tudo o que ele faz está lá, desde uma edição frenética, ação caprichada e um humor ácido que ele faz como ninguém. Além disso, é preciso reconhecer que o longa é bastante fiel a sua fonte original, o que não quer dizer muita coisa, já que seria bastante fácil hoje em dia fazer algo que se distanciasse da primeira versão de 1987. Eu acho que o problema principal dessa nova adaptação é ter chegado um tanto tarde, já que os reality shows já se encontram saturados, enquanto a própria sociedade faz o seu próprio show nas redes sociais e onde fazem de tudo para se tornarem uma celebridade instantânea. Em tempos em que temos até mesmo suicidido sendo anunciado antes do ato, talvez nem o próprio Stephen King imaginava que a sociedade se deixaria levar pela manipulação das redes e tendo total consciência disso, já que a verdade já não é mais o suficiente para eles.
Se por um lado o filme chegou atrasado alguns anos, ao menos ele nos revela uma tecnologia semelhante a nossa, onde todos são vigiados, mas pouco se importando com isso, desde que ganhe alguns segundos de estrelato. Em meio a esse caos, Ben Richards somente quer dinheiro para ajudar a sua família, mas mal sabendo da armadilha imposta contra ele. Glen Powell vem aos poucos se destacando no cinema desde "Top Gun: Maverick" (2022) e aqui demonstra ter fibra em um filme que exige porte físico em meio a tantos tiros e correria.
Talvez esse seja também um ponto um tanto falho na obra, onde Edgar Wright faz o que sabe fazer de melhor em termos de ritmo, mas não se casando em harmonia com a ideia primordial da obra que é refletir. Se por um lado você não sai do cinema pensando sobre a proposta principal do longa, ao menos você sairá entretido, mesmo lhe passando a sensação que faltou algo pelo caminho. A mensagem é que você seja contra o sistema, mas é preciso ser muito mais claro para uma geração cuja visão está cada vez mais nublada.
"O Sobrevivente" é uma versão fiel do clássico de Stephen King, mas pelo visto chegou de forma atrasada e fazendo com que essa geração manipulada pelas mídias digitais nem se dê conta dela.
Sinopse: Aisha é uma cuidadora sudanesa que vive no centro do Cairo. Diariamente, ao sair para trabalhar, ela testemunha a tensão entre os outros imigrantes africanos e os membros das gangues egípcias locais. Aos 26 anos, ela se vê presa entre um relacionamento indefinido com um jovem egípcio e um novo emprego.
Elenco: Achai Ayom Buliana Simon Ziad Zaz
PRÉ ESTREIA:
BARBA ENSOPADA DE SANGUE
Brasil/Drama/2025/128min
Direção: Aly Muritiba
Sinopse:Após a morte de seu pai, Gabriel parte para a praia da Armação em busca de suas origens. Lá, ele encontra uma trama complexa em torno da figura misteriosa de seu avô, um esqueleto de baleia e uma cidade que quer enterrar seu passado a qualquer custo.
Elenco: Gabriel Leone, Thainá Duarte, Ivo Müller , Roberto Birindelli
EM CARTAZ:
A GRAÇA
Italia/Drama/2025/ 131min.
Direção: Paolo Sorrentino
Sinopse:Do cineasta Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar e do Bafta, “A Graça” é uma exploração abrangente do amor, do dever e da liberdade pessoal. Toni Servillo – vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Veneza de 2025 – é o poderoso Mariano De Santis, que enfrenta dilemas morais e pessoais com a ajuda de sua filha confidente, Dorotea (Anna Ferzetti). Com a visão poética característica de Sorrentino e uma trilha sonora evocativa, esta obra-prima é uma meditação íntima sobre paternidade, consciência e a eterna questão: a quem pertence o nosso tempo?
Elenco:Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo Venturiello.
NARCISO
Brasil/Drama/2025/90 min.
Direção: Jeferson De
Sinopse:Narciso (11), um menino negro e órfão, mora na casa de Carmem e Joaquim, junto com outras crianças que aguardam adoção. Ele sonha em ter uma família, mas acaba enfrentando uma grande decepção. Para alegrá-lo, uma das crianças da casa lhe dá de presente uma bola de basquete velha e mágica e diz que, se ele acertar três cestas, um gênio aparecerá e realizará todos os seus desejos.
Elenco: Arthur Ferreira, Ju Colombo, Bukassa Kabengele e Seu Jorge
HORÁRIOS 26 DE MARÇO A 31 DE MARÇO (não há sessões nas segundas):
15h: A GRAÇA
17h20: NARCISO
19h20: AISHA NÃO PODE VOAR
DIA 01 DE ABRIL:
15h: A GRAÇA
17h20: NARCISO
19h20: PRÉ ESTREIA DE BARBA ENSOPADA DE SANGUE, seguida de debate após a sessão com a presença do autor Daniel Galera, Carolina Panta e Fabiano de Souza.
Ingressos: Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14,00 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7,00. São aceitos PIX, cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Na quinta-feira, a meia-entrada é para todos e todas. EM TODAS AS QUINTAS TEMOS A PROMOÇÃO QU
Sinopse: Para defender os animais jovem funde a sua mente em uma castora robótica.
Em sua era de ouro era comum dizer que a Pixar não lançava filmes ruins e isso era muito bem representado através de grandes títulos como "Procurando Nemo" (2003) e "Os Incríveis" (2005). Porém, sempre quando se atinge o teto há sempre o risco de haver um desequilíbrio na qualidade e rendendo títulos que não correspondem aos velhos tempos do estúdio como foi no caso de "Elio" (2025). Mas entre altos e baixos ao menos "Cara de Um, Focinho de Outro" (2026) é uma prova que o estúdio procura saber nivelar ao criar tramas que transitam com diversão mas com boas doses de reflexão.
Dirigido por Daniel Chong, o filme conta a história de Mabel (Piper Curda), que ensinada pela sua querida avó aprendeu desde cedo a cuidar dos animais. Quando ela descobre que o prefeito da cidade Jerry (Jon Hamm) quer fazer um viaduto que pode colocar em risco o lar dos castores da floresta, ela decide se unir com uma cientista que possui a tecnologia de transferir as mentes das pessoas em animais robóticos. Mabel se transforma em uma castora, que acaba se unindo com um rei castor para procurar um meio de contornar esse problema, mas mal sabendo que outros irão surgir em meio a essa cruzada.
Em tempos em que a Pixar anda meio presa com as continuações de seus grandes sucessos é sempre bom ver que ainda há esperança quando o estúdio procura se arriscar em algo novo. Embora a trama soe familiar, principalmente para aqueles que assistiram ao clássico "Sem Floresta" (2005), o filme se envereda por questões que vão desde a proteger a natureza, como também sobre assumir o peso da responsabilidade quando se procura pôr em prática a mudança das coisas. Ou seja, por mais que a gente coloque em prática a nossa boa vontade há também de surgir percalços pelo caminho e nesta questão o estúdio acerta em cheio com relação a esse pensamento.
Outro fator positivo é a sua própria protagonista da trama, sendo que Mabel é uma força da natureza disposta em ajudar os animais da floresta, nem que para isso enfrente grandes autoridades como o próprio prefeito da cidade. Vale destacar a sua singela relação com a sua avó, sendo que as cenas iniciais protagonizadas pelas duas é uma representação positiva e do que irá se desenrolar durante a trama. São momentos como esse que não só irá conquistar os pequenos, como também fará com que os adultos se identifiquem e se emocionem ao mesmo tempo.
Com relação a transferência de mentes para animais robóticos isso se torna somente uma mera desculpa para a protagonista interagir logo de uma vez com os animais da floresta, principalmente com relação ao Rei Castor e que se torna o grande amigo dela. É neste ponto, por exemplo, que a trama me lembrou também o clássico "Irmão Urso" (2003), sendo que em alguns momentos vemos a perspectiva dos animais perante os humanos, ou vice e verça. Uma forma interessante de analisar que a relação de seres diferentes um do outros somente se encontram separados através do medo do desconhecido.
Outro fator interessante da história é explorar o quanto a nossa boa vontade em querer melhorar as coisas pode também gerar grandes consequências. Por mais que Mabel procure ajudar os animais, ela jamais imaginaria que as consequências surgiriam justamente através das regras imposta pelos próprios líderes da floresta e desencadeando situações inusitadas durante uma determinada reunião. Já adianto que as consequências dessa cena não somente desencadeiam uma situação irreversível, como também um dos momentos mais hilários do longa como um todo.
A partir desse momento o filme se envereda para uma verdadeira montanha russa e onde vemos os protagonistas correrem contra o relógio. São nestes momentos, por exemplo, que o estúdio ainda prova que sabe fazer boas cenas de ação e fazendo a gente prender a respiração em alguns momentos e até temendo pela vida dos personagens principais da trama. Claro que o estúdio não perde a chance de fazer mesmo até piada de outros filmes clássicos e portanto a referência do clássico "Tubarão" (1975) e de suas limitações absurdas é mais do que evidente para dizer o mínimo.
O ato final só descamba um pouco para uma ação quase vertiginosa, onde não há um respiro, mas ao menos dando um espaço para que os personagens amadureçam com relação ao que sempre acreditavam. A lição de moral é colocada em prática, onde fazem com que os personagens tomem novos rumos e obtenham um equilíbrio o que antes parecia impossível. Pode não ser o melhor longa do estúdio, mas ao menos obteve coragem de se arriscar e tentar criar algo novo.
"Cara de Um, Focinho de Outro" é uma grata surpresa deste início de ano e provando que o estúdio Pixar ainda pode nos brindar com ótimos longas que remetem aos seus bons e velhos tempos de sua era de ouro.
* Local: Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1085 - Centro - Porto Alegre - RS)
* Horário: 14h30 às 17h30
Apresentação
No agitado panorama cinematográfico da década de 1960, poucos cineastas tiveram um papel mais decisivo que JEAN-LUC GODARD.
De Acossado (1960), obra basilar da Nouvelle Vague, aos filmes militantes do Grupo Dziga Vertov após 1968, o cineasta instigou a linguagem do cinema até o limite. Em uma década, realizou quase vinte longas-metragens que subverteram gêneros consagrados, do musical em Uma Mulher é uma Mulher (1961) à ficção científica de Alphaville (1965), apontando novos caminhos e provocando uma verdadeira revolução estética.
Objetivos
O curso GODARD 60: UMA DÉCADA REVOLUCIONÁRIA, ministrado por Leonardo Bomfim, propõe um mergulho na filmografia que Jean-Luc Godard construiu ao longo da década de 1960, destacando as inúmeras rupturas de linguagem que redefiniram o cinema, a partir de filmes emblemáticos como Acossado, O Desprezo, O Demônio das Onze Horas, Weekend à Francesa e Vento do Leste.
Ministrante: Leonardo Bomfim
Jornalista e Doutor em Comunicação Social (PUCRS), Natural do Rio de Janeiro, Brasil. É Programador da Cinemateca Capitólio, espaço dedicado à preservação e difusão cinematográfica localizado em Porto Alegre. Foi programador do Cine P. F. Gastal, na mesma cidade, entre 2013 e 2017. Foi curador das mostras Cinema Marginal (2008), Cinema Novo: Brasil em Transe (2017) e Cinema de Invenção (2019). Realizou trabalhos de programação para festivais brasileiros como Olhar de Cinema, Gramado e Brasília. Publicou textos em revistas como Archive Prism (Coreia do Sul), Cahiers du Cinéma (França), La Vida Útil (Argentina) e Teorema (Brasil). Já ministrou os cursos Novos Cinemas dos Anos 60; Brian De Palma: O Poder da Imagem; Lumière, Méliès & Outros Pioneiros, A Gênese da Nova Hollywood e Cinema Marginal Brasileiro pela Cine UM.
Sinopse: Em meio ao luto, o músico Murilo encontra Marlene, enfermeira que vive um relacionamento tóxico. O destino os conecta a uma policial sedenta por vingança e um advogado misterioso, levando todos a uma jornada sem volta.
Não há como negar que Alejandro González Iñárritu fez escola ao criar tramas cujos os seus protagonistas se interligam através de uma situação inusitada. Se em "Babel" (2006) uma única bala fogo interligou diversos personagens ao redor do globo, por outro lado, "21 Gramas" (2003) todas as vidas se chocam a partir de um acidente de carro. É lógico que antes de Alejandro González Iñárritu o cinema já havia apresentado uma proposta parecida.
Quentin Tarantino, por exemplo, nos apresentou "Cães de Aluguel" (1991) e "Pulp Fiction" (1994), sendo que, além de personagens interligados no decorrer do filme, há sempre um retorno de uma determinada situação, mas sendo vista por outra perspectiva. Tudo isso que eu falei até aqui serviu de ingredientes para que o cinema brasileiro bebesse da fonte e surgisse títulos como "Cidade de Deus" (2002) onde nos apresenta um mosaico de personagens todos interligados e cujo cenário é quase remodelado através do tempo. "Cinco Tipos de Medo" (2026) nos revela o quanto o cinema brasileiro não deve em nada em questões de histórias, técnicas e nos brindando com um longa caprichado do começo até o final de sua última cena.
Dirigido por Bruno Bini, a trama acompanha a história de um jovem chamado Murilo (João Vitor) que após perder a mãe e sobreviver ao Covid ele se apaixona e se envolve com sua antiga enfermeira Marlene (Bella Campos), que está presa em um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), um traficante. Um dia, Sapinho é preso pela policial movida por vingança Luciana (Bárbara Colen) e passa a contar com a ajuda do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz) que possui intenções secretas. Todos estão interligados por um único motivo, mas mal sabem disso.
Já nos minutos iniciais Bruno Bini nos coloca na ação, onde vemos os principais protagonistas em situação extrema e cuja narração off se casa com perfeição com o título principal da obra. Já na abertura temos uma noção do que podemos esperar do longa, onde uma edição caprichada nos conduz a uma trama que nos prende atenção do começo ao final da obra e nos surpreende ainda mais pelo fato de tudo estar interligado e fazendo com se exige uma atenção redobrada. Há, por exemplo, situações que nos enganam, desde a uma possível morte, como também de um determinado crime.
As principais passagens da história vem e voltam a todo momento, não somente para montar um verdadeiro quebra cabeça, como também nos brindar por outra perspectiva. Logicamente não irá faltar elementos que ressoe com relação aos clássicos brasileiros, que vai desde ao já citado "Cidade de Deus" como também o cultuado "Tropa de Elite" (2007). Porém, diferente desses títulos citados, os dois lados da mesma moeda são apresentados e nos revelando que, querendo ou não, todos estão envolvidos através de um ponto de início e nascendo assim o lado vingativo do ser humano.
Bella Campos, João Victor Silva e principalmente Bárbara Colen interpretam os seus respectivos personagens de forma trágica, sendo que cada um se envolve em situações que jamais gostariam de estar, mas que são forçados a desencadear um lado até mesmo obscuro dentro de si. Se por um lado a personagem de Colen é movida pela vingança, por outro lado, o personagem de João Victor é jogado no olho do tornado e fazendo a gente se perguntar como ele chegou a tudo isso. A pergunta que fica é, se todos os eventos que foram desencadeados foi a partir da pandemia; da relação da mãe de Victor com o vizinho; ou de ele ter se apaixonado?
É um verdadeiro efeito borboleta que, logicamente, alguns irão dizer que o roteirista forçou a barra, mas o próprio mundo real já nos apresenta também situações inusitadas. O filme, portanto, talvez não soe forçado, mas sim esteja atrasado perante uma realidade em que as situações absurdas são tantas que ficção e realidade se encontram somente separadas por uma camada fina. Resta somente a gente assistir ao filme de mente aberta e desfrutar de um bom cinema nacional na medida certa.
Grande vencedor do último festival de Gramado, "Cinco Tipos de Medo" é um exemplo de como o cinema brasileiro pode ir longe em questões de produção e criatividade enquanto estiverem de mãos dadas.
A Sala Redenção promove, a partir da próxima segunda-feira, dia 23 de março, a mostra “Cinema & Política”. A programação contempla nove produções – entre comédias, dramas, documentários, ficção científica e animação – que abordam temas como revolução, autoritarismo, democracia, religião, colonialismo e disputas ideológicas, evidenciando como as relações políticas atravessam o cotidiano e as experiências individuais. As sessões acontecem sempre em dois horários, às 16h e às 19h, com entrada franca e aberta ao público em geral.
A mostra inicia com “Processo Goldman” (2023), de Cédric Kahn, drama inspirado em um caso criminal que movimentou a Paris dos anos 1970. De Jean-Luc Godard, “A chinesa” (1967) acompanha um grupo de estudantes que forma uma célula maoísta em Paris, antecipando o clima de efervescência política que culminaria nos protestos de maio de 1968.
Já “Divino amor” (2019), de Gabriel Mascaro, imagina um Brasil futurista em que religião e Estado se confundem. O filme é estrelado por Dira Paes e foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2020. A animação “A sirene” (2023), da iraniana Sepideh Farsi, retrata a resistência civil durante a guerra Irã-Iraque a partir do olhar de um adolescente, enquanto “Corações sujos” (2011), de Vicente Amorim, tematiza as repercussões da derrota do Eixo na Segunda Grande Guerra entre os nipo-brasileiros.
Também integram a mostra as produções “Sementes: mulheres pretas no poder” (2020), de Éthel Oliveira e Júlia Mariano, que acompanha a onda de candidaturas de mulheres negras nas eleições de 2018; e duas obras de Silvio Tendler, “Brizola: anotações para uma história” (2024) e “Jango: como, quando e por que se derruba um presidente” (1984). Este último tem sessão comentada no dia 1º de abril, às 19h. Participam Nilo Piana, doutor em Ciência Política pela UFRGS, e Lorena Holzmann, professora aposentada do Departamento de Sociologia da Universidade.
A mostra encerra no dia 9 de abril com a exibição de “A capela” (1979), clássico do cinema congolês dirigido por Jean-Michel Tchissoukou. O filme parte do confronto entre um missionário evangélico, um professor e um feiticeiro para expor as tensões entre as tradições e as imposições da Igreja Católica.
“Cinema & Política” tem apoio da Aliança Francesa Porto Alegre, IFCinèma, Cinemateca Africana, Taturana Mobilização Social, Ancine e Vitrine Filmes.
A Sala Redenção está localizada na Rua Eng. Luiz Englert, 333, campus centro da UFRGS.
Confira a programação completa no site oficial clicando aqui.