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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Uma Infância Alemã'

Sinopse: Nanning é um menino de 12 anos que vive na remota ilha de Amrum durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Fatih Akın é um realizador autoral, mesmo ao conduzir obras que aparentam ser muito distintas entre si. Se por um lado ele explora a degradação do ser humano em "O Bar Luva Dourada" (2019), por outro, investiga um país ainda assombrado pelo fascismo em "Em Pedaços" (2017). "Em Uma Infância Alemã" (2025), o diretor descortina os impactos da guerra pela perspectiva de uma criança e mostra como ela precisa aprender a lidar com os ventos da mudança.

A trama se passa nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial e acompanha, na reclusa ilha de Amrum, a vida do jovem Nanning. Os dias do menino se resumem a caçar focas no mar traiçoeiro da região, pescar à noite e ajudar a mãe a alimentar a família, trabalhando em uma fazenda perto de casa. Apesar das dificuldades e da rotina exaustiva, a vida de Nanning se torna uma jornada de constante aprendizado sobre como encarar as adversidades trazidas pela queda iminente de seu próprio país.

Não é de hoje que o cinema retrata a Segunda Guerra através do olhar infantil. Basta lembrarmos de bons exemplos como o premiado "jojo Rabbit" (2019), de Taika Waititi, para termos uma síntese de como a ingenuidade pode ser desconstruída pela realidade nua e crua. Porém, se naquele longa havia toques de fantasia e humor satírico, aqui o lado cru e realista rodeia o jovem protagonista do começo ao fim, obrigando-o a amadurecer precocemente diante dos percalços cotidianos.

O filme não se limita aos acontecimentos do fim da guerra; ele também explora com propriedade o papel da família perante o conflito — dividida entre aqueles que escolhem lutar pela pátria e os que decidem recomeçar do zero em outro país. Isso acaba por revelar outra faceta do ser humano em tempos de hitlerismo. A mãe do protagonista, por exemplo,  tem interesse em denunciar traidores da causa e tampouco se imagina vivendo em uma nação derrotada. Essa atmosfera gera um conflito interno no jovem, que passa a acreditar piamente que, se conseguir um pão branco para a mãe, conseguirá reanimar suas forças.

Por conta disso, o jovem adentra uma verdadeira encruzilhada em busca dos ingredientes para o alimento. Nessa jornada, ele não apenas se depara com o estado de espírito do povo alemão naquele momento histórico, mas também descobre camadas ocultas do passado de sua própria família. Curiosamente, essa busca obstinada por ingredientes remete ao recente "O Bolo do Presidente" (2024), uma vez que ambos os longas exploram os reflexos do autoritarismo na vida comum, mesmo em épocas e países distintos.

Jasper Billerbeck entrega uma excelente atuação como o pequeno protagonista. Seu personagem muda gradativamente para melhor, demonstrando um altruísmo tocante até mesmo com aqueles que o perseguem no decorrer da história. Além disso, o longa discute a busca por um papel social diante de um mundo em profunda transformação, onde os indivíduos já não sabem ao certo onde se encaixar. Se por um lado a grande guerra finalmente caminha para o fim, por outro, há o desafio de se redescobrir perante a nova realidade que surge.

Fatih Akın ainda presta uma bela homenagem a um clássico literário de Herman Melville (Moby Dick), inserindo o livro na trama como uma pequena peça narrativa, mas que ganha um significado grandioso no desfecho. No fim das contas, o filme nos ensina que, mesmo nos tempos mais sombrios, a prática do bem é essencial para nos mantermos humanos e vivos, ainda que para isso seja necessário atravessar verdadeiros obstáculos. Vale salientar que a obra é baseada nas memórias de infância do renomado roteirista Hark Bohm, que de fato cresceu na ilha germânica de Amrum.

"Uma Infância Alemã" é, fundamentalmente, sobre o fim precoce da inocência em tempos de guerra e intolerância.

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