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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'As Correntes'

Sinopse: Lina (Isabel Aimé Gonzalez-Sola) é uma estilista de 34 anos que, após um impulso inexplicável de se jogar em um rio na Suíça, desenvolve uma fobia incapacitante à água, a qual desmorona sua vida aparentemente perfeita.

Em tempos atuais, observamos cada vez mais as pessoas enfrentando uma dificuldade maior em acompanhar o ritmo acelerado do dia a dia, o que faz com que a mente pareça não dar conta do próprio corpo. Em muitos casos, acredito que determinados impulsos imprevisíveis acontecem quando essa corrida contra o tempo deixa de fazer sentido, levando o indivíduo a buscar um lugar tranquilo onde possa obter algum silêncio. As Correntes (2026) nos convida a adentrar na mente da protagonista, mesmo sem termos uma noção completa do que ela vivencia em cada momento.

Dirigido por Milagros Mumenthaler, o filme conta a história de Lina, uma estilista bem-sucedida de 34 anos que, após um misterioso surto e incidente em um rio na Suíça, desenvolve uma grave fobia à água, desencadeando um processo de acareação com o seu passado. No decorrer da narrativa, nós a observamos tentando fugir do barulho da água e encarando as pessoas de forma curiosa. Esse comportamento acaba gerando preocupação em sua família, que não sabe como lidar com a situação.

No clássico "Um Corpo que Cai" (1958), do mestre Alfred Hitchcock, a personagem de Kim Novak possui um impulso inexplicável de querer encerrar a própria vida, em momentos testemunhados pelo detetive interpretado por James Stewart. Com o passar do tempo, porém, há uma revelação surpreendente, mostrando que sempre existe um fundo de verdade nas reais intenções dos personagens, o que deixa o detetive da trama encarregado de lidar com cicatrizes emocionais que talvez jamais se fechem.

O filme de Milagros Mumenthaler pode até lembrar alguns pontos do clássico do suspense, mas aqui as respostas não vêm de forma fácil. Lina age em cena como se estivesse em um segundo plano, onde só recupera a noção de onde está a partir do momento em que ouve o barulho da água — correndo, logo em seguida, o sério risco de cometer algum ato intempestivo. Momentos assim geram uma profunda inquietação no espectador, que no fundo anseia por explicações sobre o que está acontecendo.

Com um teor mórbido, a Buenos Aires vista na tela é sombria, de pouca luz, afastando-se completamente das imagens de cartões-postais que conhecemos. A realizadora talvez não esteja criando essa visão da cidade apenas de acordo com a forma que a protagonista a enxerga, mas também como uma síntese do ânimo atual argentino perante a crise em que o país se encontra. Contudo, acredito que Mumenthaler não se prenda tanto a essa ideia política, preocupando-se mais em despertar dúvidas em relação ao que a personagem principal atravessa.

Isabel Aimé González Sola interpreta uma protagonista cujos medos não são exatamente explicados, mas delineados através de suas ações, mesmo quando estas se mostram difíceis de compreender. Em noventa por cento do longa, observamos o mundo sob a ótica de Lina, sem nunca sabermos ao certo se o que vemos é real ou fruto de uma mente à beira da fragmentação. É uma atuação digna de nota, que carrega o filme nas costas.

Talvez o longa desagrade àqueles que buscam soluções fáceis, o que não acontece aqui, pois a mente humana possui recônditos que o homem ainda não conseguiu desvendar. Milagros Mumenthaler até sugere algumas pistas com o surgimento de figuras femininas que a protagonista reencontra, desde uma amiga no cabeleireiro até a presença da mãe. Neste último caso, poderíamos constatar que o problema seria hereditário, mas isso também seria cair no óbvio.

Ao meu ver, a mente controla tudo, sendo que até mesmo as nossas angústias têm começo, meio e fim de acordo com a força exercida pelo nosso próprio psiquismo. Portanto, nos minutos derradeiros, vemos uma ação partindo da protagonista que, por sua vez, emana de uma mente que ainda não se encontra moribunda. A união do corpo e da mente em tempos de incerteza talvez seja a única forma de não cairmos em total desgraça.

"As Correntes" é um enigmático drama psicológico no qual as respostas não vêm fácil, provando que a mente humana, ainda hoje, permanece como um grande mistério.


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