Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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A cinesemana de 8 a 14 de janeiro reúne vários títulos que se destacam na temporada de premiações deste início de ano, incluindo SE EU TIVESSE PERNAS EU TE CHUTARIA, com a elogiada atuação de Rose Byrne, e SORRY BABY, protagonizado por Eva Victor – ambas atrizes na lista de indicações do Globo de Ouro. Também estão em cartaz três longas que disputam na categoria de melhor filme de drama da premiação: O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho; VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier; e FOI APENAS UM ACIDENTE, de Jafar Panahi. A lista se completa com NOUVELLE VAGUE, de Richard Linklater, indicado a melhor filme de comédia/musical.
Entre as novidades, entra em cartaz o documentário CONVERSAS NAS ZONAS AZUIS, do diretor Gabriel Martinez, que parte da cidade gaúcha de Veranópolis para investigar a longevidade em algumas regiões do planeta. Também apresentamos uma pré-estreia do novo filme do diretor sueco Tarik Saleh, que com ÁGUIAS DA REPÚBLICA encerra sua trilogia sobre o Egito.
Esta é a última semana para conferir três filmes muito bem recebidos pelo nosso público: VIZINHOS BÁRBAROS, de Julie Delpy; LIVROS RESTANTES, de Marcia Paraiso; e PRIMEIRO ENCONTRO, de Paolo Genovese.
Confira a programação completa da cinemateca no site oficial clicando aqui.
Sinopse: As irmãs Nora e Agnes se reúnem com seu excêntrico pai, Gustav, um famoso diretor que desapareceu há muito tempo. Ele oferece a Nora o papel principal em seu novo filme.
Joachim Trier sabe como ninguém lidar na construção de personagens que buscam por um equilíbrio sobre si mesmo. Em seus últimos filmes, "Thelma" (2017) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2022), são exemplos de tramas em que os protagonistas buscam uma nivelação perfeita entre o próximo e saber lidar com relação a si mesmo. "Valor Sentimental" (2025) vai mais a fundo, onde um realizador do ramo cinematográfico busca reatar os laços familiares em frangalhos, mas usando a arte como uma forma para obter um novo recomeço.
Na trama, diante do frágil laço paternal, o carismático Gustav (Stellan Skarsgård), pai distante de Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) e um renomado diretor de cinema, decide que seu próximo longa será o seu filme de retorno. Sabendo o quão pessoal é importante é o projeto, o cineasta oferece à filha Nora, uma estabelecida atriz de teatro, o papel principal da trama. Porém, a mesma recusa e o realizador busca através da atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning) uma forma de seguir em frente com o seu projeto.Abertura do filme já surpreendente, ao vermos Nora lutar contra si mesma para subir ao palco em meio a uma crise de ansiedade. No decorrer do longa vemos esses personagens tendo que lidar com as suas dores interiores e que, por vezes, não sabem ao certo porque acontecem. O filme gira em questões de problemas não resolvidos, desde ao não saber lidar com a perda, como também questionar e compreender as ações da pessoa próxima.
Gustav usou a arte do cinema para afastar os seus próprios fantasmas do passado, mas ao mesmo tempo gerando um desequilíbrio familiar com as suas filhas. Não creio que o personagem de Stellan Skarsgård seja uma espécie de alter ego do diretor Joachim Trier, pois sempre achei ele um intérprete que busca uma identidade própria para os seus personagens e que nunca tenha uma comparação com outras figuras em volta dele. Saindo do recente sucesso da série "Andor", Stellan Skarsgård é aquele típico ótimo artista que é reconhecido, tanto pelo grande público, como também pela crítica especializada no assunto.Já Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas interpretam duas irmãs que se complementam uma com a outra, sendo que o apoio que Agnes dá para Nora seja o único elo para que essa última não caia na tentação de acabar com tudo. Ambas na realidade seriam um reflexo sobre o passado de Gustav, sendo que a avó delas se torna uma peça primordial para uma melhor compreensão da trama e fazendo com que a questão sobre as raízes familiares se tornem algo que os interligue desde sempre. Atenção para um plano em que os rostos de cada um sejam moldados em único ser e fazendo do laço familiar forte, mesmo quando cada um procura se distanciar.
Curiosamente, a atriz Elle Fanning interpreta uma personagem que poderia ser facilmente descartada dentro da trama, já que ela interpreta uma atriz que se torna uma segunda opção para Gustav para o seu projeto. Porém, a sua personagem se torna uma representação do nosso olhar para tentarmos compreender sobre quais as reais intenções do protagonista na realização do seu longa e fazendo com o que o seu papel se torne relevante dentro da história. Elle Fanning é aquele tipo de bela jovem atriz, mas do qual demonstra sinais de uma grande intérprete e que poderá obter voos mais altos, diga-se de passagem.
O grande charme do filme é dele fazer a gente imaginar como seria o filme fictício dentro da trama e sendo, enfim, realizado. Portanto, a cena final se torna antológica, ao não somente nos pregar uma peça, como também sentirmos certo alívio com relação ao destino dos personagens, pois é através do cinema que eles obtiveram um equilíbrio familiar que tanto precisavam. A arte talvez não seja o caminho exato para obter a paz de espírito, mas ao menos lhe dá uma visão melhor sobre o seu eu verdadeiro.
"Valor Sentimental" é um belo filme dramático, onde uma família procura se redimir através de assuntos não resolvidos e cuja janela do cinema pode lhe dar acesso a um novo recomeço.
Nota: O filme estreia no próximo dia 08 de Janeiro.
Sinopse: Rebecca, filha do missionário Lawrence Byrne, foi declarada um milagre por ter sobrevivido a um acidente de avião na Floresta Amazônica quando criança.
Um filme em que a religião serve como um pano de fundo somente se torna honesto quando a crença bate de frente com a realidade. Em tempos em que o conservadorismo errôneo usa a palavra de Deus em vão para obter poder, não faltam casos de filmes plasticamente falsos e que somente servem para doutrinar os seguidores cegos. Ao menos "Transamazônia" (2026) é um filme honesto em saber transitar sobre o verdadeiro significado da palavra com a realidade que é preciso mais do que fé para ser enfrentada.
Dirigido por Pia Marais, o filme conta a história de Rebecca, filha do missionário Lawrence Byrne, foi declarada um milagre por ter sobrevivido a um acidente de avião na Floresta Amazônica quando criança. Anos depois, ela se torna uma curandeira milagrosa, sustentando a missão com sua fama crescente. Quando madeireiros ilegais invadem as terras dos povos indígenas que estão sendo evangelizados, o pai de Rebecca coloca a família no epicentro de um conflito que só tende a piorar.
Sendo co-produção entre vários países, se percebe um cuidado de produção, principalmente com relação a sua abertura, onde temos uma dimensão do acidente aéreo que se torna o estopim para o nascimento da história. Pia Marais procura nos passar com extremo cuidado o real papel da pregação religiosa para os povos indígenas, sendo que não é exatamente uma forma de persuadir aquele povo, mas transmitir uma espécie de paz que quase nunca é alcançada devido a presença do homem branco. Uma vez que os mesmos se veem ameaçados por garimpeiros é então que os protagonistas Pai e filha se veem em dilemas que nem todos puderam ser solucionados.
Ao mesmo tempo, a questão sobre a real identidade da protagonista é algo que permeia boa parte do filme. Embora a revelação seja um tanto que forçada para dizer o mínimo, a sua origem nos revela também que o lado predestinado em ajudar as pessoas não foi algo exatamente divino, mas sim o que já estava carregado em suas veias. Tendo a conhecido no genial "Transtorno Explosivo" (2019), Helena Zengel tem aqui uma atuação contida, mas não menos interessante, pois através dela nos passa uma sensação de inocência, mas tendo também uma consciência sobre a verdadeira realidade em sua volta.
Porém, é Jeremy Xido que rouba a cena, cujo seu personagem mantém a sua fé intacta para ensinar a filha a passar a mensagem que ele prega. Ao mesmo tempo, se nota também que o mesmo tenha usado a menina, mesmo de forma indireta, para passar a palavra a todo custo, mas tendo que enfrentar uma realidade nua e crua com relação à exploração da floresta que afeta os indígenas. É nestes momentos, por exemplo, que o personagem é testado com relação até onde irá se manter com a sua fé quando a realidade pode lhe assombrar.
O filme, portanto, é lúcido com relação ao verdadeiro uso da palavra da fé perante um sistema explorador e que não mede esforços de extrair o que é da terra e dos verdadeiros povos que moram nela. Embora com maniqueísmo lá e aqui, ao menos o filme nos faz refletir sobre o real inimigo que não vem das sombras, mas sim justamente daqueles que tem poder o suficiente para fazer o que bem entender. Assim como o mundo real, o final fica em aberto, pois a luta pelo equilíbrio continua, seja ele na ficção ou no mundo real.
"Transamazônia" nos revela um embate entre a fé e a razão perante um sistema capitalista que simplesmente destrói para obter poder.
Os anos oitenta foram revitalizantes para uma geração que via no cinema crianças serem os grandes protagonistas das tramas. Uma geração inteira viu um menino ajudar um extraterrestre voltar ao seu planeta em "ET" (1982), assim como um grupo de garotos que foram caçar um tesouro em "Os Goonies" (1985). Porém, entre esses títulos, "Conta Comigo" (1986) seguia por essa tendência, mas de uma forma mais humana.
Dirigido por Rob Reiner, do filme "Harry e Sally - Feitos um para o Outro" (1989), o filme conta a história de Gordie Lachance (Richard Dreyfuss), um escritor que recorda quando tinha entre doze e treze anos no verão de 1959 e vivia em Castle Rock, Oregon. Gordie tinha três amigos: Chris Chambers (River Phoenix), Teddy Duchamp (Corey Feldman) e Vern Tessio (Jerry O'Connell). Um dia Vern ouviu por acaso Billy Tessio (Casey Siemaszko) e Charlie Hogan (Gary Riley) comentando sobre o corpo de Ray Brower, garoto da idade deles que havia desaparecido. Cada um deu uma desculpa em casa e partiram para tentar encontrar o corpo. Mal sabem eles que esta procura se tornará em uma grande jornada de autodescoberta.
O filme é baseado no conto "O Corpo" (The Body), de Stephen King, que faz parte da coletânea "As Quatro Estações". É bem verdade que, tanto o livro quanto o filme, é baseado na própria vida do escritor, sendo que que muita da sua vida pessoal serviu de inspiração para realização de suas obras. Ao meu ver, quando ele escreveu "A Quatro Estações" foi uma espécie de busca pela redenção que tanto procurava desde a infância e uma maneira de exorcizar as suas dores interiores. Assim como na trama, King havia perdido também um irmão quando ainda era pequeno e fazendo com que isso assombrasse boa parte de sua vida.
O filme não somente destaca os valores da verdadeira amizade criada na infância como também uma transição entre a fantasia e a vida adulta. Os quatro jovens em cena são quatro brincalhões, mas que cada um guarda uma dor interior pessoal, mas da qual pode ser amenizada a partir do momento em que eles compartilham uns com os outros. Gordie é o que mais carrega uma dor interior durante a jornada, já que o seu irmão havia falecido a pouco e por alguma razão se culpando por isso.
O filme tem a proeza de possuir um enredo que sabe nos conduzir entre o drama e o humor na medida certa. A primeira vez que eu assisti ao filme foi numa distante Sessão da Tarde e a primeira coisa que me vinha na cabeça é a hilária história sobre o "Baleia" que um deles conta em volta da fogueira. Nunca me esqueci o quanto eu ri dessa cena e revendo ela ainda me provoca boas gargalhadas.
Rob Reiner foi um diretor que não se entregava totalmente a um único gênero, mas sim criando tramas que trouxessem elementos de todos os tipos de filmes que ele havia assistido em vida. Além disso, não faltam até mesmo elementos de suspense como quando eles fogem de um trem, ou quando eles são atacados por sanguessugas quando eles atravessaram uma lagoa. São momentos em que você fica com o coração na mão e se você sente isso é porque o filme teve a proeza de conquistá-lo ao longo da projeção.
O filme até hoje é lembrado como o primeiro grande sucesso do até então jovem ator River Phoenix, sendo que a partir dali em diante ele atuaria em outros grandes sucessos como "Indiana Jones e a Última Cruzada" (1989) e "Garotos de Programa" (1991). Infelizmente o ator viria a falecer em 1993 e deixando no ar a possibilidade de ter se tornado um dos grandes astros daqueles tempos. Após a sua morte os seus filmes começaram a ser cada vez mais revisitados, principalmente "Conta Comigo".
Acima de tudo, é um filme sobre traumas, perdas e sobre a difícil jornada para obter o amadurecimento em meios as adversidades do mundo real. Ao final, constatamos que amigos são poucos que adquirimos ao longo da vida, mas sendo o suficiente para serem lembrados com carinho, pois alguns deles tiveram grande importância para o nosso amadurecimento. Ou seja, um filme em que todos nós nos identificamos, sendo que a busca pelo cadáver se torna uma mera desculpa para desfrutarmos da jornada dos personagens e fazendo com que a gente se sentisse como parte daquele grupo.
"Conta Comigo" é um verdadeiro clássico sobre o significado da palavra amizade em meio a grande jornada para a vida adulta.
Na primeira cinesemana de 2026, o destaque é JOVENS MÃES, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, um drama que mostra a rotina de cinco garotas belgas grávidas na adolescência. VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier, um dos filmes mais aguardados da temporada de premiações segue na programação, bem como SORRY, BABY, de Eva Victor.
Na sala Norberto Lubisco, ficam em exibição VIZINHOS BÁRBAROS, de Julie Delpy, NOUVELLE VAGUE, de Richard Linklater, e LUMIÈRE! A AVENTURA CONTINUA!, de Thierry Frémaux. Esta é a última semana para conferir LIVROS RESTANTES, com a atriz Denise Fraga e a comédia romântica italiana PRIMEIRO ENCONTRO.
A sala Paulo Amorim está sem programação devido a problemas técnicos. Confira a programação completa da cinemateca no site oficial clicandoaqui.
Foi um ano de desafios, onde tive que enfrentar obstáculos que testaram o meu lado mental e físico. Chego ao final desse ano com o dever cumprido, mesmo sabendo que as mesmas adversidades do ano que está partindo estarão presente no novo ano que está chegando. Ao menos o cinema esteve lá para me manter de pé e fazendo com que a sua magia continuasse viva dentro de mim.
Neste ano tive o prazer de conhecer o novo talento do cinema norueguês chamado Dag Johan Haugerud, cuja a sua trilogia sobre sexo e amor me pegou de jeito e cuja terceira parte "Dreams" me encantou pela sua simplicidade, porém, com grande conteúdo. Foi um ano também que Paul Thomas Anderson voltou com tudo com o seu "Uma Batalha Após a Outra" e provando que a sua consagração nos anos noventa a partir de "Boogie Nights" (1997) não foi algo do acaso. Ryan Coogler, por sua vez, teve a façanha de realizar um dos melhores filmes de vampiros do cinema recente através de "Pecadores", ao saber alinhar o longa com outro gênero que é o musical e tudo isso falando sobre a própria América de tempos mais racistas, mas que ecoam em tempos atuais nebulosos.
Já o nosso cinema brasileiro segue firme e forte e provando que "Ainda Estou Aqui" (2024) não foi um caso isolado. Kleber Mendonça Filho conquistou Cannes através do seu "O Agente Secreto" e abrindo uma janela para diversas indicações a prêmios. "O Último Azul" é um filme elegante e que possui traços de um futuro distópico semelhante ao que foi visto no genial "Bacurau" (2019). Já "Oeste Outra Vez" é uma prova que o gênero faroeste não pertence necessariamente ao território gringo.
Tivemos também gratas surpresas das quais não esperava como o pesado, porém, necessário "Manas" e do divertido e que me pegou desprevenido pelo seu teor descontraído e imprevisível que foi "Betânia". "O Homem Com H" retratou a força e a coragem do grande artista Ney Matogrosso enquanto "Um Lobo entre Cisnes" me revelou um grande talento brasileiro que ainda me era desconhecido. Ainda tem outros títulos que acabei ainda não assistindo, mas que irei vê-los o mais breve possível.
Acima de tudo, desejo continuar com o meu trabalho, continuar a assistir a filmes e escrever sobre eles desde sempre. A arte da escrita, assim como adentrar a sala escura, é um remédio para mim em todos os sentidos e fazendo a minha alma revigorar e me fazendo cada vez mais fortalecido. Para todos um feliz 2026 e que sigamos em frente não importa o que aconteça.
Top 10 Melhores Filmes Internacionais
01º Uma Batalha Após a Outra
02º Pecadores
03º Dreams
04º Sex
05º Foi Apenas Um Acidente
06º A Hora do Mal
07º Sorry, Baby
08º Nouvelle Vague
09º FRANKENSTEIN
10º Nosferatu
Top 10 Melhores Filmes Nacionais
01º O Agente Secreto
02º O Último Azul
03º Oeste Outra Vez
04º Manas
05º O Homem Com H
06º A Melhor Mãe do Mundo
07º Sonhar Com os Leões
08º Um Lobo entre Cisnes
09º Apocalipse dos Trópicos
10º Betânia
NOTA: Que em 2026 você faça parte também do nosso Clube de Cinema. Participe e até lá.
Sinopse: Algo ruim aconteceu com Agnes, mas a vida continua para todos os outros. Quando um amigo querido, à beira de um grande marco, a visita, Agnes começa a perceber o quanto tem estado presa e começa a trabalhar em como seguir em frente.
Em tempos em que os abusos morais e físicos não são mais tolerados fica cada vez mais evidente que determinados indivíduos ainda acreditam que podem adentrar um território do qual não foi convidado. Ao mesmo tempo, ainda há uma parte da sociedade que não sabe ao certo lidar com isso, ou se faz de desentendido e não quer tocar no assunto. "Sorry Baby" (2025) é um retrato de muitos, onde a protagonista procura manter a sua sanidade após uma situação que lhe afetou profundamente.
Dirigido e estrelado por Eva Victor, o filme conta a história de Agnes, que após sofrer um evento abusivo, se vê sozinha enquanto todos ao seu redor seguem em frente como se nada tivesse acontecido. Agnes é uma professora de literatura em Fairpoint, uma faculdade de artes no Estado de Nova Inglaterra. Quando ela recebe a visita de uma velha amiga é então que certas lembranças começam a vir à tona.
Antes de mais nada é preciso reconhecer o talento de Eva Victor, seja na direção como também na atuação. É impressionante como a sua personagem muda de olhar de forma gradativa, sendo de acordo com os eventos que ela vai presenciando e sentindo ao longo da história. No seu olhar vemos alguém tentar manter o equilíbrio, mesmo quando existe todas as chances dela sair dos trilhos.
Ao mesmo tempo é preciso dar palmas também pela sua direção, onde a mesma constrói uma edição de cenas que nos faz atrair mais pela situação dos eventos, ao ponto que o filme ganha ares até mesmo de um suspense psicológico, pois não sabemos ao certo quais serão as ações da protagonista como um todo. Além disso, o filme é dividido em capítulos, onde a trama vem e volta na linha do tempo, mas tudo sendo feito de uma maneira compreensível e que não atrapalhe o nosso entendimento. Nada mal para uma realizadora que começou de uma forma tão arrebatadora.
O filme também é uma crítica lúcida sobre uma sociedade ainda conservadora e que não sabe ainda como lidar com as pessoas que se veem invadidas e abusadas fisicamente e moralmente. Por conta disso, o teor hipócrita e atenuante se faz de corpo presente em cenas específicas, desde as representantes da faculdade em não saber lidar com o assunto, como também uma colega da protagonista chamada Natasha, que optou em jogar a favor do machismo desde que ganhe algo com isso. Atenção para atuação impressionante da atriz Kelly McCormack em cena, onde facilmente faz com que a sua personagem seja odiada do começo ao final do longa.
O filme ainda dá espaço para assuntos também espinhosos, desde a questão de filhos, aborto e o real significado da palavra família em tempos em que as pessoas estão cada vez mais com medo em abraçar determinadas responsabilidades. Portanto, a cena final é simbólica, onde vemos a protagonista simbolizando uma geração perdida, enquanto ela segura nos braços a representação de uma geração cujo futuro ainda é indefinido. Ao menos a realizadora nos diz que é preciso ativar uma força interna para continuar existindo e para assim fazermos a diferença mesmo quando tudo se encontra perdido.
"Sorry Baby" é uma das mais belas surpresas do ano, onde a direção e atuação de Eva Victor falam por si só e nos fazendo refletir sobre os dilemas cada vez mais complexos do mundo atual.