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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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domingo, 2 de agosto de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate – 'Touch'

Sinopse: Acompanhamos Kristófer, um viúvo solitário na Islândia que decide ir atrás de Miko, seu primeiro grande amor de 50 anos atrás.

A bomba atômica de Hiroshima entra para a lista dos piores crimes contra a humanidade e com certeza é um material farto para o cinema. O cinema norte-americano, porém, sempre procurou evitar explorar esse assunto: o antes e o depois do evento chegaram a ser revisitados, mas raramente o dia cataclísmico em si. Nem mesmo o maravilhoso "Oppenheimer"(2023) chegou a esse ponto, embora Christopher Nolan tenha explorado em potência máxima o peso que o criador da bomba carregou como um fardo irreversível.

Fora do território estadunidense, no entanto, surgiram filmes com retratos assombrosos daquele dia, como o impactante anime "Gen, Pés Descalços"(1983). Já na França da Nouvelle Vague, fomos presenteados com "Hiroshima, Meu Amor"(1959), cuja sequência de abertura costuma ser mais lembrada do que a própria história de amor. É nesse cenário que chegamos ao islandês "Touch" (2024), em que a jornada do protagonista rumo às suas raízes do passado revela a ligação da história com Hiroshima.

Dirigido por Baltasar Kormákur e baseado no romance homônimo (Snerting), do autor islandês Ólafur Jóhann Ólafsson, o filme conta a história de Kristófer, um homem que resolve resgatar uma parte significativa de sua vida. Vivendo agora como um viúvo solitário, ele se recorda de Miko (Kōki), sua namorada na década de 1960. Quando jovens, ao se conhecerem no restaurante japonês onde ele trabalhava como lavador de pratos, os dois se apaixonaram perdidamente. Contudo, após um sumiço repentino por parte dela, suas vidas tomaram rumos opostos — até que, muitos anos depois, ele decide reencontrá-la a qualquer custo.

Kormákur possui uma filmografia de certa forma irregular, alternando obras intimistas, como "Vidas à Deriva" (2018), e produções escapistas de ação, como "Dose Dupla" (2013). Aqui, porém, o realizador se sai muito bem ao transitar entre passado e presente, revelando duas fases distintas do protagonista que moldaram quem ele é. Militante de causas estudantis na juventude, sua trajetória ganha novos contornos a partir do momento em que entra em contato com a cultura japonesa naquele simples restaurante — um lugar carregado de memórias reveladas gradualmente.

A convivência do jovem Kristófer com o dono do restaurante e sua filha lhe confere outra perspectiva sobre um mundo repleto de conflitos, onde o preconceito contra os japoneses ainda era latente. A questão de Hiroshima é explorada em ambas as linhas temporais, simbolizando as sequelas daquele evento e o modo como afetaram a vida de pai e filha. O que temos, portanto, é uma análise detalhada de como certos traumas deixam cicatrizes não apenas físicas, mas psicológicas e morais para o resto da vida.

O filme explora a busca do indivíduo por respostas no momento em que sua própria saúde se torna delicada. Curiosamente, a trama se desenrola durante a pandemia da COVID-19, período em que a sociedade temia um vírus mortal — o que não impede o protagonista de seguir em sua cruzada pessoal. É nessa busca que Hiroshima se torna uma peça primordial.

É interessante observar também como o longa retrata o fim de uma era e o início de outra. A sombra da finitude anda à espreita, sem contudo impedir que o afeto e a busca por redenção abram caminho para um novo recomeço. Ao final, constatamos que a vida prossegue, mesmo quando forças destrutivas tentam aniquilar tudo ao toque de um botão.

"Touch" é uma obra sensível sobre a busca por respostas de um passado distante, cujas revelações se mostram tão profundas quanto surpreendentes.


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domingo, 19 de julho de 2026

Cine Dica: Próximo Cine Debate – 'Risa e o Telefone do Vento'

Sinopse: Após o desaparecimento do pai, Risa, de 10 anos, descobre um telefone quebrado que lhe dá a chance de falar com os mortos.

Filmes sobre a vida pós-morte já não são nenhuma novidade no decorrer da história do cinema. Se por um lado o cinema norte-americano tem o seu clássico "Ghost: Do Outro Lado da Vida" (1990), por outro, o próprio cinema brasileiro explorou o assunto com força no início dos anos 2010, como nos casos de "Chico Xavier" (2010) e "Nosso Lar" (2010). Diante disso, "Risa e o Telefone do Vento" (2026) surge como uma singela e sensível história sobre o poder da inocência perante um tema, por vezes, inexplicável.

Dirigido por Juan Cabral, o longa acompanha a pequena Risa, que perdeu o pai quando ainda era muito nova. A sua rotina muda quando ela encontra uma cabine telefônica isolada, através da qual consegue conversar com as vítimas de um incêndio na cidade. Esses espíritos desejam passar mensagens finais para os seus entes queridos que ainda estão vivos, e essa comunicação inesperada fará a protagonista encarar uma realidade que ela nunca imaginou ser possível.

Embora o filme tivesse todos os elementos para ser rodado de forma convencional, é fascinante observar como Juan Cabral constrói as cenas com um rigor quase perfeccionista. Cada ação e reação dos personagens carrega um subtexto, assim como certos objetos repletos de simbolismo que surgem no decorrer do enredo. A cidade onde os eventos ocorrem parece semi-morta, habitada por sobreviventes que se mantêm abraçados à esperança gerada pela cabine telefônica — o que acaba despertando a atenção da pequena protagonista. O filme prende o espectador pelo óbvio, mas alinha a narrativa a elementos imprevisíveis e às reais facetas das personagens principais.

Neste quesito, talvez o melhor exemplo seja o próprio Esteban, interpretado brilhantemente por Diego Peretti. Apresentado inicialmente como uma figura duvidosa, ele logo revela a sua verdadeira essência à medida que passa a se importar com Risa e com aquilo em que ela acredita. O seu visual, inclusive, remete fortemente ao inesquecível Harry Dean Stanton no clássico "Paris, Texas" (1984); em comum, ambos os personagens buscam a redenção através da inocência de uma criança.

O roteiro não se preocupa em dar uma explicação lógica ou plausível para o fenômeno, mas, ao mesmo tempo, tudo soa verossímil. A escolha de não utilizar efeitos visuais mirabolantes para moldar o teor fantástico fortalece a obra, deixando o foco na ideia primordial que movimenta as relações humanas. É interessante notar que este longa argentino estreia em um momento delicado, no qual a cultura do país vizinho enfrenta o sucateamento sob o governo Milei. A produção, portanto, torna-se um belo exemplo de que a criatividade faz toda a diferença, mesmo diante da escassez de recursos.

Em suma, "Risa e o Telefone do Vento" é um longa tocante em que o realismo e o gênero fantástico se alinham perfeitamente. Uma obra que ensina que a empatia e a prática do bem fazem toda a diferença, conduzindo os personagens centrais rumo a uma necessária e bela redenção.


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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Cine Dica: Próximo Cine Debate - 'Um Pai para Lily'

Sobre o Filme: As redes sociais atualmente tem sido uma forma das pessoas escaparem de sua própria realidade, mas ao mesmo tempo se perdendo em um mundo virtual que, por vezes, não se leva em lugar algum. Porém, há casos desta ferramenta ajudar a pessoa, mesmo quando esse cenário se torna cada vez mais raro hoje em dia. "Um Pai para Lily" (2025) nos revela a realidade de pessoas que anseiam por carinho e que procuram enfrentar os seus próprios medos através da ajuda do seu próximo.

Dirigido e roteirizado por Tracie Laymon, o filme é inspirado em experiências da própria diretora e da qual decide revelar nas telas. Na trama, a jovem Lily (Barbie Ferreira) se decepciona mais a cada dia buscando ao buscar atenção do seu pai. Por conta do egocentrismo dele, os dois se afastam cada vez mais, o que faz Lily conhecer por acidente pelas redes sociais Bob Trevino, um homem bondoso e que vê na jovem uma forma de se sentir alguém mais vivo e ajudar ela no que for necessário.

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domingo, 24 de maio de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'PARASITA'

Sobre o Filme: Joon-ho Bong é um desses casos de cineastas autorais que conseguem fazer uma análise crítica sobre o mundo contemporâneo em que vivemos através de diversos gêneros. Se por um lado "Expresso do Amanhã" (2013) era uma ficção futurística sobre a luta entre as classes dentro de um único cenário, do outro,  "Okja" (2017) fala de uma sociedade consumista, zumbi e sem se importar com o consumo vindo de seres que não podem nem se defender.  Eis então que chegamos ao filme "Parasita", onde novamente se tem um estudo sobre o atrito entre as classes e culminando em desdobramentos surpreendentes.

O filme conta a história da família Ki-taek que se encontra desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. Porém, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos.

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate – "O Último Gigante"

Sobre o Filme: A reconciliação entre pais e filhos não é um tema novo na história do cinema, mas continua gerando longas que levantam debates profundos sobre até onde se pode perdoar um passado cujas cicatrizes emocionais ainda não fecharam. Saber ouvir é, muitas vezes, uma questão de tempo — mesmo quando a raiva ofusca o olhar que deveria acolher a versão do outro. "O Último Gigante" (2025) não é apenas sobre o reencontro familiar, mas também sobre a busca por uma redenção quase sempre inalcançável.

Dirigido por Marcos Carnevale, o filme narra a história de Boris (Matías Mayer), um guia turístico em Puerto Iguazú que vê sua vida virar de cabeça para baixo com o aparecimento inesperado de Julián (Oscar Martínez), o pai que o abandonou na infância. Aos 28 anos, Boris terá que lidar com o retorno de um homem que deseja, tardiamente, reconquistar o tempo perdido.

Carnevale construiu uma carreira transitando habilmente entre o humor e o drama. Aqui não é diferente: ele conduz um roteiro em que os personagens lidam com situações delicadas por meio de pinceladas de um humor refinado, prendendo a atenção do espectador do início ao fim. O encontro dos protagonistas já nos dá a dimensão do conflito, mas é nessa transição orgânica de gêneros que o filme ganha fôlego.

O veterano Oscar Martínez brilha ao interpretar um homem no limiar do fim, buscando forças para encarar os próprios erros e obter um perdão ainda não conquistado. Já Matías Mayer constrói um personagem que, inicialmente, não sabe processar seus sentimentos, usando a raiva para expressar uma dor guardada por anos. O embate verbal entre os dois rende momentos de tensão que, aos poucos, dão lugar à razão, facilitando a identificação do público com suas trajetórias.

Além disso, o longa toca em um assunto espinhoso e recorrente no cinema: a eutanásia. Curiosamente, esse ponto acaba ficando em segundo plano. Isso ocorre não apenas porque o foco primordial recai na reconciliação, mas também porque o tema já foi exaustivamente debatido em títulos anteriores. Embora a iniciativa seja válida, o filme talvez chegue um pouco tarde a uma discussão que já possui marcos cinematográficos muito consolidados.

Ao final, as questões levantadas são sanadas, permitindo que cada personagem siga sua própria jornada. "O Último Gigante" pode não mudar a vida do espectador, mas é um título que se destaca pelo lado humano e reflexivo. É, em última análise, um filme sobre a busca pela redenção enquanto ainda resta tempo.


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domingo, 5 de abril de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Dúvida'

Sobre o Filme: O embate de dois grandes astros na tela sempre nos rendeu grandes momentos na história do cinema. Meryl Streep, ao interpretar uma diretora de escola que desconfia que o padre local (Philip Seymour Hoffman) possa ter abusado sexualmente de um dos seus alunos, se inicia então um duelo verbal onde ambos tentam descascar um do outro os seus pontos fracos interiores. Sreep e Hoffman se digladiam em diálogos soberbos, onde um não supera o outro e em ambos os casos se fica realmente a dúvida de quem estava certo.

Destaque também para a atriz Amy Adams que aqui faz uma jovem freira e professora que procura ser gentil com os seus alunos, mas tendo que enfrentar regras severas da diretora interpretada por Sreep. Porém, o grande destaque fica por conta da atriz Viola Davis, que aqui interpreta a mãe do menino que possivelmente foi abusado pelo padre, mas escolhendo um caminho imprevisível sobre a situação. Em poucos minutos, Viola rouba a cena o que lhe garantiu uma de suas primeiras indicações ao Oscar.

Curiosamente, a direção desse filme ficou por conta de John Patrick Shanley, um realizador que ao longo da carreira trabalhou mais como roteirista e que aqui foi um dos seus primeiros trabalhos na direção. Vale lembrar que o filme é baseado em uma peça teatral a qual ganhou o prêmio Pulitzer de drama em 2005 e sendo que o diretor admirava muito o trabalho feito nos palcos. Por conta disso  ele levou a peça para o cinema, cujo resultado foi extremamente positivo, mas não sendo o suficiente para ele embarcar em outros projetos futuros.

"Dúvida" foi um filme até mesmo a frente do seu tempo, onde os escândalos dentro da igreja ainda eram silenciados, mas que posteriormente acabou explodindo nos anos que vieram.



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domingo, 22 de março de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Every Day a Good Day'

Sinopse: Uma jovem de 20 anos cuja mãe sugere que ela comece a ter aulas de cerimônia do chá com a Sra. Takeda, conhecida por ser uma professora extraordinária e interpretada pela igualmente extraordinária KIKI Kirin.

Quando eu era criança eu não entendia certos filmes, principalmente aqueles que possuem certa complexidade, mas que nos encanta pela sua aura de mistério. "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968) foi um desses casos, sendo que eu nunca antes havia testemunhado um filme como aquele e que hor sobre a perspectiva sobre o que enxergamos em nosso passado e como aquilo muda quando possuímos um olhar adulto.

Baseado no livro de grande sucessje adulto compreendo a sua total magnitude. "Every Day a Good Day" (2018) nos revela um olhao da ensaísta MORISHITA Noriko e dirigido por OMORI Tatsushi, Every Day a Good Day é estrelado por KUROKI Haru, de The Little House, no papel de Noriko, uma jovem de 20 anos cuja mãe sugere que ela comece a ter aulas de cerimônia do chá com a Sra. Takeda, conhecida por ser uma professora extraordinária e interpretada pela igualmente extraordinária KIKI Kirin. No início, Noriko se sente confusa com a natureza meticulosa da cerimônia, mas, com o tempo, passa a perceber que ela oferece uma maneira única de compreender a vida e os desafios que estão por vir.

Já nos minutos iniciais da obra a jovem protagonista disse que não entendeu nada quando assistiu ao filme "A Estrada da Vida" (1954) de Federico Fellini. O filme nos revela um olhar inocente perante um mundo do qual a protagonista ainda está descobrindo e cujo os eventos que ela testemunha, seja no cinema, na música, ou em suas próprias tradições, terão uma compreensão melhor na medida em que o tempo passa. As aulas de chá, por exemplo, são um exercício de corpo e mente, onde a jovem vai exercitando os seus reflexos, assim como também uma forma de criar uma linha sobre o tempo da inocência para a fase adulta.

O grande prazer em assistir ao filme é testemunhar a forma como eles tratam a questão de servir um simples chá como um ritual de aprendizado, de concentração e se tornando uma experiência quase sensorial. É da simplicidade que se gera disciplina e paciência e nisso o filme nos conduz aos ingredientes que, se por um lado não pertence a nossa cultura, ao menos nos ensina a buscar dentro dela. Em tempos em que a sociedade está cada vez mais presa em tecnologias é sempre bom ver um ensinamento de que os velhos costumes ainda são a melhor coisa para o corpo e o espírito.

Acima de tudo, é um filme que nos revela a inocência transitando pela fase adulta e cujo conto de fadas talvez nunca seja aquilo que a gente esperava. Ao final, vemos a jovem protagonista compreender melhor as coisas, tanto com relação ao que quer ser na vida, como também sobre ganhos  e perdas. Portanto, ao chegar em certa idade ela não só se lembra agora de "Estrada da Vida" como uma obra de arte, como também se sente orgulhosa com relação a tudo o que passou em sua própria cruzada.

"Every Day a Good Day" é sobre o passado e presente, onde as dificuldades de compreender e colocar em prática determinada situação se torna um ritual para adquirir novos caminhos no seu devido tempo. 

Onde Assistir: JFF THEATER 

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domingo, 8 de março de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Grandes Olhos'

Tim Burton é um cineasta autoral que, não mede esforços para injetar a sua visão pessoal, com relação ao mundo em que vive na criação dos seus filmes. Infelizmente ele trabalha numa indústria, em que as engrenagens são movidas pelo dinheiro e, portanto nem sempre ele possui total liberdade criativa. Alternando em produções milionárias onde não consegue fazer o filme que gostaria (Alice no País das Maravilhas) e filmes menores onde mostra toda a sua genialidade (Ed Wood), Burton talvez seja um dos poucos cineastas autorais americanos que sabe na pele como deve agradar um pouco de cada lado para assim então conseguir carta branca para fazer o filme que quiser.

Essa briga pelo direito de manter intacta a sua identidade própria no mundo em que vive é vista muito bem nesse pequeno, mas tocante filme intitulado Grandes Olhos. Estamos na virada dos anos 50 para os 60, onde o homem ainda se mantém como o ser dominante de uma sociedade hipócrita e escondida num quadro azul e cor de rosa. As mulheres em si possuem o seu talento escondido, mas pela falta de coragem de saírem do armário, acabam se se tornando submissas pelo lado mesquinho do sexo masculino.

Margaret Keane (Amy Adams) tem talento vindo de sua mente e que desce para os dedos, no momento que começa a pintar belas imagens de crianças com grandes olhos que, nada mais são, do que uma representação da sua forma como enxerga o mundo. Uma mulher a frente do seu tempo, mas que infelizmente ainda acredita que necessita de um homem e com isso, cai nas garras do salafrário Walter (Christoph Waltz) e se casando com ele. Se dizendo um artista, não demora muito para Walter se dizer o verdadeiro autor das obras de Margaret que, por sua vez, não desmenti e acaba se tornando então um mero fantoche.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Cine Dica: Próximo Cine Debate - 'Cabrini'

 

Sinopse: O filme Cabrini conta a história inspiradora de Francesca Cabrini, uma imigrante italiana que, em 1889, chega a Nova York e encontra pobreza, doença e exploração entre os imigrantes, especialmente crianças órfãs, e com sua fé, coragem e habilidade empreendedora, luta contra o preconceito e o sistema para construir um império de esperança, hospitais, orfanatos e escolas, tornando-se a primeira santa americana e uma grande empreendedora do século XIX, tudo isso apesar de sua saúde frágil e do sexismo da época.

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segunda-feira, 21 de abril de 2025

Cine Dica: Próximo Cine Debate - 'Adolescência'

 

Sobre a Série: No meu tempo de escola não havia internet, mas a perseguição contra aqueles que eram diferentes já existia e fazendo com que o perseguido tivesse grandes chances de se tornar um monstro. Nos dias de hoje com as redes sociais, a vítima de Bullying pode extravasar as suas frustrações, conhecendo assim outras pessoas parecidas com ele, mas não obtendo uma ajuda realmente verdadeira e da qual lhe ajude para conter o lado mais sombrio de sua alma. "Adolescência" (2024) está dando o que falar por colocar para fora um grande mal que acontece nos tempos de escola e que nem todos os pais têm uma vaga ideia do que acontece nesta época.

Dirigido por Jack Thorne e Stephen Graham, essa produção inglesa conta a história da família Miller, cuja sua rotina muda drasticamente quando Jamie (Owen Cooper), de 13 anos, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola. Seu pai, Eddie (Stephen Graham), luta para compreender uma realidade que se torna um verdadeiro inferno, enquanto a psicóloga Briony Ariston (Erin Doherty) tenta desvendar a mente do garoto em um grande duelo verbal. Já o inspetor Luke Bascombe (Ashley Walters) lidera a investigação, mas aos poucos ele descobre que ainda tem muito o que aprender sobre o que acontece no dia a dia escolar atual.

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segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Balzac e a Costureirinha Chinesa'

Sobre o Filme:  

Publicado em 1953, o livro “Farenheit 451” de Ray Bradbury é sem sombra de dúvida uma fonte de inspiração para outras obras, da qual nos ensina que não importa o quanto uma política ditatorial possa ser opressora, pois no final das contas os livros sempre nos darão a chance de abrirmos uma nova porta. Portanto, “Balzac e a Costureirinha Chinesa”, publicado em 1999 pelo escritor Dai Sijie não foge da mesma regra, principalmente quando a arte literária invade um local sem recursos, mas fazendo do mesmo se tornar um lugar inesquecível uma vez que os habitantes começam a sonhar por novos caminhos. Já a sua adaptação cinematográfica, "Balzac e a Costureirinha Chinesa" (2001) é bastante fiel a sua fonte original e por isso mesmo se tornando genial.

Dirigido pelo próprio Dai Sijie, o filme conta a história sobre  Luo (Chen Kun) e Ma (Liu Ye), dois jovens de 17 anos que, em plenos anos setenta, vivem na China comandada por Mao Tsé-Tung. Os dois são encarados como sendo inimigos do povo por seus pais serem médicos e dentistas, considerados burgueses reacionários. Luo e Ma são então presos e encaminhados a um "campo de reeducação", em uma vila isolada no Tibet. Todos os livros de Luo são queimados, mas Ma consegue manter seu violino ao alegar que Mozart compunha para o Presidente Mao. No campo eles apenas encontram alívio nas músicas tocadas por Ma e nas histórias narradas por Luo, até que conhecem uma costureirinha (Zhou Xun) por quem ambos se apaixonam.

Obviamente o conto é uma reconstituição das lembranças do escritor que hoje vive na França, mas que jamais se esqueceu do período em que o seu país estava vivendo uma grande metamorfose cultural e política. Embora eu ainda não tenha lido eu creio que o longa seja bastante fiel a sua fonte original, principalmente com relação as passagens em que a dupla central conta os principais contos de Flaubert, Tolstói, Victor Hugo e Balzac e dos quais eles obtiveram através de outro personagem sendo acusado também de ser subversivo. O filme em si é uma bela homenagem com relação a esses escritores, assim como também um pequeno ensinamento sobre o poder do conhecimento mesmo em tempos complexos.

Curiosamente, o triangulo amoroso visto na trama remete alguns clássicos com uma temática semelhante, como no caso de "Jules e Jim - Uma Mulher para Dois" (1962), de François Truffaut, mas obtendo contornos menos trágicos e até mesmo com alguns momentos cômicos no decorrer da narrativa. Entre as restrições nascidas através das velhas tradições, o trio central vai mudando gradativamente na medida em que o tempo passa naquele local e fazendo com que certos sonhos comecem a florar. Porém, todo o sonho tem um desafio e deste mesmo vem as mudanças inevitáveis mesmo quando não desejamos elas.

Ao final constatamos que, infelizmente, o tempo destrói tudo, seja ele orquestrado pela própria natureza ou pela ambição do homem pelo progresso desenfreado. Portanto, ao vermos a dupla central se reunir para se lembrarem daqueles tempos em que eles viviam, se constata que o passado se tornou mais dourado devido ao que haviam sentido e aprendido, enquanto o presente se torna nebuloso, pois o futuro se torna indefinido a partir dos ventos da mudança que vão acontecendo. Ao final, o que resta aos personagens é nadarem pelo passado e voltarem a se sentirem vivos e mais maduros perante ao que está vindo.

"Balzac e a Costureirinha Chinesa" é um delicado romance sobre a transição da inocência para a fase adulta e cuja cultura, política e velhas e novas tradições moldam as pessoas de acordo com os caminhos que irão trilhar.  

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segunda-feira, 24 de junho de 2024

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Humano'


Em um determinado momento do documentário "Humano" (2015), de Yann Arthus-Bertrand, há um depoimento de um Haitiano e logo em seguida é cortado por um depoimento de uma mulher Russa. O primeiro fala sobre as dificuldades de ser pobre enquanto a mulher fala de como é bom ser rica para comprar o que quiser na vida. O contraste é gritante, sendo que são duas pessoas que vivem no mesmo planeta, mas que se encontram separados através de uma grande muralha invisível construído pelo sistema capitalista.

O fotografo e diretor Yann Arthus-Bertrand buscou os mais diversos tipos de depoimentos ao redor do globo, onde as pessoas paravam em frente a sua câmera e começavam a colocar para fora as suas vidas e sobre os altos e baixos que obtiveram ao longo dessa jornada. Há um interesse fortíssimo do realizador em focar ao máximo as expressões dessas pessoas, onde podemos ver cada marca e das quais representam uma história a ser contada. Curiosamente, há um interesse do realizador em começar um depoimento de um em off enquanto surge na tela outro do outro lado deste planeta.

Ao meu ver, isso sintetiza a maneira como agirmos perante as palavras das quais nós ouvimos, mesmo quando não fica claro se o rosto que surge em cena está ouvindo a voz do outro, mas dando um exemplo da forma como reagimos quando ouvimos a história de alguém que viveu em seu micro cosmo, mas que não é muito distante do nosso. Yann Arthus-Bertrand procura também nos lembrar de como somos pequenos neste grande formigueiro que chamamos de Terra, sendo que a sua câmera sobrevoa diversos cantos do mundo, desde os países mais ricos, como também aqueles em que muitos estão se tornando locais para refugiados e sobrevivendo ao pedaço de terra onde decidiram plantar para sobreviver. Em um determinado momento, por exemplo, vemos uma jovem atravessando uma grande multidão com uma cesta de comida, para logo em seguida focar a câmera que a está filmando e revelando um olhar que tem muito mais a que dizer do que meras palavras soltadas ao vento.

Acima de tudo, é um documentário que fala sobre o ser humano de como se relaciona, como comete erros e acertos, como dá a volta por cima e tendo que começar tudo do zero. Não importa se você seja pobre ou rico, pois ninguém é intocável nesta vida e somos residentes em uma única casa que chamamos terra e da qual, infelizmente, não estamos cuidando muito bem dela. Na pior das hipóteses, nas próximas décadas talvez tenhamos depoimentos de pessoas arrependidas de não terem feito algo melhor para o nosso planeta ao invés de se preocupar com coisas e que nos deixavam mais alienados no dia a dia.

"Humano" reúne declarações de diversas pessoas do globo e que revela o que nos faz realmente sermos humanos. 

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