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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Anatomia do Caos'

Sinopse: Com acesso inédito ao Senado, o filme acompanha por dentro a trajetória da CPI da Covid-19 e transforma esse registro em um retrato de um dos períodos mais marcantes e difíceis da nossa história recente.

Há quem diga que o brasileiro possui memória curta e, infelizmente, isso é verdade. Basta olharmos para exemplos recentes de nossa história, em que o país foi assolado pela desinformação disseminada por falsos líderes e profetas, provocando diversas tragédias. Seis anos atrás, o mundo passou pelo seu momento mais crítico de saúde pública devido à pandemia da Covid-19. Muito provavelmente, você deve ter perdido algum parente ou amigo para a doença porque ele acreditou que se tratava de uma "mera gripezinha", persuadido pelo discurso dos poderosos.

O Brasil instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a negligência do governo federal. E no que deu essa CPI? Infelizmente, parece que a verdade nunca é o suficiente; basta surgirem certos favores para que determinados atores cubram os fatos em nome de lucros futuros. O documentário "Anatomia do Caos" (2026), que acaba de entrar em cartaz, resgata essa revolta em todos os sentidos.

Dandara Ferreira, que codirigiu a cinebiografia "Meu Nome é Gal" (2023), decidiu usar os recursos que tinha em mãos para registrar os acontecimentos de forma direta. Ela não recorreu a entrevistas atuais e tampouco a uma retrospectiva linear sobre o início e o fim da pandemia. Todo o foco dramático gira em torno da CPI e, a partir dela, expõe os erros, acertos e omissões de políticos, médicos e empresários que se recusavam a ver a engrenagem do sistema parar.

Aqueles que acompanharam as transmissões diárias pela TV Senado na época podem pensar que já viram tudo sobre o assunto. No entanto, basta assistir ao documentário como obra cinematográfica para sentir uma raiva até então adormecida. A meta primordial do projeto de Dandara é preservar os fatos e escancarar como os rumos da nossa história poderiam ter sido diferentes. É uma síntese em potência máxima para que as futuras gerações não esqueçam de que o desgoverno da época permitiu que a morte tomasse conta do país durante a sua maior crise sanitária — uma tragédia que vitimou mais de 700 mil brasileiros, incluindo a minha avó e a minha tia.

Além de resgatar as imagens de arquivo da TV Senado, a diretora infiltrou sua própria câmera nos bastidores das sessões para capturar os melhores ângulos e focar nas patéticas declarações daqueles que defenderam medicamentos ineficazes contra o vírus. Talvez um dos momentos mais emblemáticos seja a sequência em que o senador e médico baiano Otto Alencar desmorona a narrativa da doutora Nise Yamaguchi, que tropeça ao tentar defender cientificamente o uso da cloroquina. Fora isso, há um desfile de figuras que sequer mereceriam ser mencionadas, como os empresários negacionistas Carlos Wizard e Luciano Hang, o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello e o deputado federal Osmar Terra, entre outros que foram depor a contragosto.

Revendo esse passado, a indignação só aumenta. Dandara Ferreira revela em "Anatomia do Caos" um Brasil recente em que as feridas da dor ainda estão abertas, por mais que existam aqueles que desejam, a todo custo, que nós as esqueçamos.

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Cinco da Tarde'

Sinopse: Anabel é uma adolescente que tenta aprender a lidar com a morte da avó. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Meiko, uma jovem que parece conhecer a falecida melhor do que ela mesma.

Eduardo Nunes realizou, no decorrer de sua carreira, longas-metragens focados em questões existenciais do ser humano, mostrando como elas podem ser mais complexas do que imaginamos. Tanto em "Sudoeste" (2012) quanto em "Unicórnio" (2018), o realizador coloca jovens personagens perante dilemas que vão da morte e da solidão ao amadurecimento diante de um futuro indefinido. "Cinco da Tarde" (2026) retoma e explora essas questões, mas elevando-as a um novo patamar.

A trama se passa no período da pandemia, onde conhecemos Anabel, uma adolescente que tenta aprender a lidar com a perda da avó. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Meiko. Conforme essa amizade cresce, as duas descobrem que têm muito em comum. 

Ao situar a narrativa nos tempos nebulosos da crise sanitária, Eduardo Nunes revela que as duas jovens convivem com um medo contido e uma angústia expressa nos gestos. Anabel, por exemplo, demonstra sinais de incômodo desde a primeira cena; sua insegurança faz com que o espectador não tenha certeza imediata do que se trata, algo que vai sendo revelado aos poucos. Meiko, por sua vez, pode ser interpretada inicialmente como uma representação do nosso próprio olhar na tentativa de decifrar Anabel, muito embora ela também carregue uma dor emocional profunda.

O diretor confina as personagens em um único cenário, onde o apartamento pequeno se torna claustrofóbico, potencializado pela fotografia em preto e branco que cria uma aura enigmática. O realizador é engenhoso nos enquadramentos: os fundos fora de foco revelam uma segunda camada de interpretação sobre o que acontece em cena, sem que o olhar das atrizes jamais fuja da nossa vista. Além disso, essa atmosfera se interliga a elementos que vão de sonhos e lembranças do passado a pinceladas de um gênero sobrenatural sutil, não assumido dentro do enredo.

É notório que testemunhamos tudo pela perspectiva da dupla — principalmente pelo que Anabel sente ou vê —, mas cabe a cada espectador interpretar o que presencia. Bárbara Luz e Sharon Cho constroem figuras enigmáticas, que agem movidas pela saudade dos entes perdidos, mas que vislumbram um recomeço a partir dessa aproximação. Vale destacar também os ótimos desempenhos de Analu Prestes e Miwa Yanagizawa, cujas presenças evocam um ar de mistério, fortalecido pela forma como o cineasta conduz suas aparições.

O filme se encaixa perfeitamente no contexto pós-pandemia, um período em que tantas pessoas perderam familiares e viram a necessidade de se reaproximar dos que ficaram. Para obter o calor humano, o caminho não passa pelas redes sociais — que muitas vezes nos tornam menos empáticos —, mas sim pela iniciativa interna de dar o primeiro passo. Embora pareça arrastado em alguns momentos, o longa nos mostra como nos desvencilhar de uma tristeza que nos imerge na escuridão.

"Cinco da Tarde" é sobre o nascimento incomum de uma amizade que evoca o calor humano indispensável em épocas que nos deixam apreensivos.

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terça-feira, 16 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Criadas'

Sinopse: O reencontro de Sandra, uma engenheira civil negra, e Mariana, sua prima de pele clara.

O cinema de horror psicológico frequentemente usa o elemento sobrenatural apenas como pano de fundo, enquanto os dilemas reais do mundo são colocados à prova. A "Trilogia do Apartamento", comandada pelo diretor Roman Polanski, por mais ingredientes de horror que possua, nada mais é do que um estudo sobre os limites da mente humana. "Criadas" (2026) também fala sobre fantasmas do passado, mas eles não vêm necessariamente dos mortos; surgem, na verdade, da raiva e dos arrependimentos.

Dirigido por Carol Rodrigues, o filme conta a história do reencontro de Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti). Duas mulheres negras — uma retinta e outra de pele clara — que voltam a morar juntas após vários anos. Agora como engenheira civil, Sandra precisa retornar a São Paulo, mais especificamente para a casa em que cresceu, local onde sua mãe trabalhou como empregada doméstica para a família de sua prima, Mariana. Ali, Sandra busca por uma foto antiga e percebe que o único lugar para encontrá-la é justamente o ambiente que serviu como espaço de apagamento e trabalho. Porém, à medida que memórias são desenterradas, um incômodo profundo surge entre as duas, além da iminência de eventos estranhos começarem a acontecer na casa.

Já no início, Carol Rodrigues brinca com as expectativas do público em relação à trama: uma das protagonistas desaparece por alguns momentos, fazendo com que a outra caminhe solitária pelos cômodos. É a partir desse instante que passamos a sentir um clima mórbido, como se os objetos do ambiente guardassem lembranças que ambas procuram evitar. No entanto, essas memórias surgem em cena não como flashbacks, mas de corpo presente, tornando a atmosfera do mistério ainda mais palpável e instigante de se observar de perto.

O filme, por si só, fala sobre um Brasil de ontem e de hoje, no qual o racismo estrutural se faz presente em cada fresta. Contudo, essa estrutura se manifesta de forma complexa através da própria dinâmica familiar, onde Mariana, por ter a pele clara e ter usufruído de certos privilégios e regalias no decorrer da vida, passou a reproduzir dinâmicas de subserviência com a prima e a tia, tratando-as quase como empregadas, mesmo pertencendo à mesma família. É um retrato contundente de como o sistema capitalista e o colorismo fazem com que as pessoas se distanciem de suas verdadeiras raízes assim que sobem um degrau na escala social, mesmo que isso não ocorra de forma intencional.

Fora do eixo familiar, o racismo estrutural também transborda em uma cena de festa, onde olhares e comentários velados revelam um Brasil conservador e retrógrado. É impossível não se incomodar, por exemplo, quando um determinado personagem demonstra interesse por Sandra no decorrer do evento, mas logo revela seu preconceito ao duvidar do parentesco dela com Mariana, pelo fato de as duas terem tons de pele diferentes. Aqui não há ficção, mas sim o reflexo de um absurdo que ainda alimenta o nosso cotidiano.

Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti entregam atuações brilhantes. A primeira transmite com precisão o conflito de identidade interna de Sandra, enquanto a segunda constrói uma Mariana que tenta a todo custo reprimir uma mágoa histórica. Uma vez que esses sentimentos não são exteriorizados, o passado cobra o seu preço, manifestando-se tanto na estrutura física da casa quanto no peso das lembranças. Estas últimas, inclusive, revelam-se muito mais difíceis de enfrentar do que qualquer assombração, dada a complexidade dos sentimentos humanos quando postos à prova.

Carol Rodrigues opta por construir elementos subliminares e metafóricos em vez de explicações puramente didáticas. O ato final, por exemplo, pode dividir opiniões quanto à sua mensagem imediata, mas, no meu entendimento, propõe que, quando o passado se torna um fardo intransponível, cabe a nós destruí-lo para que algo novo floresça e as cicatrizes emocionais possam, enfim, fechar-se permanentemente. Para que as barreiras do preconceito caiam, as velhas estruturas precisam ser demolidas — e é por isso que o minuto final se torna tão simbólico.

"Criadas" é um excelente exemplar de suspense psicológico em que o verdadeiro mal não se esconde nas sombras, mas sim nos muros invisíveis que construímos à nossa volta.

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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Trago o Seu Amor'

Sinopse: Mia, uma bruxa egocêntrica, tem um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou.

A comédia romântica atual tem despertado a atenção do grande público após anos de esgotamento de sua fórmula de sucesso. Produções como "Amores Materialistas" (2025) e "Amores à Parte" (2025) caminham de mãos dadas ao retratar as reais dúvidas de uma sociedade cada vez mais individualista e menos sonhadora em relação ao amor. Em contrapartida, o longa brasileiro "Trago o Seu Amor" (2026) retrocede ao passado ao utilizar velhas estruturas do gênero, tornando-se apenas um aperitivo passageiro para aqueles que ainda celebram o Dia dos Namorados.

Dirigido por Claudia Castro, o longa traz Giovanna Grigio na pele de Mia, uma bruxa com o poder de enfeitiçar qualquer pessoa com um beijo. Junto com seu melhor amigo, Ariel (Diego Martins), ela abre um negócio esotérico para atender clientes de coração partido que desejam reconquistar seus ex-amores. O que ela não imaginava era que acabaria se apaixonando por René (Jê Soares), transformando-se, no dia seguinte, no próximo alvo de seu próprio trabalho a pedido de Yuri (João Manoel).

Trabalhando como assistente de direção de filmes e séries ao longo dos anos, Claudia Castro mostra que ainda tem muito a aprender atrás das câmeras — e, portanto, só posso desejar-lhe boa sorte. A produção possui aquela velha fotografia supersaturada e colorida das comédias nacionais tradicionais, funcionando como um cartão de boas-vindas para que o espectador se sinta à vontade para apreciar um mero passatempo. A obra chega a ser curiosa ao cruzar gêneros distintos, mas não vai muito além disso.

Logicamente, é um projeto com o qual o público geral pode se identificar, já que muitos de nós, em algum momento, já recorremos a uma simpatia ou a profissionais experientes no assunto. Giovanna Grigio se sai bem como a "bruxa de autoajuda", mas o fato de ela ser imune aos sentimentos de quem se aproxima já entrega o que acontecerá em seguida. Suas cenas com Jê Soares até fluem com boa química, mas a dinâmica não passa disso.

Porém, quem rouba a cena é Diego Martins. Seu Ariel funciona como uma espécie de consciência para a protagonista, brindando o espectador com os momentos mais divertidos da trama. Curiosamente, o roteiro dá a entender que ele terá uma aproximação com o personagem de João Manoel, mas a subtrama fica estranhamente no ar, como se algum rolo de filme tivesse sido sacrificado na edição final. Uma pena, pois Diego transmite uma energia contagiante sempre que surge em cena, algo de que a narrativa precisava muito.

Se tivesse sido lançado nos anos noventa ou no início dos anos 2000, o filme poderia ser mais apreciado, surgindo até mesmo como uma obra à frente de seu tempo por explorar o afeto homoafetivo. No entanto, ele chega em um cenário em que o gênero exige atualização, e não a insistência em uma fórmula cujo desfecho já conhecemos de cor. Para quem se lembra do final do clássico "um Lugar Chamado Notting Hill" (1999), já adianto: vocês irão presenciar um verdadeiro déjà-vu.

"Trago o Seu Amor" chega atrasado perante o novo panorama da comédia romântica, mesmo com suas boas intenções de atrair os que ainda teimam em acreditar na existência de uma alma gêmea.



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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'BuenosAires'

Sinopse: Longa acompanha uma pequena cidade do interior que transforma uma coincidência em vínculos afetivos marcados pelo futebol e pela cultura popular.

Eu já assisti tantos documentários sobre determinadas cidades do interior do Brasil que fica até mesmo difícil me lembrar o nome dos títulos. Porém, eu sempre me lembro que são obras que exploram a cultura local e revelando o quanto ainda há certos costumes de nosso país que a gente ainda desconhece. Um desses casos é "BuenoAires" (2025), documentário que nos revela uma cidade que os nossos hermanos argentinos se sentiriam mais à vontade.

Dirigido por Tuca Siqueira, o documentário se passa na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a "coincidência” de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.

É curioso observar que Tuca Siqueira não procura os motivos que levaram essa cidade a ganhar esse nome, mas sim como as pessoas convivem com ela em sua realidade. Visualmente a região possui toda cultura nordestina como um todo, mas tendo inserido aqui e ali elementos culturais dos nossos hermanos, desde as camisetas da seleção, gastronomia e até mesmo um bairro que é uma representação de um local específico da verdadeira Bueno Aires. É neste ponto, por exemplo, que testemunhamos o lado bem humorado dos habitantes de lá, que levam essa situação  na esportiva e preservando essa cultura ano após ano.

Não há rivalidade hostil entre os países através das seleções, mas sim se nota uma discussão saudável entre as pessoas e cada um torcendo de sua maneira. Curiosamente, o documentário foi rodado durante a última Copa, onde a Argentina obteve o seu tri campeonato e fazendo com as gravações ganhassem ainda mais energia durante a produção. Há se destacar também alguns habitantes que são realmente argentinos e que chegaram no local para seguir uma nova vida como um todo.

Um desses é o rapaz argentino que trabalha no ramo em detectar metais abaixo do solo e usando a sua criatividade para manter o ofício ainda intacto. A cena inicial, por exemplo, nos mostra o rapaz chegando à região, como se fosse um guia para essa cidade até então desconhecida para a maioria dos brasileiros. Entre sonhos e esperança, o filme também reserva momentos em que há aqueles que mantêm os seus sonhos intactos, mesmo com poucos recursos, mas é graças ao ambiente amigável da cidade que faz com que certos desejos se mantenham ainda vivos.

Com pouco mais de uma duração,"BuenoAires" é uma representação clara de um Brasil ainda desconhecido e revelando uma cultura que se mescla de forma harmoniosa com o nosso país vizinho. 



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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'COPAN'

Sinopse: O edifício Copan vive dias turbulentos que antecedem as eleições presidenciais de 2022.

Segundo o Antigo Testamento, após o dilúvio, a humanidade falava o mesmo idioma e seguiu em direção à planície de Sinar. Para evitar que se espalhassem pelo mundo e para criar um monumento que os tornasse célebres, os homens decidiram construir uma cidade e uma torre altíssima que alcançasse os céus. Ao ver a ambição e a vaidade do povo, Deus confundiu a língua que falavam para impedi-los. Incapazes de se comunicar, os trabalhadores abandonaram a obra e se espalharam pela Terra.

Hoje, em pleno século XXI, época em que deveria haver maior comunicação e compreensão em relação ao próximo, tudo indica que retrocedemos ainda mais se compararmos nossa realidade aos eventos bíblicos. É curioso observar que o povo brasileiro atual fala a mesma língua, mas se encontra dividido devido a questões políticas cujos debates se tornam cada vez mais acalorados. "Copan" (2026) é o retrato de uma Torre de Babel erguida pelo homem, mas cujo cenário de cisão não foi imposto pelas mãos divinas.

Dirigido por Carine Wallauer, o documentário revela o cotidiano dos moradores do famoso prédio projetado por Oscar Niemeyer, em São Paulo, durante uma disputa administrativa no local. Com o mesmo síndico há mais de 30 anos, os residentes precisam lidar também com as tensões políticas entre os candidatos à presidência que polarizavam o Brasil. Aos poucos, revela-se um panorama em que as pessoas daquele ecossistema se encontram cada vez mais distantes umas das outras.

Nota-se, no decorrer da projeção, que a diretora nos transmite total segurança ao perambular pelos corredores do prédio e registrar as conversas de seus habitantes. Essa naturalidade se deve ao fato de a realizadora ter residido no local por mais de sete anos, desenvolvendo afeto por quem mora lá. Por conta disso, em nenhum momento a notamos intervir ou direcionar as reações das pessoas na tela; ela mantém uma posição neutra, desnudando os dois lados daquela engrenagem.

Os condôminos não ficam divididos apenas com relação à possível troca de gestão do prédio, mas também pelo clima que antecede o pleito presidencial de 2022. Wallauer registra de forma minuciosa as opiniões e os quase embates que ocorrem nos corredores, ao ponto de o espectador ficar apreensivo com a possibilidade de uma agressão física, já que alguns indivíduos se recusam a ouvir vozes dissonantes. É, portanto, uma síntese do Brasil recente, onde o cenário político dividiu a população de tal modo que não há mais escuta, mas sim uma defesa cega de dogmas pessoais, doa a quem doer.

Devido a isso, o paralelo entre a nossa atualidade e a passagem bíblica é mais do que válido. A diferença é que não houve uma intervenção divina para cortar o diálogo entre as pessoas: elas mesmas provocaram isso por meio da soberba e da falta de empatia. Querendo ou não, todos pertencem à mesma Torre de Babel, e cabe a nós voltar a dialogar antes que tudo desabe sob o peso dos próprios egos.

Vale destacar que a cineasta cria aqui uma espécie de híbrido entre documentário e ficção, ou seja, uma realidade mais nua e crua, onde personagens reais se apresentam como eles mesmos em suas rotinas diárias. Isso não é apenas uma forma de o público se identificar com a premissa, mas também de constatar o quanto o real é complexo. Em suma, é curioso observar como a realidade transcende o imaginário de forma assustadora, superando qualquer ficção hollywoodiana.

"Copan" é o retrato vivo de uma Torre de Babel brasileira, cuja divisão foi imposta pela própria cegueira do homem contemporâneo.


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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste'

 Nota: O filme estreia dia 4 de junho.

Sinopse: Uma animação brasileira de comédia que acompanha cinco cangaceiros enviados para o ano de 3333, no "Neo Nordeste".

No decorrer de sua carreira, a diretora Alê McHaddo já dirigiu alguns filmes com atores, mas é na animação que mora o seu verdadeiro talento. Foi dela, por exemplo, o maravilhoso curta "A Lasanha Assassina" (2002) — que contou com a narração em off do nosso saudoso Zé do Caixão e fortalecendo o estúdio 44 Toons. Eis que então chega aos cinemas "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" (2026), uma divertida produção que consolida ainda mais o potencial das animações brasileiras atuais.

O elenco de vozes conta com Bruno Garcia (Capitão Rocha), Tadeu Mello (Sid), Raissa Xavier (Bonita), Carol Góes (Rimbi), Marcelo Mansfield (Cabra da Peste), Felipe Mazzoni (Tatux e Corisco) e a participação especial de Falcão (Falcão Espacial). Na trama, um grupo de aventureiros do sertão brasileiro foge do temido Cabra da Peste após conseguir roubar os planos de uma máquina do tempo, mas a perseguição acaba por separá-los entre o passado e o futuro. Uma aventura repleta de ação, humor e brasilidade em meio a reviravoltas, perseguições e planos ousados.

A história é uma verdadeira salada de aventura e ficção científica com o melhor da cultura nordestina — do tipo que faria nascer um grande sorriso no rosto de Lampião. O vilão Cabra da Peste, por exemplo, surge como referência a uma expressão muito conhecida do Nordeste, moldando a própria concepção do personagem. A origem dele é, sem sombra de dúvida, uma das maiores surpresas do roteiro, embora o longa espalhe pistas ao longo da projeção que nos instigam a montar um interessante quebra-cabeça.

Com relação a essa última observação, é instigante como a trama vai se tornando uma mirabolante aventura de viagem no tempo. O paradoxo temporal proposto pode até confundir os mais novos, mas se torna um prato cheio para os entusiastas da ficção científica. O grande acerto está no fato de os heróis interagirem com essas situações absurdas agindo como se fosse apenas mais um dia comum no sertão, seja no ano de 1933 ou em 3333. É divertido ver, por exemplo, o Capitão Rocha sempre soltar algum refrão que faz referência ao melhor da cultura pop brasileira.

Tecnicamente, o filme é alinhado à animação tradicional, recorrendo ao CGI em cenas de maior ação. Porém, é através das piadas e de personagens cativantes que o longa se sustenta, sem precisar de pirotecnia excessiva para encantar o público de todas as idades. Mas, quando os efeitos mais grandiosos invadem a tela, espere por referências que vão até Star Wars, tudo feito de um jeito bem-humorado e encantador, para dizer o mínimo.

Trazendo uma interessante homenagem à estátua de Padre Cícero, localizada em Juazeiro do Norte, "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" é uma divertida aventura de cangaço capaz de agradar facilmente a todos os públicos.


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terça-feira, 26 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Perto do Sol é Mais Claro'

Sinopse: O longa acompanha o luto e as tentativas de recomeçar de Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que, após a morte da esposa, tenta preservar sua autonomia escrevendo um livro e vivendo um novo amor.

Reginaldo Faria é um ator que se consagrou em clássicos como "Assalto ao Trem Pagador" (1962) e em "Pra Frente, Brasil" (1982). Porém, a minha memória mais antiga sobre ele é de tê-lo conhecido atuando em novelas como Vamp (1991). "Em Perto do Sol é Mais Claro" (2026), ele não somente nos brinda com um dos seus melhores trabalhos recentes, como também desperta o desejo de ir em busca dos seus outros feitos.

Dirigido pelo seu filho Régis Faria, o filme acompanha o luto e as tentativas de recomeçar de Rêgi (Reginaldo Faria), um engenheiro de 85 anos, após perder a esposa. Com o apoio dos filhos e a própria determinação para seguir em frente, Rêgi tenta escapar de sua rotina solitária escrevendo um livro e até se apaixonando por uma atriz. Na medida em que o tempo avança, o protagonista procura equilibrar a sua vida entre ganhos e perdas.

Fui assistir ao filme sem informação, o que aumentou ainda mais a minha experiência, pois, em um determinado momento, achei que não estava vendo o personagem em si, mas sim o próprio Reginaldo Faria sendo ele mesmo em cena. O que não deixa de ser, ao menos em parte, verdade, já que a ideia para a criação do longa surgiu no momento em que o ator e seus filhos ficaram mais próximos durante a pandemia, e o projeto começou a brotar a partir dessa fase sombria. O longa pode até ser uma ficção, mas traz uma parte essencial sobre a pessoa de Reginaldo Faria, como ele é perante um mundo atual sempre em metamorfose e na luta árdua para se manter firme diante da velhice.

No primeiro ato, vemos a apresentação gradual do personagem dentro de sua casa, desde o colocar em prática as rotinas básicas do seu dia a dia até ter que administrar os incômodos de um prédio que está sendo construído ao lado. Ao mesmo tempo, ele procura escrever um livro, e é nesse ponto que vemos o embate de um homem veterano com as novas tecnologias, que às vezes mais atrapalham do que ajudam. Curiosamente, o filme chega em uma fase em que o cinema tem abordado bastante essa temática, fazendo com que o espectador reflita sobre esse ponto específico.

Com uma belíssima fotografia em preto e branco, o filme pertence a Reginaldo Faria como um todo, pois a sua expressão e o modo como ele constrói a personalidade forte de um veterano perante a sua realidade sintetizam muito bem isso. A melancolia, por sua vez, é representada pela ausência de sua falecida esposa, assim como pela relação com os filhos, que são ocupados demais para compreender as reais necessidades de alguém que ainda tem muito a oferecer. Destaque para Marcelo Faria, filho do protagonista na vida real, que busca compreender o pai, mas não esconde no olhar a consciência de que será alguém como ele um dia.

Curiosamente, da melancolia do primeiro ato para o segundo em diante, o longa obtém pinceladas mais otimistas na medida em que o protagonista se mantém firme no que acredita. Isso se fortifica ainda mais quando ele começa a namorar uma atriz de teatro, interpretada por Vanessa Gerbelli, cuja interpretação, assim como a do protagonista, parece carregar uma parte de si mesma. Além disso, a sua personagem é a representação de uma geração de artistas que procuram manter os seus sonhos, mas que caem na tentação das novas tecnologias para obter reconhecimento.

É a partir dessa relação que o filme nos diz que o reconhecimento talvez não venha através de curtidas para obter a tão desejada fama instantânea, mas sim através de um trabalho árduo e de histórias que podem servir de exemplo para as gerações futuras. O ato final pode até ser esperançoso demais, mas, como o restante do filme já havia nos conquistado, esse mero detalhe acaba passando despercebido. Nunca é tarde demais para um veterano de longa data nos transmitir um belo exemplo.

"Perto do Sol é Mais Claro" transita com muita sensibilidade entre o melancólico e o lado revigorante de alguém que ainda tem muito a oferecer.

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'O Rei da Internet'

Nota: O filme estreia dia 14 de Maio. 

Sinopse: Daniel, um rapaz prodígio, fica deslumbrado com as conquistas geradas por sua capacidade excepcional de hackear sistemas, tornando-se o maior hacker do país.

Não é de hoje que o cinema explora histórias reais de larápios que burlam o sistema para se dar bem na vida. Curiosamente, esse tipo de indivíduo acaba se tornando um exemplo de como quebrar as barreiras de um mundo cheio de regras, provando que sempre haverá uma fenda por onde escapar. "O Rei da Internet" (2026) é uma viagem a um passado não tão distante, mas que revela os elementos que hoje se tornaram os pilares do nosso mundo conectado.

Dirigido por Fabrício Bittar e baseado na obra DN pontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-Hacker, de Daniel Nascimento e Sandra Rossi, o filme conta a história de Daniel (interpretado por João Guilherme) e mostra como ele se destacou como um dos maiores hackers do Brasil. O jovem fez parte de uma organização criminosa que movimentou milhões de reais, viveu intensamente uma vida de ostentação e foi alvo de uma grande operação da Polícia Federal — tudo isso antes de completar 17 anos.

Antes de mais nada, é preciso aplaudir a edição frenética do filme, que assume uma linguagem quase de videoclipe — algo que eu não via no cinema brasileiro com tanta força desde "2 Coelhos" (2012). O primeiro ato moldado dessa forma serve para apresentar o protagonista de um jeito que gera identificação com o público, principalmente pelo fato de sua paixão pelo hacking ter começado nos tempos da internet discada. É nesse momento que o longa remete a tempos mais simples, trazendo de volta os computadores de tubo, as salas de bate-papo e o clássico Orkut.

Por meio de uma narração em off, Daniel nos revela passo a passo como se tornou um dos criminosos mais procurados pela justiça, desde a invasão ao sistema do site da editora Abril até o acesso a contas bancárias por todo o país. O filme resgata elementos de outras produções que abordam o universo da informática, como "A Rede Social" (2010), mas, ao mesmo tempo, evoca a atmosfera de "O Lobo de Wall Street" (2013). Em comum, esses protagonistas anseiam pela riqueza, nem que para isso precisem quebrar as regras de um sistema movido por números que governam o mundo.

João Guilherme Ávila se sai muito bem como protagonista e narrador. A narração em off funciona como uma ferramenta criativa para compreendermos as motivações do personagem e o que o levou ao mundo do crime cibernético. O filme se desenha como um verdadeiro estudo de uma parcela de uma geração perdida que procura seu lugar no mundo, enquanto é desprezada por uma sociedade conservadora que dita as regras. Daniel, por sua vez, rema contra a maré não apenas para enriquecer, mas também para ser lembrado de alguma maneira.

O ritmo do longa sofre um declínio na transição do segundo para o terceiro ato, momento em que as cenas frenéticas desaceleram para revelar o lado mais obscuro do submundo em que Daniel se envolveu. Não que isso prejudique a obra como um todo, mas fica a sensação de que esticaram a corda mais do que o necessário, já que os minutos iniciais da projeção já antecipavam o destino do protagonista. Ao final, constatamos que o crime pode até não compensar, mas a máxima do "fale mal, mas fale de mim" nunca esteve tão viva.

"O Rei da Internet" é um filme nostálgico que, além de esmiuçar a vida criminosa do protagonista, nos transporta para tempos mais inocentes, resgatando os primeiros passos da internet em terras brasileiras.


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segunda-feira, 23 de março de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Cinco Tipos De Medo'

 Nota: Filme estreia dia 09/04/26

Sinopse: Em meio ao luto, o músico Murilo encontra Marlene, enfermeira que vive um relacionamento tóxico. O destino os conecta a uma policial sedenta por vingança e um advogado misterioso, levando todos a uma jornada sem volta.

Não há como negar que Alejandro González Iñárritu fez escola ao criar tramas cujos os seus protagonistas se interligam através de uma situação inusitada. Se em "Babel" (2006) uma única bala fogo interligou diversos personagens ao redor do globo, por outro lado, "21 Gramas" (2003) todas as vidas se chocam a partir de um acidente de carro. É lógico que antes de Alejandro González Iñárritu o cinema já havia apresentado uma proposta parecida.

Quentin Tarantino, por exemplo, nos apresentou "Cães de Aluguel" (1991) e "Pulp Fiction" (1994), sendo que, além de personagens interligados no decorrer do filme, há sempre um retorno de uma determinada situação, mas sendo vista por outra perspectiva. Tudo isso que eu falei até aqui serviu de ingredientes para que o cinema brasileiro bebesse da fonte e surgisse títulos como "Cidade de Deus" (2002) onde nos apresenta um mosaico de personagens todos interligados e cujo cenário é quase remodelado através do tempo.  "Cinco Tipos de Medo" (2026) nos revela o quanto o cinema brasileiro não deve em nada em questões de histórias, técnicas e nos brindando com um longa caprichado do começo até o final de sua última cena.

Dirigido por Bruno Bini, a trama acompanha a história de um jovem chamado Murilo (João Vitor) que após perder a mãe e sobreviver ao Covid ele se apaixona e se envolve com sua antiga enfermeira Marlene (Bella Campos), que está presa em um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), um traficante. Um dia, Sapinho é preso pela policial movida por vingança Luciana (Bárbara Colen) e passa a contar com a ajuda do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz) que possui intenções secretas. Todos estão interligados por um único motivo, mas mal sabem disso.

Já nos minutos iniciais Bruno Bini nos coloca na ação, onde vemos os principais protagonistas em situação extrema e cuja narração off se casa com perfeição com o título principal da obra. Já na abertura temos uma noção do que podemos esperar do longa, onde uma edição caprichada nos conduz a uma trama que nos prende atenção do começo ao final da obra e nos surpreende ainda mais pelo fato de tudo estar interligado e fazendo com se exige uma atenção redobrada. Há, por exemplo, situações que nos enganam, desde a uma possível morte, como também de um determinado crime.

As principais passagens da história vem e voltam a todo momento, não somente para montar um verdadeiro quebra cabeça, como também nos brindar por outra perspectiva. Logicamente não irá faltar elementos que ressoe com relação aos clássicos brasileiros, que vai desde ao já citado "Cidade de Deus" como também o cultuado "Tropa de Elite" (2007). Porém, diferente desses títulos citados, os dois lados da mesma moeda são apresentados e nos revelando que, querendo ou não, todos estão envolvidos através de um ponto de início e nascendo assim o lado vingativo do ser humano.

Bella Campos, João Victor Silva e principalmente Bárbara Colen interpretam os seus respectivos personagens de forma trágica, sendo que cada um se envolve em situações que jamais gostariam de estar, mas que são forçados a desencadear um lado até mesmo obscuro dentro de si. Se por um lado a personagem de Colen é movida pela vingança, por outro lado, o personagem de João Victor é jogado no olho do tornado e fazendo a gente se perguntar como ele chegou a tudo isso. A pergunta que fica é, se todos os eventos que foram desencadeados foi a partir da pandemia; da relação da mãe de Victor com o vizinho; ou de ele ter se apaixonado?

É um verdadeiro efeito borboleta que, logicamente, alguns irão dizer que o roteirista forçou a barra, mas o próprio mundo real já nos apresenta também situações inusitadas. O filme, portanto, talvez não soe forçado, mas sim esteja atrasado perante uma realidade em que as situações absurdas são tantas que ficção e realidade se encontram somente separadas por uma camada fina. Resta somente a gente assistir ao filme de mente aberta e desfrutar de um bom cinema nacional na medida certa.

Grande vencedor do último festival de Gramado, "Cinco Tipos de Medo" é um exemplo de como o cinema brasileiro pode ir longe em questões de produção e criatividade enquanto estiverem de mãos dadas. 


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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Cine Dica: Streaming - 'Apocalipse nos Trópicos'

Sinopse: Apocalipse nos Trópicos é um documentário brasileiro dirigido por Petra Costa sobre a influência do cristianismo evangélico na política do Brasil.  

Petra Costa surpreendeu ao lançar "Democracia em Vertigem" (2020), documentário que procura buscar respostas sobre as motivações que levaram ao impeachment dá até então Presidente Dilma e do fortalecimento da Extrema Direita. Em meio a isso, houve um crescimento de discurso de ódio, tanto vindo de lideranças do até então deputado Jair Bolsonaro, como também um crescimento da religião evangélica inserida em território político. "Apocalipse nos Trópicos" (2025) revela que isso não aconteceu ao acaso, mas sim já estava sendo planejado há muito tempo.

No documentário, Petra Costa mergulha na interseção alarmante entre religião e política no Brasil. o longa revela como o movimento evangélico, com sua ideologia apocalíptica, desempenhou um papel crucial na ascensão de Jair Bolsonaro à presidência e levanta questões sobre a ameaça de uma teocracia nacional. Ao mesmo tempo revela um cenário assustador, levando o país para um cenário quase distópico.

Petra Costa procura não vilanizar a religião evangélica, mas sim destacar os seus líderes com interesses políticos e que anseiam pelo controle das instituições. Dentre eles se destaca o Pastor Silas Malafaia, cujo seus seguidores seguiram aumentando ao longo dos anos de forma vertiginosa e fazendo obter poder através de sua palavra. Por conta disso, é notório que tanto ele, como outros líderes dessa área, buscassem alguém que pudesse representar eles para alcançar o poder e Bolsonaro foi esse homem que eles usaram em potência máxima.

Petra Costa não se debruça em teorias da conspiração, mas sim indo em direção ao foco principal e, portanto, é sempre interessante ver as palavras de Malafaia e do próprio Bolsonaro sendo que ambos usaram a palavra de Deus para atrair não somente conservadores, como também jovens desinformados com relação aos verdadeiros fatos da história e assim podendo manipulá-los de modo fácil através de fake news a todo momento. O resultado parece até uma espécie de lavagem cerebral, principalmente onde vemos diversas pessoas orando nas ruas cegamente e mal se importando na possibilidade do nascimento de um governo ditatorial por meio da religião.

O resultado disso foi em crer em qualquer coisa em que o Presidente dizia, principalmente quando ele ignorou todos os alertas sobre os tempos da Pandemia e gerando milhares de mortes, tudo porque os seus seguidores seguiam com a sua desinformação e propagando ainda mais o aumento da doença. É quase como se estivéssemos vendo um filme de ficção cuja realidade era uma distopia, mas que era justamente a nosso mundo real de até alguns anos atrás e fazendo com que as cenas se tornem ainda mais assustadoras. Quem acompanhou de perto tudo isso sabe muito bem o resultado catastrófico e fazendo muitos de nós perderem os seus entes queridos.

O terceiro ato do documentário, portanto, sintetiza a negação, onde vemos seguidores que não aceitam em hipótese alguma o retorno do ex-presidente Lula ao poder. Após a sua última vitória nas eleições presidenciais o que vemos é um país cada vez mais dividido, onde Bolsonaro arquitetou um golpe de estado através dos seus asseclas e resultando nos ataques antidemocráticos no dia 08 de janeiro de 2023. O golpe, porém, falhou, mas revelou o quanto a democracia é frágil perante a persuasão através de determinados líderes e culminando em pessoas que não aceitam mais a verdade por ela não ser mais o suficiente para eles.

Curiosamente, é interessante observar que Petra Costa vai ainda mais a fundo com relação ao nascimento da evangelização, não somente no Brasil, como também nos EUA em tempos em que o governo tornava a palavra comunismo como algo a ser riscado do mapa e usando a religião como uma das principais armas. Ao final, constatamos que, seja religião evangélica ou qualquer outra, ela pode ser facilmente usada como peça primordial para fins políticos e como isso pode mudar o curso da história como um todo. Os livros de história estão aí para nos ensinar a não cometer os erros do passado, mas pelo visto o ser humano está sendo reduzido a seres não pensantes e que podem, infelizmente, serem controlados facilmente.

Apocalipse nos Trópicos é um retrato assustador de uma população sendo doutrinada pelas palavras de falsos profetas e que somente anseiam pelo poder e controle da massa.   

Onde Assistir: Netflix. 

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