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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz — "Honestino"

Sinopse: Fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração de 1968, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, tornando-se uma das centenas de pessoas desaparecidas na ditadura militar.

Filmes e livros existem para abrir janelas para o passado e resgatar histórias que não podem ser esquecidas. Como o brasileiro é conhecido por ter "memória curta", torna-se indispensável ler e assistir a obras que retratam o lado mais sombrio de tempos ditatoriais — os quais hoje, infelizmente, ainda encontram quem os defenda. "Honestino" (2026) é um filme necessário, sobretudo para alertar os desavisados sobre o que realmente foi o período da ditadura militar no Brasil.

Dirigido por Aurélio Michiles e estrelado por Bruno Gagliasso, o longa retrata a trajetória do líder do movimento estudantil da UnB, que se tornou uma das vítimas do regime. Brutalmente assassinado aos 26 anos, o Estado só reconheceu a responsabilidade por seu homicídio décadas depois. Ainda assim, a obra evidencia os traumas profundos deixados nos estudantes de Brasília.

Aurélio Michiles constrói uma curiosa transição entre a linguagem documental e a reconstituição de época. No campo da ficção, Honestino é interpretado por Bruno Gagliasso, cuja atuação serve como fio condutor pela jornada que o personagem percorre entre a transição democrática e os anos de chumbo. O ponto alto da produção é a maneira habilidosa como o diretor estrutura a narrativa.

As imagens transitam entre filmagens amadoras, arquivos de imprensa e fotografias históricas, ganhando uma força expressiva na tela. Além disso, a narrativa é costurada por depoimentos marcantes de familiares, amigos e companheiros de luta da época em que Honestino vivia na clandestinidade, mas continuava articulando a oposição ao regime. O documentário explora como o advento do AI-5, que perdurou por dez anos, tornou a repressão ainda mais violenta contra aqueles que ousavam se opor ao sistema.

O longa poderia ser facilmente rotulado como mais uma entre tantas produções atuais sobre os 21 anos de ditadura no Brasil. Porém, em tempos de desinformação, fake news e ascensão da extrema-direita no Brasil e no mundo, o filme se firma como uma peça urgente e relevante para quem busca conhecimento, lançando luz sobre figuras históricas que lutaram por transformações. A memória do brasileiro pode ser curta, mas iniciativas como esta são fundamentais para provocar um despertar em relação ao passado e ao presente que nos cerca.

"Honestino" equilibra ficção e documento histórico de forma precisa, revelando mais um capítulo indispensável da nossa história que jamais deve ser esquecido.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Rio de Clarice'

Sinopse: Longa-metragem brasileiro que adapta cinco contos clássicos de Clarice Lispector para o cinema.

A palavra antologia refere-se a uma coleção de textos, músicas ou filmes reunidos em uma única obra. Quando procuro me lembrar do meu primeiro contato com esse tipo de estrutura, vem-me à mente os longas de horror do estúdio inglês Amicus, que, por sua vez, baseavam-se em clássicos literários ou até mesmo em HQs, como "Contos da Cripta". No "caso de Rio de Clarice" (2026), trata-se de um filme que explora o universo literário da escritora Clarice Lispector, tornando-se uma espécie de cartão de visita para aqueles que nunca leram seus contos.

Dirigido por Eunice Gutman, Maria Luiza Aboim, Taciana Oliveira, Barbara Kahane e Nicole Algranti, o filme reúne cinco adaptações dos contos da escritora em episódios comandados por essas cinco diretoras. Inspirando-se nas obras "Feliz Aniversário", "Mal-estar de um Anjo", "A Bela e a Fera", "Amor" e "Preciosidade", o filme explora o lado intimista de Clarice e o universo particular das mulheres.

Sem sombra de dúvida, a adaptação mais famosa da obra de Clarice Lispector para o cinema é "A Hora da Estrela" (1985), de Suzana Amaral, na qual a ingenuidade da protagonista faz com que nos identifiquemos de forma profunda. Uma das últimas adaptações a que eu havia assistido no cinema foi "A Paixão Segundo G.H." (2023), de Luiz Fernando Carvalho, que explorava a solidão e as divisões de classe afetando a protagonista em um verdadeiro jogo psicológico. Esses elementos narrativos são vistos novamente nesta nova adaptação.

Baseado nos contos da autora, as cinco diretoras conseguem retratar com certo êxito os aspectos de tempos mais conservadores, nos quais as mulheres buscam se colocar à frente daquela realidade sufocante. "Feliz Aniversário", por exemplo, é a representação de uma personagem não alinhada à hipocrisia familiar — uma família que se vende como perfeita, mas não consegue esconder seus "esqueletos no armário" ao longo da história. Em todos os episódios, a figura masculina fica em segundo plano, como se a presença dos homens fosse irrelevante ou até alienada perante a complexidade do universo feminino.

Particularmente, gostei muito do segmento "Mal-estar de um Anjo", graças à atuação da atriz Letícia Spiller. Inicialmente, a ex-paquita nunca havia me convencido como atriz, percepção que começou a mudar a partir de sua atuação no curta "O Pulso" (1997), dirigido por José Pedro Goulart. Aqui nesta trama, nota-se como a intérprete consegue nos transmitir toda a dúvida e confusão mental a partir do momento em que conhece outra personagem dentro de um táxi, fazendo disso o ponto de ignição para seus conflitos internos.

Em suma, são histórias sobre o papel das mulheres perante um mundo dominado por homens, onde os abusos moral e físico se fazem presentes, mas sem fazer com que elas sucumbam às sombras. Clarice Lispector talvez tenha visto desde cedo o lado duro desse universo cheio de regras, fazendo com que suas personagens se desprendam de correntes invisíveis impostas pela sociedade. Ao menos até aqui, as adaptações cinematográficas têm feito jus à sua força.

"Rio de Clarice" é um convite instigante para aqueles que nunca adentraram o universo literário de Clarice Lispector, despertando o desejo de procurar seus livros no sebo mais próximo.


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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Muito Prazer'

Sinopse: Um motorista de aplicativo herda um motel em ruínas e se envolve em um esquema inusitado de gravação de clientes para sair das dívidas.

Em "Motel Destino" (2024), um foragido endividado se esconde em um motel e passa a conviver naquele universo proibido. Em "Pagando Bem, Que Mal Tem?" (2008), um grupo de amigos decide filmar filmes eróticos para pagar as contas. Una as duas ideias no mesmo longa e temos "Muito Prazer" (2026), comédia criativa de Jorge Furtado que fala muito sobre os tempos atuais, nos quais estamos cada vez mais sujeitos a ser capturados por câmeras indiscretas.

Na trama, conhecemos Rubem (Daniel de Oliveira), que herda o motel de seu falecido tio. No local ainda vive Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que também se encontra atolada em dívidas. Ao lado da especialista em vídeo Nalva (Samantha Jones), eles decidem usar o estabelecimento para filmar os clientes dentro dos quartos e faturar na internet — sem saber que isso é apenas a ponta do iceberg.

Jorge Furtado é aquele tipo de cineasta que sabe transitar por diversos gêneros, da comédia ao drama, passando pelos documentários. No caso do humor, ele alcança um tom refinado, alinhado a doses de reflexão que conquistam a nossa simpatia de imediato. Foi assim com o genial "O Homem Que Copiava" (2003) e com "Saneamento Básico", O Filme (2007) — este último, uma verdadeira aula sobre como realizar um longa de baixo orçamento com extrema criatividade. Em "Muito Prazer", a premissa não foge a essa regra.

Com pouco dinheiro no bolso, os protagonistas passam a produzir conteúdo adulto de forma indireta, utilizando os clientes do motel em ação e manipulando as imagens para deixar tudo mais interessante. É aí que mora a inteligência do diretor: criar um mosaico sobre até que ponto a imagem pode ser alterada hoje em dia, combinando velhos recursos de vídeo ao avanço da inteligência artificial no nosso cotidiano. O resultado é uma trama que dosa momentos de humor refinado com pitadas calientes, sem nunca soar grosseira ou apelativa.

Destaque para Daniel de Oliveira, um ator versátil que raramente explorou a veia cômica e que aqui surpreende em cena. Sua química com Luisa Arraes é outro ponto alto: a atriz constrói uma personagem inicialmente enigmática e carismática, que aos poucos revela suas reais facetas à medida que baixa a guarda para o protagonista. Embora o espectador preveja o rumo da relação, o casal central conquista do início ao fim.

Em suma, Jorge Furtado constrói uma narrativa repleta de simbolismos familiares a quem acompanha os debates sobre o sexo explícito no ambiente virtual. O mérito do longa é nos lançar nesse universo não pelo choque, mas pela provocação: faz refletir sobre como o tema se tornou banal e corriqueiro, a ponto de nem o conservadorismo atual conseguir silenciá-lo. Ou aceitamos o mundo como ele é, ou continuamos acreditando na cegonha.

"Muito Prazer" é um belo exemplo de como o humor pode ser inteligente sem descambar para o apelo fácil — mesmo quando decide espiar o que acontece entre quatro paredes.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz — ‘Nosso Segredo’

Sinopse: Uma família negra tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.

Grace Passô é um daqueles grandes talentos brasileiros que chamam atenção aos poucos e logo conquistam o público e a crítica. Foi a partir de atuações marcantes em "Temporada" (2018) e, principalmente, "Praça Paris" (2017) que ela me chamou atenção, já revelando potencial para atuar em outros setores da indústria. Essa expectativa se confirma em "Nosso Segredo" (2026), longa em que ela assume a direção com maestria, explorando o lado psicológico dos personagens e transformando a própria casa em uma peça fundamental da narrativa.

Na trama, acompanhamos o cotidiano dessa família no momento em que o silêncio e a dificuldade de expressar a dor acabam ampliando as distâncias entre seus membros. No centro da história está o filho caçula, detentor de um segredo capaz de transformar a forma como todos enxergam a ausência que os marcou.

Ao assistir ao filme, é inevitável recordar o clássico literário "A Queda da Casa de Usher" (1839), de Edgar Allan Poe — adaptado para o cinema em 1960 por Roger Corman. Em ambas as obras, o cenário principal é uma estrutura que dá sinais de deterioração e colapso iminente, enquanto os personagens agem como se estivessem doentes ou amaldiçoados, sugerindo que as manifestações do espaço físico espelham a condição mental e física de seus moradores. Grace Passô estabelece uma dinâmica semelhante com rara sensibilidade.

Gradualmente, conhecemos cada integrante da família: desde o irmão mais velho, que trabalha como motorista de aplicativo, até o caçula que, mesmo pequeno, demonstra astúcia suficiente para notar que há algo estranho naquela casa. A residência ganha o status de personagem primordial já na sequência em que o irmão mais velho entra no imóvel e a diretora mostra a que veio. Nota-se a mão firme nos planos-sequência: mesmo em um espaço reduzido, a câmera nos dá a exata dimensão do cenário e da posição que cada um ocupa naquele núcleo.

As reações diante do luto são distintas e multifacetadas. O irmão do meio não sabe ao certo como se inserir no mundo; a irmã não enxerga em seu relacionamento afetivo algo sólido para o futuro; já o mais velho transita entre a lucidez do presente e as memórias de um passado dourado ao lado do pai — memórias que, contudo, não escondem a sombra da perda. É por meio desses devaneios que compreendemos melhor a origem do caçula e a real dimensão da figura paterna.

Passô constrói uma parábola sobre os tempos de medo: aquela família opta pelo isolamento como forma de se proteger de uma realidade ainda profundamente preconceituosa, mas esse mesmo isolamento faz com que o medo se fortaleça e se manifeste na própria casa. Nesse contexto, a interpretação sobre o "coração" daquele cenário surge de forma inesperada e instigante, momento em que o elenco brilha intensamente — com destaque para Robert Frank, o jovem Efraim Santos e a veterana Ju Colombo.

Curiosamente, a diretora não apenas traça uma síntese do medo no presente, como expressa certo temor quanto ao nosso futuro. Se em A Frente Fria Que a Chuva Traz (2016), de Neville d'Almeida, já se liam nas entrelinhas mensagens proféticas sobre o destino do país, o cinema de Grace Passô não fica atrás. Resta-nos torcer para que não sejamos varridos pela intolerância daqueles que se julgam poderosos.

Vencedor do Kikito de Ouro de Melhor Filme no último Festival de Gramado, "Nosso Segredo" é uma obra poderosa em sua mensagem, mostrando que o medo pode se manifestar não apenas dentro de nós, mas também no espaço e na realidade em que vivemos.

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terça-feira, 28 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Fabulosa Máquina do Tempo'

Sinopse: Meninas brincam no árido interior brasileiro, equilibrando-se entre o passado difícil de suas mães e os sonhos fantásticos que inventam para o futuro.

Uma das coisas que mais me fascina quando um documentário foca em crianças é o quanto elas acabam sendo sinceras perante a realidade em que convivem e com relação ao que lhes é ensinado. No documentário "Últimas Conversas" (2015), de Eduardo Coutinho, uma menina esbanja total sinceridade sobre quem é Deus, em uma resposta que surpreendeu até mesmo o veterano cineasta. "A Fabulosa Máquina do Tempo" (2026) mistura o teor documental com pitadas de ficção e o lado mais cru do dia a dia dessas jovens.

Dirigido por Eliza Capai, os eventos que ocorrem na tela se passam no sertão do Piauí, onde meninas navegam entre cultos evangélicos, redes sociais e sonhos de futuro. Ao inventarem uma máquina do tempo, elas revisitam as histórias duras de suas mães e avós, marcadas pela pobreza e pela desigualdade, e viajam para um futuro onde se enxergam livres e realizadas. Entre brincadeiras e fabulação, elas questionam o que significa se tornar mulher.

Eliza Capai opta por poucos recursos, mas os utiliza para realizar uma obra criativa que expande a imaginação das crianças. A simples ideia de imaginá-las viajando no tempo se torna o ponto de partida para que as jovens testemunhem as palavras de suas mães sobre o passado, estabelecendo um paralelo com suas próprias vidas e com como poderia ser o seu futuro. Nota-se, por exemplo, que ainda vigora uma cultura patriarcal naquele local, onde o homem é visto como uma figura dominante enquanto a mulher deve obedecer às suas ordens.

Porém, o documentário procura não abordar esse machismo de forma solene, mas sim de maneira sensível e reflexiva, através do olhar inocente de jovens que ainda estão descobrindo o mundo. Há tanto perguntas feitas pela cineasta quanto momentos em que a realização apenas deixa a câmera rodar enquanto as meninas são elas mesmas ou imaginam o que poderiam ser na vida adulta — uma curiosa transição entre o documental, a ficção e a fábula, unindo criatividade e inocência.

Em suma, o filme é um retrato de uma nova geração que ainda engatinha perante uma realidade nacional cada vez mais complexa, na qual se misturam religião e política, e cujos valores ultrapassados insistem em ter espaço no nosso futuro. É um documentário sobre a esperança de um amanhã melhor, onde o acesso à informação pode formar uma geração mais consciente, desde que orientada por aqueles que nutrem a cultura. Afinal, nunca é demais sonhar com um futuro mais dourado.

"A Fabulosa Máquina do Tempo" é a união da linguagem documental, da ficção e do olhar puro de uma geração que pode, quem sabe, se tornar nossa nova esperança.


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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Noite de Alaíde'

Sinopse: Um retrato sensível e contemporâneo da artista Alaíde Costa, combinando muita música, arquivos inéditos, atores e uma abordagem poética da memória. Revela a força estética e emocional de Alaíde, que atravessou diferentes períodos da cultura brasileira sem fazer concessões.

Os documentários brasileiros sobre artistas da música têm me feito sentir, nos últimos anos, como se entrasse em uma máquina do tempo para adentrar cada vez mais a nossa cultura musical. Entre altos e baixos, sempre haverá aquele filme que procura se diferenciar dos outros, mesmo quando fica um pouco aquém do esperado. "A Noite de Alaíde" (2025) fala menos sobre a artista em si ao se enveredar mais pela estética, mas a tentativa não deixa de ser curiosa.

Dirigido por Liliane Mutti, o filme conta a história de Alaíde Costa, garota nascida no subúrbio carioca que passa a frequentar as rodas da Zona Sul do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. Lá, obtém reconhecimento por sua voz ao lado de nomes como Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros. Porém, no ápice da carreira, Alaíde começa a ser ignorada pelas gravadoras. Junto a Johnny Alf, outro pioneiro negro da Bossa Nova, ela é vetada da lendária apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. Prestes a completar noventa anos, ela finalmente obtém o reconhecimento tardio.

Embora seja um documentário, é interessante observar que Liliane Mutti cria passagens encenadas para retratar Alaíde desde a infância até a fase adulta. Interpretada por quatro atrizes, a própria artista usa sua voz como narradora — o que nos faz entender o quão próxima ela esteve da realização do projeto. Se por um lado isso pode soar um tanto pretensioso, por outro, há de se reconhecer o esforço da cantora em relembrar passagens que com certeza ainda lhe doem muito.

Curiosamente, as reconstituições foram trabalhadas com o uso da rotoscopia, técnica em que animadores desenham ou pintam por cima de filmagens reais, quadro a quadro. O resultado é instigante: parece que testemunhamos uma HQ em movimento, ao mesmo tempo em que relembra clássicos da animação norte-americana do século passado. Um artifício estético que ganha peso ao sintetizar a nostalgia de uma época que não voltará.

É interessante observar que Alaíde Costa testemunhou grandes transformações da nossa música, como a Bossa Nova e o Clube da Esquina. Porém, ela nunca se viu totalmente presa a rótulos de movimentos, mantendo-se fiel à sua essência sem se render às exigências mercadológicas das gravadoras da época — que, naturalmente, visavam ao lucro em primeiro lugar. Se por um lado essa postura por vezes dificultou seu alcance comercial, por outro, garantiu sua integridade artística.

Em suma, o tempo se torna o melhor juiz. Embora o documentário não explore a artista como um todo de forma primordial, o longa cumpre o papel de registro e reparação histórica para alguém que só queria viver de sua arte, a despeito dos percalços impostos por uma sociedade conservadora. O filme se encerra com Alaíde, aos noventa anos, conquistando o espaço que lhe foi negado no passado — um desfecho sem preço. A justiça é tardia, mas não falha.

"A Noite de Alaíde" pode ser um registro parcial de uma das maiores vozes da MPB, mas é um convite irresistível para quem deseja conhecê-la.

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Pequenas Criaturas'

Sinopse: Helena e a família se mudam para a futurista Brasília de 1986, mas ela é deixada para trás pelo marido em uma viagem de negócios.

Embora seja a capital do país, a cidade de Brasília sempre me pareceu sem vida, com suas arquiteturas futuristas que não condizem com as nossas expectativas. Portanto, é difícil imaginar um cenário como esse para um filme de ficção. Embora haja vários documentários sobre o tema, em termos de ficção o único que me veio à memória foi "Faroeste Caboclo" (2013). "Pequenas Criaturas" (2026) talvez seja uma obra que fortaleça ainda mais esse meu pensamento sobre a capital, mas que também nos ensina a nos esforçarmos para fazer a diferença em um cenário moribundo.

Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, o longa acompanha a história de Helena (Carolina Dieckmann), uma mãe deixada para trás pelo marido sob o pretexto de uma viagem de negócios. Passada no ano de 1986, a trama mostra a mudança da família para a mais nova capital do país, que promete um futuro promissor. A protagonista terá que lidar com um filho adolescente irritado e uma criança de 8 anos que enxerga a vida de um jeito diferente de todos os outros.

O ano é 1986, um momento marcante após a redemocratização, no qual o país passava por uma nova metamorfose repleta de promessas a serem alcançadas. Porém, Brasília surge quase como um cartão-postal sem vida, onde até mesmo o clima não é dos melhores, fazendo muitos se perguntarem como chegaram ali. A família central da trama se faz essa pergunta quase o tempo todo, precisando se reanimar aos poucos para não ser sugada pelo desânimo.

Conhecida por seus papéis televisivos, Carolina Dieckmann parece estar vivendo uma nova etapa em sua carreira cinematográfica. Somente neste ano, a atriz atua em dois filmes, sendo o primeiro (Des)controle. É interessante assistir a ambos e perceber a versatilidade da intérprete, já que as duas personagens são completamente diferentes, provando que ela pode ir mais longe do que se imagina nas telas. Aqui, sua personagem se encontra vazia por dentro ao ser abandonada em uma cidade desconhecida, tendo que cuidar dos dois filhos sozinha.

Curiosamente, suas atitudes começam a mudar a partir do momento em que atropela acidentalmente um cachorro e busca reanimá-lo dentro de casa. Sua iniciativa funciona como um incentivo para se reerguer perante um futuro indefinido, tentando abrir brechas para que outros se aproximem. Esse acolhimento é muito bem representado pelos vizinhos, interpretados por Letícia Sabatella e Caco Ciocler, que percebem a protagonista pedindo socorro, mesmo quando ela não grita isso aos quatro ventos.

É preciso reconhecer que os filhos da protagonista também roubam a cena. O pequeno Lorenzo Mello dá um verdadeiro show de interpretação, mesmo quando está usando uma máscara do clássico "O Planeta dos Macacos" (1968). Já Theo Medon interpreta o típico jovem que transita entre a rebeldia e a busca por um ponto de equilíbrio em uma realidade que por vezes não o aceita. A presença dos dois em cena dá um tempero a mais ao longa, fazendo com que o espectador se preocupe com o futuro de ambos.

O misterioso vizinho interpretado por Fernando Eiras possui diversas camadas a serem analisadas, mesmo com poucos momentos em cena. Se em um primeiro momento podemos suspeitar de sua figura, logo constatamos que ele está gritando por dentro, pedindo atenção e motivações para continuar existindo nesse ambiente nada acolhedor. O personagem sintetiza muito bem o significado do título do longa: os seres humanos são pequenas criaturas em um mundo maior, mas que gritam para serem ouvidos, mesmo quando isso parece impossível.

Em suma, o filme é melancólico, mas ao mesmo tempo esperançoso à sua maneira, ao explorar personagens que buscam acolhimento e seu lugar no mundo. Pessoas partem por certos motivos, mas cabe a nós seguirmos em frente, mesmo quando fomos deixados para trás. Anne Pinheiro Guimarães constrói um retrato sobre o Brasil de ontem — não muito diferente do cenário de hoje —, obtendo um êxito notável.

"Pequenas Criaturas" é sobre recomeçar em um cenário hostil, mas que se torna mais reconfortante à medida que baixamos a guarda para sermos acolhidos por aqueles que realmente se importam.


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terça-feira, 14 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Anatomia do Caos'

Sinopse: Com acesso inédito ao Senado, o filme acompanha por dentro a trajetória da CPI da Covid-19 e transforma esse registro em um retrato de um dos períodos mais marcantes e difíceis da nossa história recente.

Há quem diga que o brasileiro possui memória curta e, infelizmente, isso é verdade. Basta olharmos para exemplos recentes de nossa história, em que o país foi assolado pela desinformação disseminada por falsos líderes e profetas, provocando diversas tragédias. Seis anos atrás, o mundo passou pelo seu momento mais crítico de saúde pública devido à pandemia da Covid-19. Muito provavelmente, você deve ter perdido algum parente ou amigo para a doença porque ele acreditou que se tratava de uma "mera gripezinha", persuadido pelo discurso dos poderosos.

O Brasil instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a negligência do governo federal. E no que deu essa CPI? Infelizmente, parece que a verdade nunca é o suficiente; basta surgirem certos favores para que determinados atores cubram os fatos em nome de lucros futuros. O documentário "Anatomia do Caos" (2026), que acaba de entrar em cartaz, resgata essa revolta em todos os sentidos.

Dandara Ferreira, que codirigiu a cinebiografia "Meu Nome é Gal" (2023), decidiu usar os recursos que tinha em mãos para registrar os acontecimentos de forma direta. Ela não recorreu a entrevistas atuais e tampouco a uma retrospectiva linear sobre o início e o fim da pandemia. Todo o foco dramático gira em torno da CPI e, a partir dela, expõe os erros, acertos e omissões de políticos, médicos e empresários que se recusavam a ver a engrenagem do sistema parar.

Aqueles que acompanharam as transmissões diárias pela TV Senado na época podem pensar que já viram tudo sobre o assunto. No entanto, basta assistir ao documentário como obra cinematográfica para sentir uma raiva até então adormecida. A meta primordial do projeto de Dandara é preservar os fatos e escancarar como os rumos da nossa história poderiam ter sido diferentes. É uma síntese em potência máxima para que as futuras gerações não esqueçam de que o desgoverno da época permitiu que a morte tomasse conta do país durante a sua maior crise sanitária — uma tragédia que vitimou mais de 700 mil brasileiros, incluindo a minha avó e a minha tia.

Além de resgatar as imagens de arquivo da TV Senado, a diretora infiltrou sua própria câmera nos bastidores das sessões para capturar os melhores ângulos e focar nas patéticas declarações daqueles que defenderam medicamentos ineficazes contra o vírus. Talvez um dos momentos mais emblemáticos seja a sequência em que o senador e médico baiano Otto Alencar desmorona a narrativa da doutora Nise Yamaguchi, que tropeça ao tentar defender cientificamente o uso da cloroquina. Fora isso, há um desfile de figuras que sequer mereceriam ser mencionadas, como os empresários negacionistas Carlos Wizard e Luciano Hang, o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello e o deputado federal Osmar Terra, entre outros que foram depor a contragosto.

Revendo esse passado, a indignação só aumenta. Dandara Ferreira revela em "Anatomia do Caos" um Brasil recente em que as feridas da dor ainda estão abertas, por mais que existam aqueles que desejam, a todo custo, que nós as esqueçamos.

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Cinco da Tarde'

Sinopse: Anabel é uma adolescente que tenta aprender a lidar com a morte da avó. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Meiko, uma jovem que parece conhecer a falecida melhor do que ela mesma.

Eduardo Nunes realizou, no decorrer de sua carreira, longas-metragens focados em questões existenciais do ser humano, mostrando como elas podem ser mais complexas do que imaginamos. Tanto em "Sudoeste" (2012) quanto em "Unicórnio" (2018), o realizador coloca jovens personagens perante dilemas que vão da morte e da solidão ao amadurecimento diante de um futuro indefinido. "Cinco da Tarde" (2026) retoma e explora essas questões, mas elevando-as a um novo patamar.

A trama se passa no período da pandemia, onde conhecemos Anabel, uma adolescente que tenta aprender a lidar com a perda da avó. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Meiko. Conforme essa amizade cresce, as duas descobrem que têm muito em comum. 

Ao situar a narrativa nos tempos nebulosos da crise sanitária, Eduardo Nunes revela que as duas jovens convivem com um medo contido e uma angústia expressa nos gestos. Anabel, por exemplo, demonstra sinais de incômodo desde a primeira cena; sua insegurança faz com que o espectador não tenha certeza imediata do que se trata, algo que vai sendo revelado aos poucos. Meiko, por sua vez, pode ser interpretada inicialmente como uma representação do nosso próprio olhar na tentativa de decifrar Anabel, muito embora ela também carregue uma dor emocional profunda.

O diretor confina as personagens em um único cenário, onde o apartamento pequeno se torna claustrofóbico, potencializado pela fotografia em preto e branco que cria uma aura enigmática. O realizador é engenhoso nos enquadramentos: os fundos fora de foco revelam uma segunda camada de interpretação sobre o que acontece em cena, sem que o olhar das atrizes jamais fuja da nossa vista. Além disso, essa atmosfera se interliga a elementos que vão de sonhos e lembranças do passado a pinceladas de um gênero sobrenatural sutil, não assumido dentro do enredo.

É notório que testemunhamos tudo pela perspectiva da dupla — principalmente pelo que Anabel sente ou vê —, mas cabe a cada espectador interpretar o que presencia. Bárbara Luz e Sharon Cho constroem figuras enigmáticas, que agem movidas pela saudade dos entes perdidos, mas que vislumbram um recomeço a partir dessa aproximação. Vale destacar também os ótimos desempenhos de Analu Prestes e Miwa Yanagizawa, cujas presenças evocam um ar de mistério, fortalecido pela forma como o cineasta conduz suas aparições.

O filme se encaixa perfeitamente no contexto pós-pandemia, um período em que tantas pessoas perderam familiares e viram a necessidade de se reaproximar dos que ficaram. Para obter o calor humano, o caminho não passa pelas redes sociais — que muitas vezes nos tornam menos empáticos —, mas sim pela iniciativa interna de dar o primeiro passo. Embora pareça arrastado em alguns momentos, o longa nos mostra como nos desvencilhar de uma tristeza que nos imerge na escuridão.

"Cinco da Tarde" é sobre o nascimento incomum de uma amizade que evoca o calor humano indispensável em épocas que nos deixam apreensivos.

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terça-feira, 16 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Criadas'

Sinopse: O reencontro de Sandra, uma engenheira civil negra, e Mariana, sua prima de pele clara.

O cinema de horror psicológico frequentemente usa o elemento sobrenatural apenas como pano de fundo, enquanto os dilemas reais do mundo são colocados à prova. A "Trilogia do Apartamento", comandada pelo diretor Roman Polanski, por mais ingredientes de horror que possua, nada mais é do que um estudo sobre os limites da mente humana. "Criadas" (2026) também fala sobre fantasmas do passado, mas eles não vêm necessariamente dos mortos; surgem, na verdade, da raiva e dos arrependimentos.

Dirigido por Carol Rodrigues, o filme conta a história do reencontro de Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti). Duas mulheres negras — uma retinta e outra de pele clara — que voltam a morar juntas após vários anos. Agora como engenheira civil, Sandra precisa retornar a São Paulo, mais especificamente para a casa em que cresceu, local onde sua mãe trabalhou como empregada doméstica para a família de sua prima, Mariana. Ali, Sandra busca por uma foto antiga e percebe que o único lugar para encontrá-la é justamente o ambiente que serviu como espaço de apagamento e trabalho. Porém, à medida que memórias são desenterradas, um incômodo profundo surge entre as duas, além da iminência de eventos estranhos começarem a acontecer na casa.

Já no início, Carol Rodrigues brinca com as expectativas do público em relação à trama: uma das protagonistas desaparece por alguns momentos, fazendo com que a outra caminhe solitária pelos cômodos. É a partir desse instante que passamos a sentir um clima mórbido, como se os objetos do ambiente guardassem lembranças que ambas procuram evitar. No entanto, essas memórias surgem em cena não como flashbacks, mas de corpo presente, tornando a atmosfera do mistério ainda mais palpável e instigante de se observar de perto.

O filme, por si só, fala sobre um Brasil de ontem e de hoje, no qual o racismo estrutural se faz presente em cada fresta. Contudo, essa estrutura se manifesta de forma complexa através da própria dinâmica familiar, onde Mariana, por ter a pele clara e ter usufruído de certos privilégios e regalias no decorrer da vida, passou a reproduzir dinâmicas de subserviência com a prima e a tia, tratando-as quase como empregadas, mesmo pertencendo à mesma família. É um retrato contundente de como o sistema capitalista e o colorismo fazem com que as pessoas se distanciem de suas verdadeiras raízes assim que sobem um degrau na escala social, mesmo que isso não ocorra de forma intencional.

Fora do eixo familiar, o racismo estrutural também transborda em uma cena de festa, onde olhares e comentários velados revelam um Brasil conservador e retrógrado. É impossível não se incomodar, por exemplo, quando um determinado personagem demonstra interesse por Sandra no decorrer do evento, mas logo revela seu preconceito ao duvidar do parentesco dela com Mariana, pelo fato de as duas terem tons de pele diferentes. Aqui não há ficção, mas sim o reflexo de um absurdo que ainda alimenta o nosso cotidiano.

Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti entregam atuações brilhantes. A primeira transmite com precisão o conflito de identidade interna de Sandra, enquanto a segunda constrói uma Mariana que tenta a todo custo reprimir uma mágoa histórica. Uma vez que esses sentimentos não são exteriorizados, o passado cobra o seu preço, manifestando-se tanto na estrutura física da casa quanto no peso das lembranças. Estas últimas, inclusive, revelam-se muito mais difíceis de enfrentar do que qualquer assombração, dada a complexidade dos sentimentos humanos quando postos à prova.

Carol Rodrigues opta por construir elementos subliminares e metafóricos em vez de explicações puramente didáticas. O ato final, por exemplo, pode dividir opiniões quanto à sua mensagem imediata, mas, no meu entendimento, propõe que, quando o passado se torna um fardo intransponível, cabe a nós destruí-lo para que algo novo floresça e as cicatrizes emocionais possam, enfim, fechar-se permanentemente. Para que as barreiras do preconceito caiam, as velhas estruturas precisam ser demolidas — e é por isso que o minuto final se torna tão simbólico.

"Criadas" é um excelente exemplar de suspense psicológico em que o verdadeiro mal não se esconde nas sombras, mas sim nos muros invisíveis que construímos à nossa volta.

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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Trago o Seu Amor'

Sinopse: Mia, uma bruxa egocêntrica, tem um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou.

A comédia romântica atual tem despertado a atenção do grande público após anos de esgotamento de sua fórmula de sucesso. Produções como "Amores Materialistas" (2025) e "Amores à Parte" (2025) caminham de mãos dadas ao retratar as reais dúvidas de uma sociedade cada vez mais individualista e menos sonhadora em relação ao amor. Em contrapartida, o longa brasileiro "Trago o Seu Amor" (2026) retrocede ao passado ao utilizar velhas estruturas do gênero, tornando-se apenas um aperitivo passageiro para aqueles que ainda celebram o Dia dos Namorados.

Dirigido por Claudia Castro, o longa traz Giovanna Grigio na pele de Mia, uma bruxa com o poder de enfeitiçar qualquer pessoa com um beijo. Junto com seu melhor amigo, Ariel (Diego Martins), ela abre um negócio esotérico para atender clientes de coração partido que desejam reconquistar seus ex-amores. O que ela não imaginava era que acabaria se apaixonando por René (Jê Soares), transformando-se, no dia seguinte, no próximo alvo de seu próprio trabalho a pedido de Yuri (João Manoel).

Trabalhando como assistente de direção de filmes e séries ao longo dos anos, Claudia Castro mostra que ainda tem muito a aprender atrás das câmeras — e, portanto, só posso desejar-lhe boa sorte. A produção possui aquela velha fotografia supersaturada e colorida das comédias nacionais tradicionais, funcionando como um cartão de boas-vindas para que o espectador se sinta à vontade para apreciar um mero passatempo. A obra chega a ser curiosa ao cruzar gêneros distintos, mas não vai muito além disso.

Logicamente, é um projeto com o qual o público geral pode se identificar, já que muitos de nós, em algum momento, já recorremos a uma simpatia ou a profissionais experientes no assunto. Giovanna Grigio se sai bem como a "bruxa de autoajuda", mas o fato de ela ser imune aos sentimentos de quem se aproxima já entrega o que acontecerá em seguida. Suas cenas com Jê Soares até fluem com boa química, mas a dinâmica não passa disso.

Porém, quem rouba a cena é Diego Martins. Seu Ariel funciona como uma espécie de consciência para a protagonista, brindando o espectador com os momentos mais divertidos da trama. Curiosamente, o roteiro dá a entender que ele terá uma aproximação com o personagem de João Manoel, mas a subtrama fica estranhamente no ar, como se algum rolo de filme tivesse sido sacrificado na edição final. Uma pena, pois Diego transmite uma energia contagiante sempre que surge em cena, algo de que a narrativa precisava muito.

Se tivesse sido lançado nos anos noventa ou no início dos anos 2000, o filme poderia ser mais apreciado, surgindo até mesmo como uma obra à frente de seu tempo por explorar o afeto homoafetivo. No entanto, ele chega em um cenário em que o gênero exige atualização, e não a insistência em uma fórmula cujo desfecho já conhecemos de cor. Para quem se lembra do final do clássico "um Lugar Chamado Notting Hill" (1999), já adianto: vocês irão presenciar um verdadeiro déjà-vu.

"Trago o Seu Amor" chega atrasado perante o novo panorama da comédia romântica, mesmo com suas boas intenções de atrair os que ainda teimam em acreditar na existência de uma alma gêmea.



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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'BuenosAires'

Sinopse: Longa acompanha uma pequena cidade do interior que transforma uma coincidência em vínculos afetivos marcados pelo futebol e pela cultura popular.

Eu já assisti tantos documentários sobre determinadas cidades do interior do Brasil que fica até mesmo difícil me lembrar o nome dos títulos. Porém, eu sempre me lembro que são obras que exploram a cultura local e revelando o quanto ainda há certos costumes de nosso país que a gente ainda desconhece. Um desses casos é "BuenoAires" (2025), documentário que nos revela uma cidade que os nossos hermanos argentinos se sentiriam mais à vontade.

Dirigido por Tuca Siqueira, o documentário se passa na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a "coincidência” de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.

É curioso observar que Tuca Siqueira não procura os motivos que levaram essa cidade a ganhar esse nome, mas sim como as pessoas convivem com ela em sua realidade. Visualmente a região possui toda cultura nordestina como um todo, mas tendo inserido aqui e ali elementos culturais dos nossos hermanos, desde as camisetas da seleção, gastronomia e até mesmo um bairro que é uma representação de um local específico da verdadeira Bueno Aires. É neste ponto, por exemplo, que testemunhamos o lado bem humorado dos habitantes de lá, que levam essa situação  na esportiva e preservando essa cultura ano após ano.

Não há rivalidade hostil entre os países através das seleções, mas sim se nota uma discussão saudável entre as pessoas e cada um torcendo de sua maneira. Curiosamente, o documentário foi rodado durante a última Copa, onde a Argentina obteve o seu tri campeonato e fazendo com as gravações ganhassem ainda mais energia durante a produção. Há se destacar também alguns habitantes que são realmente argentinos e que chegaram no local para seguir uma nova vida como um todo.

Um desses é o rapaz argentino que trabalha no ramo em detectar metais abaixo do solo e usando a sua criatividade para manter o ofício ainda intacto. A cena inicial, por exemplo, nos mostra o rapaz chegando à região, como se fosse um guia para essa cidade até então desconhecida para a maioria dos brasileiros. Entre sonhos e esperança, o filme também reserva momentos em que há aqueles que mantêm os seus sonhos intactos, mesmo com poucos recursos, mas é graças ao ambiente amigável da cidade que faz com que certos desejos se mantenham ainda vivos.

Com pouco mais de uma duração,"BuenoAires" é uma representação clara de um Brasil ainda desconhecido e revelando uma cultura que se mescla de forma harmoniosa com o nosso país vizinho. 



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