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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Street Fighter'

Sinopse: Ambientada em 1993, a história acompanha os icônicos lutadores Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo), que estão afastados dos combates. Eles são recrutados pela misteriosa Chun-Li (Callina Liang) para participar do Torneio do Guerreiro Global.

Foi precisamente no início dos anos 1990 que Hollywood decidiu investir pesado em adaptações de videogames para o cinema. O grande problema dessas produções era não saber transitar entre a linguagem cinematográfica e o universo dos jogos, rendendo pérolas duvidosas como "Super Mario Bros". (1993) e "Street Fighter: A Última Batalha" (1994). Com o sucesso recente do gênero, como visto no recente "Resident Evil" (2026), chega agora a mais nova versão de "Street Fighter" (2026) — um filme que até pode agradar aos fãs do jogo, mas deixa a nítida sensação de que algo importante ficou pelo caminho.

Dirigida por Kitao Sakurai, a trama se passa no ano de 1993 e reencontra Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo) reunidos após anos de afastamento. Recrutados pela misteriosa Chun-Li (Callina Liang), os dois se preparam para o circuito Street Fighter. No entanto, o que não esperavam é que por trás do campeonato se esconde uma conspiração mortal orquestrada pelo vilão Bison (David Dastmalchian).

Para quem vive movido pela nostalgia, o longa tenta fisgar o espectador logo na abertura, feita em estilo anime japonês — uma clara referência ao clássico animado "Street Fighter II: O Filme" (1994), que permanece até hoje como a melhor adaptação da franquia. Curiosamente, diversos flashbacks surgem ao longo da narrativa nesse mesmo formato animado, tornando-se, disparado, os melhores momentos da produção. Quando nos damos conta disso, percebemos a gravidade dos problemas da versão em live-action.

Em termos de ritmo, o filme não perde tempo e se comporta como um verdadeiro produto à la videoclipe, repleto de elementos que nos remetem aos bons tempos da MTV. Não faltam sequer faixas lendárias da época, como "What's Up?", que serve como o elo emocional entre Ryu e Ken, além de outros ritmos que certamente farão muitos amantes de música pesquisarem a trilha sonora após a sessão.

Infelizmente, o longa falha no quesito mais primordial quando o assunto é Street Fighter: as lutas. Logicamente, as sequências são superiores às do filme protagonizado por Jean-Claude Van Damme, mas continuam breves demais. Os cortes rápidos mais atrapalham do que ajudam, perdendo de lavada na comparação com os combates dos animes mostrados nos flashbacks. O que dizer, por exemplo, da luta entre Guile e Vega? Ela acontece, mas só testemunhamos suas consequências, dando a entender que o embate em si ficou esquecido no chão da sala de edição.

Aliás, o filme ostenta com facilidade uma das piores edições do ano. A montagem frenética falha em esconder furos de roteiro bastante evidentes. A sensação é de ter perdido trechos cruciais no percurso, como se o apelo visual servisse de mera distração para que não notássemos os buracos da narrativa. Além disso, como os trailers já antecipavam, o CGI tropeça em momentos decisivos: Blanka (Jason Momoa) surge como um grande boneco digital sem peso ou presença física em cena.

Nem vale a pena se estender sobre os vilões, adaptados de forma caricata e incapazes de causar qualquer tensão. Bison, que assombrou toda uma geração que acompanhava a animação clássica exibida pelo SBT, é reduzido aqui ao clichê do vilão megalomaníaco que quer apenas sugar o poder de lutadores fortes. David Dastmalchian é um ótimo ator, mas acaba pagando aqui um dos maiores micos do ano.

Ao menos a amizade entre Ryu e Ken, somada ao desejo de vingança de Chun-Li, traz elementos familiares para quem conhece a mitologia do jogo e de suas várias adaptações para a TV e o cinema. No fim das contas, faltou um cuidado maior — ou até mesmo paixão — com o material de origem. O projeto acabou tratado como mero entretenimento descartável para atrair uma massa de fãs adormecida. Resta saber se haverá espaço para uma nova aventura dessa turma ou se a franquia nos cinemas já levou um definitivo Game Over.

"Street Fighter" serve mais para despertar a nossa nostalgia dos tempos de fliperama do que para nos apresentar uma adaptação digna de nota.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Cine Especial: Revisitando 'Street Fighter II: O Filme'

Era início dos anos noventa e eu ainda era um moleque que curtia jogos de videogame no Atari. O cenário mudou quando os fliperamas começaram a invadir o bairro Cohab de Guaíba, onde eu morava, e foi por lá que conheci o popular jogo de luta "Street Fighter II", desenvolvido pela Capcom. Nem é preciso dizer que, por um bom tempo, eu gastava minha mesada em fichas para jogar à tarde, logo após o sinal da escola.

Saltando para os anos de 1994 e 1995, eu era leitor assíduo da revista semanal Herói, que na época era a principal fonte de informação para quem curtia o melhor da cultura pop. Naqueles tempos, eu acompanhava o anime "Os Cavaleiros do Zodíaco" e comprava a publicação principalmente por causa da obra de Masami Kurumada. Porém, foi por meio dela que obtive as primeiras notícias sobre o longa de animação "Street Fighter II: O Filme" (1994).

Nunca vou me esquecer da verdadeira novela que foi a chegada desse longa ao Brasil. Semanalmente, a revista trazia diversas informações — algumas com fundamento, outras absurdas, para dizer o mínimo. Talvez a polêmica mais famosa tenha sido a cena do banho da Chun-Li, que gerou cortes nos EUA. Obviamente, era de se esperar que esses reajustes da censura chegassem por aqui também.

Curiosamente, o filme desembarcou no país em um momento em que a série "Street Fighter II: V" (1995) já havia se tornado um grande sucesso ao ser exibida aos domingos pelo SBT. Um dos grandes trunfos dessa série foi a impecável dublagem comandada por Nelson Machado, que conferiu um charme especial à atração em terras brasileiras. Quando o longa chegou aos cinemas, a dublagem inicial deixou bastante a desejar, mas, felizmente, o filme ganhou uma redublagem de respeito graças ao próprio Nelson Machado quando foi exibido na televisão pelo SBT.

Dirigido por Gisaburo Sugii, o filme acompanha Bison, o líder terrorista da organização Shadaloo (Shadowlaw), que busca os melhores lutadores do mundo para servirem aos seus planos de dominação. No seu radar está Ryu, um jovem andarilho que nunca permanece no mesmo lugar por tempo suficiente para ser capturado. Ele acaba reencontrando Ken Masters, campeão americano de artes marciais que treinou com ele na infância sob o mesmo mestre. Paralelamente, o Major Guile, do Exército dos EUA, é forçado a unir forças com a agente Chun-Li, da China, na esperança de prender Bison.

Produzida pelo estúdio japonês Group TAC em parceira com a própria Capcom, a animação teve o mérito de dar origem e motivações sólidas aos personagens centrais — algo que não era aprofundado no jogo clássico. Com isso, Ryu e Ken assumem com propriedade o protagonismo da trama: dois amigos de infância que trilham caminhos opostos, mas alimentam o desejo de descobrir quem é o melhor em combate. Enquanto isso, Chun-Li e Guile desempenham papéis fundamentais de coadjuvantes, com a lutadora chinesa roubando a cena em sequências de ação memoráveis.

Em termos técnicos, o filme representa o que havia de melhor na animação tradicional em uma época em que o CGI engatinhava. Com uma animação fluida e expressiva, o longa impressiona pela precisão dos movimentos e pelas coreografias de luta extremamente bem executadas, agradando em cheio aos fãs do jogo. O embate entre Chun-Li e Vega, por sinal, figura até hoje como uma das melhores lutas da história dos animes.

Durante muitos anos, diferentes edições do longa circularam pelo mundo, muitas delas censuradas pelas restrições locais. No Brasil, o anime ganhou uma dublagem marcante na época do VHS, mantendo a trilha sonora norte-americana, mas sofrendo com os cortes. Anos mais tarde, o filme finalmente ganhou edições integrais e sem cortes, permitindo ao público conferir a obra em sua concepção original.

Revisto hoje, é seguro dizer que esta continua sendo a adaptação definitiva da franquia, oferecendo espaço e relevância a praticamente todo o elenco de lutadores. Algo bem distante do fracasso do live-action "Street Fighter: A Última Batalha" (1994) — que inexplicavelmente excluiu o personagem Fei Long e cuja produção estrelada por Jean-Claude Van Damme ficou famosa pelo caos nos bastidores. Ao contrário do filme americano, este anime tornou-se uma obra cult, sempre revisitada por quem busca não apenas uma excelente animação dos anos 90, mas também um modelo de como adaptar videogames para o cinema.

Lançado em DVD em uma edição caprichada pelo selo Obras-Primas do Cinema, "Street Fighter II: O Filme" é um exemplar de adaptação respeitosa, eficiente e muito à frente do seu tempo.

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