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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Cara-de-Barro'

Sinopse: Um ator desfigurado se transforma em uma entidade mutante cujo corpo é feito inteiramente de argila.

Batman é um dos heróis mais complexos das histórias em quadrinhos. Por conta disso, era preciso ter uma galeria de vilões que representasse um verdadeiro desafio para o Homem-Morcego e o fizesse encarar os seus próprios limites. Não à toa, o personagem possui uma das melhores galerias do gênero, composta por figuras trágicas e densas que nos levam à reflexão.

Nomes ilustres como Coringa, Pinguim e Duas-Caras nasceram de tragédias que beiram o realismo, fazendo com que o leitor compreenda os motivos que os levaram ao lado sombrio da condição humana. Há também os vilões do chamado segundo escalão, mas que ganharam enorme reconhecimento ao longo dos anos. "Cara-de-Barro" (2026) é talvez o maior "estranho no ninho" desta nova leva de filmes da Warner/DC, mas prova que esses personagens merecem ser explorados, desde que a adaptação vá muito além do convencional.

Dirigido por James Watkins ("Não Fale Mal", 2024), o longa conta a história de Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem seu rosto brutalmente desfigurado por um chefão de Gotham City. Abandonado por empresários e sem nada a perder, Matt busca um tratamento estético radical e clandestino. A substância restaura sua antiga aparência, mas o procedimento traz efeitos colaterais devastadores, fazendo com que seu rosto e corpo mudem de forma como se fossem feitos de argila.

Embora o personagem tenha tido quatro versões diferentes nos quadrinhos, o Cara-de-Barro se tornou popular mesmo na clássica série animada "Batman: A Série Animada" (1992), cujos efeitos impressionam até hoje. Essa versão com certeza serviu de inspiração para a nova adaptação, ainda que James Watkins tenha bebido da fonte do recente sucesso "A Substância" (2024) — ambos os filmes exploram o horror corporal e nos brindam com cenas de puro gore. Em ambos os casos, a trama aborda o lado tóxico do estrelato, onde a aparência perfeita dita as cartas e cobra um preço alto.

Matt Hagen é uma representação dos astros contemporâneos, cujo talento acaba ofuscado pela beleza — o que torna sua mutilação pela máfia uma verdadeira tragédia grega. Porém, é interessante observar a ambiguidade apresentada já no primeiro ato, sugerindo que sua ruína pessoal já estava em curso há muito tempo. Ponto para Tom Rhys Harries: o intérprete, que vinha atuando como coadjuvante em títulos recentes como "O Retorno" (2024), aqui carrega o filme nas costas com elegância e grande intensidade nas cenas mais exigentes.

As sequências em que ele aos poucos vai se transformando em algo que inicialmente não compreende promovem um belo casamento entre atuação e recursos de maquiagem de ponta — que seria uma injustiça não ver lembrados no Oscar. No aspecto técnico, é impressionante como Watkins constrói o personagem sem depender excessivamente de efeitos digitais. O CGI pode até ter sido usado em pontas, mas o que salta aos olhos é o bom e velho cinema artesanal: jogos de câmera, truques de sombra e uma edição digna de nota. A cena da boate, onde acontece o ápice do filme, é um belo exemplo de como filmar ação entrelaçada com suspense e horror.

Haverá, com certeza, quem se incomode pelo fato de os coadjuvantes não se destacarem tanto em cena, sendo a Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie) o único ponto de apoio dessa ala. Sua personagem não apenas desenvolve a fórmula que muda radicalmente a vida do protagonista, como também se torna seu interesse amoroso, ganhando passagens que remetem ao clássico "A Mosca" (1986). Embora a relação não seja profundamente explorada, os minutos finais da dupla compensam essa lacuna.

Ainda sobre os coadjuvantes, é fascinante notar que eles só sobressaem de fato quando deixam de ser eles mesmos — ou seja, quando Matt Hagen os mata e assume suas identidades. O grande destaque fica novamente para a sequência da boate, na qual diversos intérpretes emulam Hagen em cena com impecável precisão. São momentos que também remetem ao clássico "Darkman: Vingança Sem Rosto" (1990), de Sam Raimi, com o qual a premissa guarda visíveis similaridades.

No saldo geral, o filme não é apenas mais uma adaptação de HQ, mas um belo exemplar do horror à moda antiga, no qual simpatizamos com o lado trágico do personagem enquanto nos damos conta de que sua queda para a escuridão é um caminho sem volta. Resta saber se a Warner/DC continuará com a coragem de ousar sem se refazer em fórmulas desgastadas. "Cara-de-Barro" nos dá a exata dimensão do potencial que certos personagens podem alcançar quando transpostos para a grande tela com autoria.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Cine Dica: Streaming — 'Lanternas'

Sinopse: Uma dupla de Lanternas Verdes é designada para investigar crimes misteriosos em uma pacata cidade do interior do Texas.

Decidi assistir a esta nova série da Warner/DC após a exibição do seu oitavo e último episódio. Notei que, embora tenha se tornado um sucesso de crítica, muitos fãs reclamaram da falta de efeitos visuais e de ação, ou até mesmo de uma suposta descaracterização dos personagens centrais. "Lanternas" (2026) pode não ter sido feita para ser estritamente fiel à sua fonte, mas a sua essência está impregnada em toda a obra.

Criada por Damon Lindelof, Chris Mundy e Tom King, a produção reimagina a cruzada do Lanterna Verde — super-herói que, com a ajuda de um poderoso anel, consegue materializar objetos complexos usando apenas a força de sua mente. Agora, Hal Jordan (Kyle Chandler) ganha um novo recruta, John Stewart (Aaron Pierre). Juntos, como policiais intergalácticos, eles terão de sobreviver ao lado sombrio e misterioso da Terra ao mesmo tempo em que investigam um assassinato no coração dos Estados Unidos.

É curioso como a parcela de público que se diz fã do personagem desqualifica a série por não explorar um tom mais fantástico e espacial. Porém, quem realmente conhece a trajetória dos quadrinhos sabe que uma das melhores fases do herói é aquela dos anos 1970, orquestrada por Dennis O'Neil e Neal Adams, na qual o Lanterna Verde e o Arqueiro Verde perambulam pelo interior dos EUA em histórias de pé no chão e temáticas maduras. Senti muito desse clássico ao assistir aos episódios, e só por essa escolha a produção já conquistou o meu respeito.

Interpretado por Kyle Chandler, vemos aqui um Hal Jordan mais humano e falho, remetendo aos tempos em que o personagem sucumbiu ao medo na já clássica HQ "Crepúsculo Esmeralda". Hal está longe de ser um herói perfeito; ele luta para continuar sendo quem é porque nada mais lhe resta além de seguir os passos do falecido pai. Assim, ao ver a possibilidade de ser substituído por John Stewart, notamos uma postura dúbia que nos impede de saber com certeza quais são suas reais intenções ao longo da temporada.

Porém, a série pertence de fato a John Stewart — personagem que ficou popularmente conhecido pela animação "Liga da Justiça" e que aqui ganha enorme peso graças à ótima atuação de Aaron Pierre. Aliás, sua origem, retratada no terceiro episódio, já figura como um dos pontos altos da temporada. A trama explora não apenas seu passado, mas a própria questão do medo — e como essa palavra se torna assombrosa e primordial para o amadurecimento do personagem. Com isso, compreendemos profundamente suas motivações para se tornar um Lanterna.

Visualmente, a exemplo do que ocorreu em "Pinguim" (2024), a série é muito bem filmada. O teor policial impregna boa parte da narrativa, deixando o gênero fantástico em segundo plano. Contudo, quando o elemento fantástico surge, ele atende às exigências do roteiro; não é um mero show de luzes para poluir a tela, mas sim um recurso para elevar a trama, mesmo em momentos contidos. É infinitamente superior ao CGI embaraçoso do filme "Lanterna Verde" (2011), que, em comparação com a série, envelhece ainda pior do que se imagina.

Claro que nem tudo são flores. A resolução dada ao mistério introduzido no início da temporada frustra as expectativas construídas até ali, resultando em um desfecho irregular, para dizer o mínimo. Além disso, a aparição de Guy Gardner (Nathan Fillion) na reta final parece servir apenas para reiterar que esses personagens pertencem ao universo compartilhado orquestrado por James Gunn. Sinceramente, a inserção soa gratuita e faz a série perder um pouco de sua personalidade própria nesse ponto.

Apesar desses poréns, "Lanternas" é uma obra que agradará ao espectador mais exigente e maduro, que anseia por produções que desafiem sua perspectiva. Sendo o "estranho no ninho" deste novo DCU, é justamente por sua ousadia que a série merece ser conferida.

Onde Assistir: HBO Max.

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