Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
Me acompanhem no meu:
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Neste sábado, dia 13 de junho, nosso encontro será às 10h15 da manhã, no auditório do Instituto Goethe, onde assistiremos ao filme Cleo, primeiro longa-metragem do cineasta alemão Erik Schmitt.
Misturando aventura, romance e fantasia, o filme transforma Berlim em um espaço repleto de histórias, lendas urbanas e passagens secretas. Ao acompanhar a jornada de uma jovem em busca de um relógio capaz de voltar no tempo, Schmitt constrói animações, truques visuais e referências à história berlinense. Cleo propõe um passeio por diferentes camadas do passado e do presente, explorando a relação entre perdas, desejos e a possibilidade, real ou imaginária, de reescrever a própria vida.
Além da sessão de sábado, reforçamos que amanhã (quinta, 11/06), às 19h, damos continuidade ao ciclo "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parceria com a Sala Redenção. O filme da vez é A Chinesa, de Jean-Luc Godard. Após a sessão, haverá um bate-papo com os pesquisadores Alexandre Guilhão e Juliana Costa. Neste ano, o ciclo participa de ação de extensão da UFRGS, de forma que oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares. Inscreva-se!
🗳️ ÚLTIMO DIA PARA VOTAR! A votação para definir os projetos que serão contemplados pela emenda parlamentar que pode beneficiar a preservação da memória do Clube de Cinema se encerra HOJE! Ainda dá tempo de participar, compartilhar com amigos e familiares. A votação leva cerca de 1 minuto: acesse o site, cadastre seus dados, escolha um projeto da saúde e, em "Demais Áreas", selecione Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Contamos com a sua ajuda!
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: Sábado, 13/06, às 10h15 da manhã
📍 Local: Instituto Goethe
Rua 24 de Outubro, 112 – Moinhos de Vento, Porto Alegre
🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade
Cleo
Alemanha, 2019, 99min
Direção: Erik Schmitt
Roteiro: Erik Schmitt e Stefanie Ren
Elenco: Marleen Lohse, Jeremy Mockridge, Heiko Pinkowski, Max Mauff
Sinopse: Fascinada pelas histórias e mistérios de Berlim, Cleo sonha encontrar um lendário relógio capaz de voltar no tempo. Quando conhece Paul, um jovem caçador de tesouros que possui pistas sobre o paradeiro do artefato, ela embarca em uma aventura que atravessa diferentes lugares, épocas e memórias da cidade.
Neste final de semana, teremos sessão dupla no Clube de Cinema!
No sábado, dia 30, nosso encontro será às 10h15 da manhã na Cinemateca Capitólio, onde exibiremos Como Era Verde o Meu Vale, de John Ford. Partindo das lembranças de infância de seu protagonista, Huw Morgan, o filme retrata a transformação social e a desagregação familiar em um País de Gales atravessado pela industrialização.
No domingo, dia 31, nos reunimos na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir Três Mulheres, de Robert Altman: um filme hipnótico e difícil de decifrar, em que identidades se confundem, personalidades parecem migrar entre personagens e a lógica narrativa cede espaço a uma atmosfera onírica. Situado numa Califórnia desértica e artificial, Três Mulheres transforma gestos cotidianos, silêncios e relações banais em matéria de estranhamento psicológico e reflexão sobre feminilidade, desejo e construção da identidade.
🗳️ Lembramos que o Clube de Cinema está concorrendo a um recurso disponibilizado por meio de emenda parlamentar para viabilizar um projeto de preservação de sua memória, e você pode nos ajudar! Basta acessar o formulário neste link, preencher seus dados e avançar para a próxima etapa. Primeiro, é necessário votar em um projeto da área da saúde. Depois, na aba “Demais Áreas”, você poderá selecionar o Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Após escolher um projeto da saúde e um projeto em “Demais Áreas”, confirme seu voto. Os projetos mais votados serão contemplados. Ajude a preservar a história e a memória do Clube de Cinema!
⚠️ Recebemos um aviso do Instituto Goethe de que após a sessão de Circusboy, ocorrida no último sábado (23/05), foram encontrados resíduos de alimentos no auditório. Reforçamos aos nossos associados a orientação de não consumir alimentos e bebidas durante as sessões nas salas parceiras.
Confira os detalhes da programação:
SÁBADO (30/05, 10h15)
Como Era Verde o Meu Vale (How Green Was My Valley)
EUA, 1941, 118min
Direção: John Ford
Roteiro: Phillip Dunne e Richard Llewellyn
Elenco: Walter Pidgeon, Mareen O’Hara, Anna Lee, Donald Crisp, Roddy McDowall, Sara Allgood, Barry Fitzgerald e Patric Knowles
📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Em uma comunidade mineradora do País de Gales, o jovem Huw Morgan relembra sua infância marcada pelos vínculos familiares, pelos rituais coletivos e pelas mudanças provocadas pela industrialização. Narrado a partir da memória, o filme acompanha o amadurecimento do protagonista diante das transformações sociais e afetivas que alteram para sempre o vale onde cresceu.
DOMINGO (31/05, 10h15)
Três Mulheres (3 Women)
EUA, 1977, 124min
Direção: Robert Altman
Roteiristas: Robert Altman, Patricia Resnick
Elenco: Shelley Duval, Sissy Spacek, Janice Rule
📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz
Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Em uma cidade desértica da Califórnia, duas mulheres solitárias desenvolvem uma relação ambígua e cada vez mais instável após passarem a viver juntas. Entre deslocamentos de personalidade, desejos reprimidos e imagens recorrentes, o cotidiano gradualmente assume contornos de sonho e pesadelo.
Nota: Filme exibido para os associados no dia 23/05/26.
Sinopse: O filme acompanha Santino, um garoto de circo que viaja pelo país com sua família e seus animais. Para ele, o lar está aqui hoje e lá amanhã.
Por ter nascido no início dos anos oitenta, cheguei a conhecer os circos dos velhos tempos, época em que o picadeiro nos brindava com verdadeiros espetáculos. Posteriormente, conheci o clássico "O Maior Espetáculo da Terra" (1952), no qual as andanças de um grupo circense através dos EUA eram retratadas como uma grande aventura. Hoje, o circo já não é mais o mesmo de seus tempos dourados.
Com o advento de novas tecnologias e o fácil acesso a outros meios de entretenimento, o circo atual sobrevive apenas através da paixão daqueles que não sabem viver de outra forma a não ser manter o espetáculo vivo, mesmo com poucos recursos. O filme brasileiro "O Grande Circo Místico" (2018) sintetiza bem essa realidade ao retratar uma família que, de geração em geração, insiste em manter a lona erguida mesmo quando se encontra à beira da falência. É aí que chegamos ao ponto central de "Circusboy" (2025), um documentário alemão sobre a cruzada de uma família circense através das décadas, testemunhada pelo olhar de uma criança sonhadora.
Dirigido por Julia Lemke e Anna Koch, o documentário foca em Santino, um menino que cresce em um circo itinerante, onde o lar é a sua família, e não um lugar geográfico. Seu bisavô Ehe, um lendário diretor de circo alemão, compartilha histórias de sua carreira, incutindo em Santino o amor pela vida nômade. Em seu aniversário de 11 anos, Ehe o desafia a descobrir seu próprio talento e a contribuir ativamente para a comunidade.
Assistir ao documentário não apenas me fez relembrar a minha infância, como também trouxe à memória os filmes citados acima. No longa, não vemos as cineastas interagindo com as figuras centrais da obra; elas optam por registrar o dia a dia de forma observacional, conduzidas pela perspectiva do pequeno Santino. Os minutos iniciais são uma representação genuína dessa escolha estética, já que a câmera o acompanha de perto, tornando-se uma extensão do nosso próprio olhar sobre o que virá a seguir.
Santino procura sempre ser prestativo nas tarefas diárias para erguer a lona e começar o espetáculo. Ao mesmo tempo, o documentário revela o peso desse nomadismo precoce, já que a rotina itinerante faz com que o jovem mude de escola inúmeras vezes. Curiosamente, nada abala o garoto, que se encontra totalmente encantado pelo universo criado por sua família.
Esse encanto é fortalecido pelo bisavô, que comanda o circo desde a juventude e mantém a tradição viva através das décadas. É nessa relação, por exemplo, que o documentário revela seu real charme: o uso de desenhos tradicionais como uma espécie de reconstituição do passado da família. Essa jornada entre altos e baixos nos encanta pela criatividade, sendo impossível não se emocionar com a trajetória de um determinado elefante que se tornou figura fundamental para aquela comunidade circense.
Acima de tudo, "Circusboy" não é apenas um documentário sobre a resistência da arte circense em pleno século XXI, mas também sobre a jornada de um jovem em busca de seu lugar no picadeiro. Um longa que reforça a importância de mantermos nossos sonhos intactos, mesmo quando as adversidades surgem com o tempo. O show precisa continuar, mesmo quando o mundo diz o contrário.
"Circusboy" é uma sensível declaração de amor para aqueles que guardam boas lembranças da era de ouro do circo e para os que, ainda hoje, lutam para manter esse espetáculo vivo.
Neste sábado, dia 23 de maio, nosso encontro será no auditório do Instituto Goethe, às 10h15 da manhã, onde assistiremos ao filme Circusboy, dirigido por Julia Lemke e Anna Koch.
Misturando elementos de documentário, animação e road movie, o filme acompanha o cotidiano de uma das últimas famílias circenses itinerantes da Europa a partir do olhar de Santino, um menino de 11 anos que tenta descobrir qual será o seu lugar dentro do circo. Ao longo de um ano de viagens, apresentações e mudanças de cidade, o documentário observa não apenas a rotina de trabalho e convivência dessa comunidade, mas também as ambiguidades de uma forma de vida marcada simultaneamente pela liberdade, pela instabilidade e pela permanência de tradições familiares.
Também gostaríamos de te lembrar que o Clube de Cinema está em busca de recursos para realizar seu projeto de preservação da memória de seus 80 anos. Estamos participando de uma seleção pública por meio de uma emenda parlamentar na qual os projetos mais votados serão contemplados. Participar é muito simples: basta acessar o formulário neste link, preencher seus dados e avançar para a próxima etapa. Primeiro, é necessário votar em um projeto da área da saúde. Depois, na aba “Demais Áreas”, você poderá selecionar o Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Após escolher um projeto da saúde e um projeto em “Demais Áreas”, confirme seu voto!
Confira dos detalhes da sessão:
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: Sábado, 23/05, às 10h15 da manhã
📍 Local: Instituto Goethe
Rua 24 de Outubro, 112 - Moinhos de Vento, Porto Alegre
Circusboy (Zirkuskind)
Alemanha, 2025, 86min
Direção e roteiro: Julia Lemke e Anna Koch
Sinopse: Acompanhando a rotina de um circo itinerante familiar, o filme segue Santino, um garoto de 11 anos que cresce entre viagens, apresentações e encontros passageiros enquanto tenta descobrir qual será o seu papel dentro da tradição circense herdada de sua família.
Sinopse: Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história.
Quando as enchentes de maio de 2024 começaram no Rio Grande do Sul, eu estava trabalhando em Sapucaia do Sul e testemunhando a chegada das águas na capital através da tela do meu celular. Aos poucos, fui vendo pelos noticiários as cidades sendo destruídas pela força das águas e as pessoas ficando desabrigadas, transformando tudo em um cenário apocalíptico. Porém, nem todos os registros estavam ao nosso alcance, pois, daquela data em diante, cada indivíduo tinha uma história única a ser contada.
Por mais profissionais que sejam, os veículos da mídia tradicional jamais terão a capacidade de adentrar as entranhas daqueles que sofreram com a tragédia, ou de escolher uma única pessoa que se torne a representação perfeita de um povo afetado em maior ou menor grau. Fora da grande mídia, no entanto, cada um registrou os eventos à sua maneira, revelando-nos algo que não foi visto pela maioria. "800 Milímetros: Histórias que resistiram à chuva" (2024) é um registro compacto sobre os fatos, mas que possui um peso enorme ao revelar o lado humano perante o inexplicável.
Dirigido por Thiago Lazeri, o documentário registra os eventos de maio de 2024, período em que o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história. Em apenas dez dias, cidades inteiras foram devastadas pela chuva, pela lama e pelas enchentes. A partir dos testemunhos de pessoas que atravessaram essa experiência, o longa acompanha histórias de perda, sobrevivência e reconstrução, refletindo sobre a memória, o trauma coletivo e os impactos sociais e ambientais da tragédia.
Lembro-me de que, quando os trens foram liberados até a estação Mathias Velho, decidi ir até lá para ver a situação daquele bairro de Canoas após as águas baixarem. Ao chegar, uma sensação mórbida me atingiu em cheio: testemunhar o horror da destruição ao vivo trouxe um impacto que não havia sido transmitido a mim através da mídia tradicional. Ao meu ver, as reportagens de TV capturaram apenas o que era factual e essencial, mas não o horror real da situação.
O documentário de Thiago Lazeri nos leva ao cenário das consequências daquele mês de maio, onde o realizador registra não somente o lado solidário daqueles que decidiram ajudar o próximo, mas também a reconstrução daquilo que foi perdido. O que vemos na tela não é uma reconstituição fria dos fatos, mas sim a revelação crua de uma destruição vinda da própria natureza, fazendo-nos constatar o quanto somos frágeis perante a sua fúria. Os depoimentos das personagens são profundamente sinceros, e elas não têm medo de expor suas dores emocionais ao se depararem com a incerteza de por onde recomeçar do zero.
Através de sua lente, Thiago registra os estragos e recolhe relatos que nos fazem imaginar como eram as residências antes do ocorrido, permitindo-nos comparar mentalmente ambos os cenários. Dois anos depois, ainda existem pessoas que seguem na reconstrução de suas vidas, seja limpando o que foi destruído ou recomeçando a caminhar em outra cidade que não foi atingida como um todo. Porém, por mais que tenham forças para reconstruir, fica o aviso: nem tudo terá retorno.
Talvez o momento mais emocionante do documentário seja justamente o de Lucilene e Dona Lenite, moradoras de Muçum, município gaúcho localizado no Vale do Taquari. Lá, elas não apenas testemunharam seus lares sendo devastados, como também o cemitério onde estavam sepultados os seus entes queridos. O ápice desse momento é a dolorosa constatação de que a enchente não atingiu somente os vivos, mas levou consigo até mesmo os mortos em seu descanso.
"800 Milímetros: Histórias que resistiram à chuva" é o registro mais humano e cru sobre a tragédia de maio de 2024 — alcançando um efeito de empatia e realidade que a mídia tradicional simplesmente não conseguiu transmitir.
Mais informações sobre o documentário vocês conferem no site oficial clicandoaqui.
Neste sábado, dia 16 de maio, nosso encontro será no Cine Bancários, às 10h15 da manhã, onde assistiremos ao documentário 800 Milímetros: Histórias que resistiram à chuva, de Thiago Lazeri. A sessão contará com a presença do diretor, que conversará conosco após o filme.
Partindo da catástrofe climática que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, o filme acompanha personagens que viveram diretamente os impactos das enchentes e da destruição provocada pelo maior desastre ambiental da história do estado. A partir de relatos e imagens marcadas pelos vestígios da tragédia, o documentário procura registrar não apenas a dimensão material das perdas, mas também as transformações subjetivas, os traumas e os esforços de reconstrução que permaneceram após a água baixar.
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: Sábado, 16/05, às 10h15 da manhã
📍 Local: Cine Bancários
Rua General Câmara, 424 – Centro Histórico – Porto Alegre
🎤 Sessão comentada com o diretor Thiago Lazeri
800 Milímetros: Histórias que resistiram à chuva
Brasil, 2024, 65min
Direção: Thiago Lazeri
Roteiro: Thiago Lazeri e Vitor Chagas
Sinopse: Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história. Em apenas dez dias, cidades inteiras foram devastadas pela chuva, pela lama e pelas enchentes. A partir dos testemunhos de pessoas que atravessaram essa experiência, o documentário acompanha histórias de perda, sobrevivência e reconstrução, refletindo sobre memória, trauma coletivo e os impactos sociais e ambientais da tragédia.
Nota: Filme exibido para os associados no último dia 02/05/26.
Alfred Hitchcock nunca escondeu a sua predileção em fazer filmes dentro do estúdio ao invés de cenas externas. É curiosa, por exemplo, a cena que o casal central de "Os Pássaros" (1963) sobem em um morro real para logo ver os dois em um cenário que logicamente foi feito em estúdio. São esses pequenos detalhes que sempre me chamaram atenção, porém, o realizador nunca se limitou em rodar somente em estúdio, mas sim usar essa limitação para expandir a sua criatividade como um todo.
Em "Festim Diabólico" (1948) o realizador cria toda uma trama de assassinato dentro de um apartamento, onde o cineasta filma boa parte das cenas em plano-sequência e nos dando a sensação que tudo foi feito em um palco de teatro. Há quem diga que essa transição entre teatro e cinema muitas vezes não dá certo, pois são duas artes de se contar uma história, mas cuja as ferramentas quase nunca são as mesmas. "Disque M Para Matar" (1953) é uma pequena aula de como se faz um filme que nos transmite uma peça de teatro, mas tendo consigo as peças que moldam a sétima arte como um todo.
Baseado na peça de escrita pelo dramaturgo inglês Frederick Knott, o filme se passa em Londres, onde um ex-tenista decide matar sua mulher, para poder herdar seu dinheiro e também como vingança por ela ter um amante norte americano e que se encontra na cidade. Ele acaba chantageando um colega de faculdade para matá-la, dando a entender que o crime teria sido cometido por um ladrão. Mas quando algo sai muito errado, ele vê uma maneira de dar um rumo aos acontecimentos em proveito próprio.
Basicamente Hitchcock filma quase boa parte de toda trama dentro do apartamento onde ocorre o crime, sendo que raras vezes surge uma cena externa e quando elas acontecem é notório que elas foram rodadas em estúdio. Pelo fato de ocorrer em um único cenário a trama nos provoca certa claustrofobia, principalmente quando a tensão surge no ar, seja no momento em que o marido começa arquitetar o seu plano, como também o crime em si que se torna o ápice do filme como um todo. Além disso, o realizador não deixa de fazer os seus jogos de câmera mesmo em um espaço limitado, como no caso das curtas cenas de plano sequência que impressionam até nos dias de hoje.
Mas uma das minhas partes preferidas é quando o marido contrata o assassino, interpretado por Patrick Allen, e começa lhe explicar como tem que ser feito o crime perfeito. Repare que, neste momento, Hitchcock filma de cima, como se nos dissesse para prestarmos atenção em cada peça do local que servirá de cenário para o possível assassinato. Uma vez que isso acontece, criamos então a cena do crime mentalmente, mas para somente não se encaixar com os desdobramentos do ato quando acontece. A cena, por sua vez, se torna o momento mais sufocante do longa, principalmente pela maneira que um dos personagens morre e cuja uma tesoura se torna peça primordial do ato.
Vale destacar que esse foi o primeiro filme Grace Kelly trabalhou com Alfred Hitchcock, sendo que posteriormente ela viria a trabalhar com ele em "Janela Indiscreta" (1954) e "O Ladrão de Casaca" (1955). É curioso, por exemplo, a maneira como o diretor apresenta a sua personagem nas primeiras cenas, sendo inicialmente com roupas comportadas nas cenas com o marido, para logo a seguir vê-la com um vestido vermelho com o amante. Seria uma forma de, inicialmente, discordarmos dela por estar traindo o marido, mas para logo em seguida sentirmos pena dela por estar sendo vítima de um crime hediondo.
Já Ray Milland esbanja elegância, ao interpretar o marido de uma forma refinada, controlada e extremamente fria com relação às suas reais intenções dentro da trama. Ardiloso como ninguém, o seu personagem simplesmente deixa o assassino contratado em um beco sem saída e cuja cena se torna outro ponto alto do longa. Ray Milland se tornou conhecido por ter levado um Oscar pelo seu desempenho em "Farrapo Humano" (1948), mas na minha opinião ele obteve aqui a melhor atuação de sua carreira.
E se por um lado Robert Cummings se torna um ponto fora da curva ao interpretar o amante, do outro, Patrick Allen esbanja simpatia ao interpretar o detetive Pearson. Com jeito refinado e frio em suas observações, é mais do que notório que o personagem foi inspirado no protagonista Hercule Poirot dos livros de Agatha Christie e que com certeza o intérprete se encaixaria perfeitamente caso tivessem feito alguma adaptação dos livros na época. O personagem em si se torna o verdadeiro protagonista no final do longa e fazendo com que a sua investigação se torne dinâmica até o último minuto da história.
Curiosamente, "Disque M Para Matar" também foi uma forma de Alfred Hitchcock experimentar o uso do 3D da época, ao fazer com que alguns objetos de cena nos desse a sensação de estarem saltando da tela. Mas assim como no cinema recente, essa forma de assistir cinema não perdurou muito, sendo que não importa quantas coisas são jogadas contra o público quando está assistindo ao longa, sendo que o mais importante é aproveitar uma boa história. Nisso Alfred Hitchcock tinha grande talento, mesmo quando surgia uma nova tecnologia que pudesse mudar o seu foco.
Em "Disque M Para Matar" nos revela um Alfred Hitchcock ilimitado, mesmo quando a trama gira em torno de um único cenário.
No sábado, dia 9 de maio, nos reunimos às 10h na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang. Último longa de Yang, um dos pioneiros da nova onda do cinema taiwanês da década de 1980, As Coisas Simples da Vida acompanha o cotidiano de uma família de classe média em Taipei, organizando a narrativa a partir de movimentos discretos, na qual situações aparentemente corriqueiras se acumulam e passam a reverberar entre si.
O filme acompanha diferentes personagens — o pai, a filha, o filho — em momentos de hesitação, reencontro e descoberta, compondo um conjunto em que silêncios, deslocamentos e pequenos gestos têm peso decisivo. Para além da sessão de sábado, reforçamos que amanhã, quinta-feira, dia 7 de maio, às 19h, exibiremos A Grande Testemunha, de Robert Bresson, na Sala Redenção da UFRGS. A sessão é aberta ao público e faz parte do ciclo temático "Nouvelle Vague e suas influências". Após a exibição do filme, haverá um bate-papo com o crítico de cinema Danilo Fantinel e Kelly Demo Christ, diretora de comunicação do Clube de Cinema.
Confira os detalhes da sessão:
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: Sábado, 09/05, às 10h da manhã
📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim
Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
As Coisas Simples da Vida (Yi yi)
Taiwan/Japão, 2000, 173min
Direção e roteiro: Edward Yang
Elenco: Wu Nien-jen, Elaine Jin, Kelly Lee, Jonathan Chang
Sinopse: A partir do cotidiano de uma família em Taipei, o filme acompanha diferentes personagens — entre eles uma criança curiosa, uma adolescente em descoberta e um pai em crise — enquanto enfrentam questões afetivas, profissionais e existenciais. Entre encontros, perdas e reflexões, suas experiências revelam as complexidades da vida moderna e as múltiplas formas de perceber e compreender o mundo.
Neste sábado, dia 2 de maio, às 10h15 da manhã, nos reunimos na Cinemateca Capitólio para assistir o clássico Disque M Para Matar, de Alfred Hitchcock.
Baseado em uma peça teatral de mesmo nome, o filme condensa sua ação em poucos espaços e personagens, seguindo a fórmula consolida pelo mestre do suspense: ao colocar o espectador a par do crime desde o início, Hitchcock desloca o nosso interesse para a execução minuciosa do plano e, sobretudo, para suas inevitáveis falhas, construindo um jogo de ironia e reviravoltas que nos mantém envolvidos na narrativa até o seu desfecho.
Confira os detalhes da sessão:
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: Sábado, 02/05, às 10h15 da manhã
📍 Local: Cinemateca Capitólio
Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre
Disque M para Matar (Dial M for Murder)
EUA, 1954, 105min
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Frederick Knott
Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, Anthony Dawson
Sinopse: Ao descobrir a traição da esposa, um ex-tenista elabora um plano meticuloso para assassiná-la e garantir sua herança. Quando o crime não ocorre como previsto, ele precisa improvisar uma nova estratégia, manipulando evidências e circunstâncias para incriminá-la.
Wong Kar-Wai é frequentemente apontado como o último grande romântico do cinema. Isso se deve à habilidade do realizador em criar longas nos quais o romantismo se torna o mote principal da obra. Porém, suas histórias de amor não caem na vala comum da previsibilidade.
Até pouco tempo, eu acreditava que sua maior obra-prima fosse "Amor à Flor da Pele" (2000), cujos encontros e desencontros do casal central formam uma das melhores experiências cinematográficas que assisti neste século. O feito se repetiria em "2046 - Os Segredos do Amor" (2004), elevando ainda mais seu cinema autoral no tratamento do tema. No entanto, sua obra-prima acaba sendo justamente "Amores Expressos" (1994), um filme sobre conexões em meio a uma metrópole em constante movimento.
Nas ruas de Hong Kong, as tramas se entrelaçam: uma mulher misteriosa de peruca loira, um jovem policial que a persegue na multidão e uma garçonete sonhadora que se apaixona por outro oficial. Todos se cruzam em uma cidade frenética, enquanto suas vidas se tornam mais complexas do que se imagina.
Segundo registros, Quentin Tarantino fez questão de intermediar um acordo com a Miramax para que o filme fosse exibido nos EUA. É evidente que o diretor identificou ali uma obra que não apenas falava sobre os dilemas do amor, mas que era embalada pelo melhor da cultura pop dos anos 90. O longa talvez seja a melhor síntese daquela década, em tempos nos quais o ser humano se via cada vez mais refém de um capitalismo desenfreado.
Estamos diante de uma Hong Kong saturada de luzes e cores, onde pessoas ocupadas parecem ignorar o que acontece ao redor. O comércio é incessante; vendedores ambulantes oferecem de itens legais a ilícitos nos lugares mais improváveis. Neste cenário de sobrevivência, o amor encontra espaço, desde que se mantenha a resiliência.
A mulher de peruca loira é a figura mais enigmática. Testemunhamos ela operando no submundo do crime, dançando conforme a música e tentando estar sempre um passo à frente. Quando o Policial 223 tenta conquistá-la em um bar, ela encara a situação como algo banal, enquanto ele ainda nutre esperanças de aplacar a solidão. Enquanto ela já experimentou o lado cru da vida, ele demonstra acreditar em contos de fadas em meio a uma realidade rígida.
Tudo isso é orquestrado por um Wong Kar-Wai inspirado, alternando cenas reflexivas com sequências frenéticas. Por instantes, parece que assistimos a um filme policial, com elementos de film noir e uma narração em off que se ajusta perfeitamente ao ambiente. Mas então, surge o inesperado.
Uma lanchonete em um beco qualquer serve como ponto de referência para uma nova história. O filme possui duas narrativas distintas, unidas pelo cenário e pelo romantismo dos personagens. Porém, se na primeira parte tudo parecia caminhar para o sombrio, a segunda nos conduz por uma trilha de leveza e reflexão.
A relação do Policial 663 com a garçonete Faye é tão contagiante que chegamos a esquecer a trama anterior. Isso se deve não apenas ao talento de Tony Leung, mas à atuação ambígua de Faye Wong, que constrói uma personagem enigmática cujas ações inusitadas revelam seu interesse pelo policial de forma singular.
É curioso observar como o diretor analisa a comunicação humana através dos objetos, como se as posses dissessem algo sobre nós. A casa do policial torna-se um mosaico de sua personalidade, ganhando profundidade quando Faye a "invade" para reorganizar sua vida. Essa premissa recorda o coreano Casa Vazia (2004), de Kim Ki-duk, embora com desdobramentos distintos.
Ao final, entre encontros e desencontros, o longa ensina que sempre haverá recomeços, mesmo quando o amor não corresponde às nossas expectativas. É uma síntese sobre pessoas comuns em busca de sonhos na selva de pedra, tentando manter a essência mesmo quando o mundo diz o contrário. Com uma trilha icônica que inclui "California Dreamin'" e a versão de Faye Wong para "Dreams", "Amores Expressos" é um clássico que sintetiza os dilemas amorosos em um mundo em eterna mutação.
Neste final de semana, teremos jornada dupla no Clube de Cinema de Porto Alegre!
No sábado, dia 25, nos encontramos no auditório do Instituto Goethe para assistir O Que Vale é a Palavra, filme ainda inédito no Brasil e dirigido por İlker Çatak, conhecido por A Sala dos Professores, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional pela Alemanha em 2024.
Já no domingo, dia 26, nos reunimos na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para mais uma sessão em parceria com o Fantaspoa: dessa vez, exibiremos o filme iraniano Sunshine Express, de Amirali Navaee.
Confira os detalhes da programação:
SÁBADO (25/04, 10h15)
O Que Vale é a Palavra (Es gilt das gesprochene Wort)
Alemanha, 2019, 120min
Direção: İlker Çatak
Roteiro: İlker Çatak, Nils Mohl, Johannes Duncker
Elenco: Anne Ratte-Polle, Oğulcan Arman Uslu, Godehard Giese
📍 Local: Instituto Goethe – Rua 24 de Outubro, 112 - Moinhos de Vento, Porto Alegre
Sinopse: O encontro entre mundos distintos desencadeia uma relação inesperada quando Baran, um jovem turco que busca melhores condições de vida, conhece Marion, uma piloto alemã, nas praias de Marmaris. Ao convencê-la a levá-lo para a Alemanha, o que começa como um acordo pragmático gradualmente se transforma em um vínculo mais complexo.
DOMINGO (26/04, 10h15)
Sunshine Express
Irã, 2025, 100min
Direção e roteiro: Amirali Navaee
Elenco: Sam Nakhai, Babak Karimi, Azadeh Seifi, Shayesteh Sajadi, Mohammad Aghebati
📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz
Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Um grupo de pessoas embarca em uma viagem encenada rumo a um destino mítico, assumindo papéis dentro de um jogo controlado por regras rígidas. À medida que a experiência avança, a dinâmica lúdica revela tensões, frustrações e desejos dos envolvidos, transformando a jornada em um reflexo crítico de suas próprias limitações e aspirações.
Nota: Filme exibido para os associados no dia 02/04/26
Quando François Truffaut lançou seu clássico "Os Incompreendidos" (1959), reuniram-se ali todos os ingredientes do que viria a ser a Nouvelle Vague. Com a câmera na mão, o realizador criou cenas maravilhosas das ruas de Paris — um feito raro em um período no qual a maioria dos filmes era feita em estúdios, quase nunca revelando o lado mais realista do mundo. "Cléo das 5 às 7" (1962) talvez seja uma das melhores sínteses desse período e um dos melhores trabalhos da diretora Agnès Varda.
Na trama, Cléo (Corinne Marchand) é uma cantora francesa que vive um momento de angústia enquanto espera o resultado de um exame. O teste pode apontar se ela tem ou não câncer de estômago. Sem saber o que fazer, Cléo perambula pela cidade de Paris. No decorrer desse tempo, ela observa e conversa com as pessoas que cruzam seu caminho.
Confesso que só fui conhecer Agnès Varda a partir de "Visages, Villages" (2017), documentário que revela seu talento e que foi o suficiente para me fazer buscar seus outros títulos. No caso dos tempos de Nouvelle Vague, talvez tenha sido ela quem melhor compreendeu a proposta principal de seus colegas: ter uma ideia na mente, uma câmera na mão e ocupar as ruas para realizar um feito mais cru, mas não menos magistral. A jornada de angústia da protagonista torna-se um artifício de roteiro para que a realizadora possa exercer sua liberdade criativa.
Já na abertura, por exemplo, vemos um jogo de cena protagonizado por mãos e cartas, para logo em seguida testemunharmos diversos espelhos espalhados pelos lugares onde a protagonista caminha. Esse recurso serve para obtermos uma perspectiva do mundo em que ela vive — onde há muito a oferecer, mas cujas possibilidades se tornam nubladas pelo medo inicial. Há, por exemplo, um momento em uma cafeteria onde ocorre um conflito entre um casal e a câmera dá atenção à moça, que se encontra extremamente sozinha.
Se por um momento achamos que a protagonista irá ajudá-la, logo ela dá as costas para continuar caminhando sem rumo. É neste ponto também que ocorre o delicioso encontro entre a ficção e o lado documental de Varda; sua câmera torna-se uma representação do olhar da protagonista, dando-nos a dimensão de como ela enxerga o mundo em meio ao temor pela vida. Nota-se que a câmera caminha entre as pessoas, que olham com espanto em alguns momentos, dando a entender que não foram avisadas da filmagem, o que confere um peso maior ao realismo.
Isso se casa com a presença de Corinne Marchand. Ao atravessar as ruas, nota-se o olhar curioso do público — principalmente o masculino — devido à sua beleza marcante. Marchand é um caso raro em que talento e beleza se cruzam; ela surpreende tanto na atuação quanto na voz, tornando seus momentos de canto um dos pontos altos do longa. Ao mesmo tempo, ela mantém uma inocência que contrasta com o surgimento de sua amiga, interpretada por Dorothée Blank.
É neste encontro que surge uma bela homenagem ao cinema mudo, mais precisamente quando ambas vão assistir a um curta-metragem na cabine de projeção. O curta é estrelado por ninguém menos que Jean-Luc Godard e Anna Karina. Curiosamente, esse trecho me fez lembrar do clássico "Um Cão Andaluz" (1929), de Luis Buñuel, já que a trama flerta com o non-sense.
Graças a esse filme, não me surpreende que a obra de Varda tenha servido de inspiração para outros realizadores. Richard Linklater, por exemplo, criou sua trilogia iniciada com "Antes do Amanhecer" (1995), onde o casal central conversa sobre a vida em planos-sequência surpreendentes. Ao conhecer "Cléo das 5 às 7", percebo de onde ele bebeu sua inspiração. Linklater, inclusive, lançou recentemente "Nouvelle Vague" (2025), filme que não apenas homenageia a criação de "Acossado" (1960), mas o movimento como um todo.
No final das contas, é um filme sobre saborear a vida, pois nunca sabemos o dia de amanhã. Quando a protagonista começa a dialogar com um soldado (Antoine Bourseiller), prestes a embarcar para uma guerra que pode lhe tirar a vida, ela percebe que cada minuto é precioso e que a interação com o próximo pode mudar sua perspectiva. O final em aberto nos faz manter o filme na mente e desejar que ele não tivesse acabado tão cedo.
"Cléo das 5 às 7" é o longa que melhor representou a ideia primordial da Nouvelle Vague, um grande feito que somente Agnès Varda poderia ter colocado em prática dessa maneira.