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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Cléo das 5 às 7'

Nota: Filme exibido para os associados no dia 02/04/26

Quando François Truffaut lançou seu clássico "Os Incompreendidos" (1959), reuniram-se ali todos os ingredientes do que viria a ser a Nouvelle Vague. Com a câmera na mão, o realizador criou cenas maravilhosas das ruas de Paris — um feito raro em um período no qual a maioria dos filmes era feita em estúdios, quase nunca revelando o lado mais realista do mundo. "Cléo das 5 às 7" (1962) talvez seja uma das melhores sínteses desse período e um dos melhores trabalhos da diretora Agnès Varda.

Na trama, Cléo (Corinne Marchand) é uma cantora francesa que vive um momento de angústia enquanto espera o resultado de um exame. O teste pode apontar se ela tem ou não câncer de estômago. Sem saber o que fazer, Cléo perambula pela cidade de Paris. No decorrer desse tempo, ela observa e conversa com as pessoas que cruzam seu caminho.

Confesso que só fui conhecer Agnès Varda a partir de "Visages, Villages" (2017), documentário que revela seu talento e que foi o suficiente para me fazer buscar seus outros títulos. No caso dos tempos de Nouvelle Vague, talvez tenha sido ela quem melhor compreendeu a proposta principal de seus colegas: ter uma ideia na mente, uma câmera na mão e ocupar as ruas para realizar um feito mais cru, mas não menos magistral. A jornada de angústia da protagonista torna-se um artifício de roteiro para que a realizadora possa exercer sua liberdade criativa.

Já na abertura, por exemplo, vemos um jogo de cena protagonizado por mãos e cartas, para logo em seguida testemunharmos diversos espelhos espalhados pelos lugares onde a protagonista caminha. Esse recurso serve para obtermos uma perspectiva do mundo em que ela vive — onde há muito a oferecer, mas cujas possibilidades se tornam nubladas pelo medo inicial. Há, por exemplo, um momento em uma cafeteria onde ocorre um conflito entre um casal e a câmera dá atenção à moça, que se encontra extremamente sozinha.

Se por um momento achamos que a protagonista irá ajudá-la, logo ela dá as costas para continuar caminhando sem rumo. É neste ponto também que ocorre o delicioso encontro entre a ficção e o lado documental de Varda; sua câmera torna-se uma representação do olhar da protagonista, dando-nos a dimensão de como ela enxerga o mundo em meio ao temor pela vida. Nota-se que a câmera caminha entre as pessoas, que olham com espanto em alguns momentos, dando a entender que não foram avisadas da filmagem, o que confere um peso maior ao realismo.

Isso se casa com a presença de Corinne Marchand. Ao atravessar as ruas, nota-se o olhar curioso do público — principalmente o masculino — devido à sua beleza marcante. Marchand é um caso raro em que talento e beleza se cruzam; ela surpreende tanto na atuação quanto na voz, tornando seus momentos de canto um dos pontos altos do longa. Ao mesmo tempo, ela mantém uma inocência que contrasta com o surgimento de sua amiga, interpretada por Dorothée Blank.

É neste encontro que surge uma bela homenagem ao cinema mudo, mais precisamente quando ambas vão assistir a um curta-metragem na cabine de projeção. O curta é estrelado por ninguém menos que Jean-Luc Godard e Anna Karina. Curiosamente, esse trecho me fez lembrar do clássico "Um Cão Andaluz" (1929), de Luis Buñuel, já que a trama flerta com o non-sense.

Graças a esse filme, não me surpreende que a obra de Varda tenha servido de inspiração para outros realizadores. Richard Linklater, por exemplo, criou sua trilogia iniciada com "Antes do Amanhecer" (1995), onde o casal central conversa sobre a vida em planos-sequência surpreendentes. Ao conhecer "Cléo das 5 às 7", percebo de onde ele bebeu sua inspiração. Linklater, inclusive, lançou recentemente "Nouvelle Vague" (2025), filme que não apenas homenageia a criação de "Acossado" (1960), mas o movimento como um todo.

No final das contas, é um filme sobre saborear a vida, pois nunca sabemos o dia de amanhã. Quando a protagonista começa a dialogar com um soldado (Antoine Bourseiller), prestes a embarcar para uma guerra que pode lhe tirar a vida, ela percebe que cada minuto é precioso e que a interação com o próximo pode mudar sua perspectiva. O final em aberto nos faz manter o filme na mente e desejar que ele não tivesse acabado tão cedo.

"Cléo das 5 às 7" é o longa que melhor representou a ideia primordial da Nouvelle Vague, um grande feito que somente Agnès Varda poderia ter colocado em prática dessa maneira.



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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Amores Expressos" (18/04) na Cinemateca Paulo Amorim

Neste sábado, dia 18 de abril, às 10h15 da manhã, nos reunimos na Cinemateca Paulo Amorim para a exibição de Amores Expressos, de Wong Kar-wai. Também responsável pelos belíssimos Amor à Flor da Pele e Anjos Caídos, o cineasta constrói um cinema marcado por narrativas fragmentadas, música atmosférica e uma fotografia de cores intensas e saturadas. Em Amores Expressos, não é diferente: ambientado em Hong Kong, o filme acompanha duas histórias de amor desencontradas, atravessadas pela solidão, pelo acaso e pelo ritmo vertiginoso da vida urbana. Policiais melancólicos, encontros improváveis e personagens à deriva, aqui Wong Kar-wai compõe um retrato fragmentado das relações na modernidade, embalado ao som de The Mamas & the Papas. Inesquecível!


Confira os detalhes:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 18/04, às 10h15 da manhã

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre


Amores Expressos (Chung Hing sam lam)

Hong Kong, 1994, 102 min, 12 anos

Direção: Wong Kar-wai

Elenco: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu-wai, Faye Wong, Brigitte Lin


Sinopse: Todos os dias, o policial 223 compra uma lata de abacaxi em conserva com a mesma data de validade: 1º de maio. A data simboliza o dia em que ele superará seu amor perdido. Ele também está de olho em uma mulher misteriosa de peruca loira, sem saber que ela é traficante. O policial 663 está devastado pela tristeza causada por um término. Quando sua ex-namorada deixa cair um molho extra de suas chaves em um café local, uma garçonete entra em seu apartamento e dá um toque especial à sua vida.



Esperamos vocês para mais uma grande sessão.

Até sábado!

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sexta-feira, 27 de março de 2026

Cine Dica: Sessão dupla no Clube de Cinema: "Notas Sobre Um Desterro" (28/03) e "Wanda" (29/03)

Neste final de semana, teremos jornada dupla no Clube de Cinema! No sábado (28/03), exibiremos o filme Notas Sobre Um Desterro, do diretor Gustavo Castro. A sessão, realizada em parceria com a 1ª Conferência Internacional Antifascista, contará com a presença do próprio diretor e ocorre na Sala Redenção da UFRGS, às 10h15 da manhã. Após a exibição do filme, Kelly Demo Christ, nossa diretora de comunicação, irá mediar uma conversa com Gustavo Castro e Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL).

Já no domingo (29/03), nos reuniremos na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir Wanda, único e cultuado longa de Barbara Loden. Considerado uma "joia perdida" da Nova Hollywood, o filme aborda a marginalidade feminina como experiência de abandono, resistência e sobrevivência cotidiana.


Confira os detalhes da programação:


SÁBADO (28/03, 10h15 da manhã)

Notas Sobre Um Desterro

Brasil, 2025, 80min

Direção e roteiro: Gustavo Castro

📍 Local: Sala Redenção – Cinema Universitário (UFRGS)

Rua Eng. Luiz Englert, 333 – Campus Centro, Porto Alegre

🎤 Sessão comentada com o diretor Gustavo Castro e Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL)

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade

Sinopse: Após os acontecimentos de outubro de 2023, o cineasta Gustavo Castro revisita imagens filmadas na Cisjordânia em 2018, utilizando esse material como ponto de partida para refletir sobre a tragédia contínua do povo palestino, marcado por um ciclo histórico de destruição e deslocamento.


DOMINGO (29/03, 10h15 da manhã)

Wanda

EUA, 1970, 99min

Direção e roteiro: Barbara Loden

Elenco: Barbara Loden, Michael Higgins, Peter Shupenes

📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, sala Eduardo Hirtz

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre

Sinopse: Após abandonar marido e filhos, Wanda passa a vagar sem rumo até cruzar o caminho de um criminoso que a envolve, à força, em um plano de assalto.



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sexta-feira, 13 de março de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Hiroshima, Meu Amor'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia (05/03/26)

O tempo como vivemos, é composto  de camadas nas quais os passado se acumula a cada minuto que passa. Em seu longa de estreia, o francês Alain Resnais foi saudado pela capacidade de traduzir em imagens e palavras tanto as múltiplas presenças do tempo quanto o lugar e a ação da memória, como a faculdade que faz tudo sempre retornar. Essa habilidade seria retomada dois anos depois em "O Ano Passado em Marienbad" (1961), sob uma forma ainda mais radical.

"Hiroshima Meus Amor" (1959) não é apenas um filme, é também um texto de autoria de Marguerite Duras, que imprime às imagens uma densidade poética que ultrapassa o mero sentido dos diálogos. A trama se resume ao encontro entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês na cidade reconstruída depois de ter sido devastada por uma das bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos em 1945. "Você não viu nada em Hiroshima", ele insiste. "Eu vi tudo", ela retruca. Pois, mesmo que nenhum dos dois tenha estado lá no momento do ataque, é a memória que se encarrega de não fazer esquecer os grandes traumas.

É ela pode afirmar que "viu tudo" porque viveu a guerra a seu modo, na alma e na carne, quando jovem, ao se apaixonar por um soldado alemão durante a ocupação nazista da França. O amante foi morto em combate, e ela acabou punida pelo envolvimento. Entretanto, para além das lembranças pessoais, é a memória coletiva que interessa a Resnais, o que já estava evidente em alguns de seus primeiros curtas As Estátuas também Morrem, de 1953 e, sobretudo, em "Noite e Neblina, de 1955, e em "Toda a Memória do Mundo, de 1956.

Em "Noite e Neblina", um documentário sobre os campos de extermínio nazista, o texto do escritor Jean Cayrol servia de alerta contra os riscos do esquecimento: "Onde estão os futuros carrascos? Com certeza entre nós...".

Neste sentido, Hiroshima, Meu Amor" é acima de tudo um filme político, em que o romance individual serve de guia para a lição coletiva expressiva nas palavras do texto de Duras, que reitera os riscos "da desigualdade posta em princípio por alguns povos contra outros povos, da desigualdade posta em princípio por algumas raças contra outras raças, "da desigualdade posta em princípio por algumas classes contra outras classes".

Em "Hiroshima, Meu Amor" o tempo e a memória servem de matéria na construção de uma obra que se posiciona contra os riscos do esquecimento. 

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sexta-feira, 6 de março de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'O Falcão Maltês'

Nota: Filme exibido para os associados no dia 31/01/26

Adaptação do romance "O Falcão Maltês", de Dashiell Hammett, traz Sam Spade (Humphrey Borgart) como um detetive solitário, implacável, preconceituoso e, no geral, vitorioso a cada novo combate. Não se trata de um corrupto. Ele tem seu próprio código de honra. Quanto aos criminosos, a violência e a ganância são tão exageradas que despertam comicidade. Assim, mesmo brutos e ambiciosos, não chegam a ser opor a Spade.

O público é levado a escolhê-lo como mocinho por razões mais sutis que por uma conduta exemplar, complexidade que fortalece o filme. O detetive tem sua manias, é homofóbico declarado e vivendo batendo sem motivos razoáveis no impostor Joel Cairo (Peter Lorre). Spade é frio.

Quando violento, cumpre sua missão rapidamente. O sócio é assassinado e ele não se abala. Respeita as formalidades, mantém as aparências e beija a viúva em segredo. O herói assim construído levou Bogart e Huston a carreiras de sucesso em Hollywood. Pode-se argumentar que a personalidade do detetive já estava construída no romance de Hammett. A história, no entanto, já tinha sido filmada duas vezes com personagens mais amenos e final feliz. A manutenção dos aspectos mais sórdidos do romance foi mérito de Huston e Bogart.

Quanto ao estilo, Huston também foi cuidadoso. Montou um storyboard detalhado para planejar as cenas e tomadas. Uma das mais marcantes é a sequência de sete minutos (ensaiada por dois dias) em que Spade e Kasper Gutman (Sydney Greenstreet) entram e saem de diversas salas. "O falcão Maltês" é considerado como o longa que inaugura o gênero noir americano. Durante os anos de 1940, o noir se constituiu como estilo dominante nos filmes policiais e de mistério.

Entre as suas características, estão as ruas escuras, perigosas e seus habitantes, homicidas em potencial, mulheres fortes cujo apelo sexual é utilizado para desviar os homens de sua conduta moral e enfraquecê-los. No centro, o herói Spade luta em duas frentes. Contra bandidos e contra sua agressividade latente. "O Falcão Maltês" é adaptação de romance policial que inaugura o gênero noir e concede a Bogart o status de ícone.         


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Cine Dica: Sessão de sábado no Clube de Cinema: "O detetive e a morte" (07/03) na Cinemateca Capitólio

Neste sábado, dia 7 de março, às 10h15 da manhã, nos reunimos na Cinemateca Capitólio para a exibição de O Detetive e a Morte, obra do cineasta espanhol Gonzalo Suárez.

Livremente inspirado em um conto de Hans Christian Andersen, o filme combina fábula moral, cinema noir e distopia futurista para construir uma narrativa ao mesmo tempo alegórica e inquietante. Em uma cidade europeia marcada por tensões raciais e por um poder econômico que parece absoluto, um detetive atravessa um universo artificial e hostil enquanto investiga um caso que o conduz a figuras arquetípicas: a mãe em luto, o magnata que acredita poder tudo controlar e a própria morte — a única instância que não se deixa corromper.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 07/03, às 10h15 da manhã

📍 Local: Cinemateca Capitólio

Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico – Porto Alegre


O Detetive e a Morte (El detective y la muerte)

Espanha, 1994, 108 min

Direção e roteiro: Gonzalo Suárez

Elenco: Javier Bardem, María de Medeiros, Carmelo Gómez

Sinopse: Em uma cidade europeia agitada por tensões raciais, um poderoso magnata precisa enfrentar a única coisa que não pode enganar nem corromper: a morte. Enquanto isso, um detetive tenta encontrar a mulher que ama e uma jovem mãe o segue na esperança insana de trazer de volta à vida o filho morto.

Até sábado!

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'O Gosto de Cereja'

 Nota: Filme exibido para os associados no último sábado (10/01/26).

Infelizmente eu fui somente conhecer  Abbas Kiarostami  a partir do filme "Cópia Fiel" e do qual me enfeitiçou em uma distante sessão orquestrada pelo jornal ZH. De lá pra cá, logicamente, fui conhecendo os seus feitos e fazendo com que eu adentrasse ainda mais o cinema iraniano como um todo. Pode-se dizer que se não fosse por  Abbas Kiarostami, somente ficaria conhecendo o Irã pelo lado parcial do cinema norte americano, ou até mesmo pela imprensa sensacionalista como um todo.

No cinema de  Kiarostami  não há pressa para apresentação da trama, sendo que em muitos momentos a ficção transita para um lado documental e fazendo com que não tenhamos uma dimensão exata de onde começa e onde termina o que é real. Claro que o cinéfilo mais atento irá notar atores amadores, ou simplesmente pessoas comuns que cruzam em seus projetos, mas que acabam dando um acréscimo a mais para render um grande espetáculo. "O Gosto de Cereja" (1997) talvez seja uma das obras mais pessoais do diretor e revelando um pouco de sua pessoa.

Na trama, um homem (Homayoun Ershadi) viaja pelos campos, tentando angariar trabalhadores avulsos para satisfazer seus desejos reprimidos: Ele procura alguém que o ajude a morrer, mas vive em uma sociedade onde suicídio é uma abominação. No decorrer dessa busca ele acaba por ouvir a opinião de alguns e a repulsa de outros com relação ao seu pedido inusitado.

Antes desse filme Kiarostami já tinha uma predileção em contar tramas em que o protagonista dirige um carro e nos convida para adentrar em uma trama que é apresentada aos poucos. Basta pegarmos, como exemplo, o longa "A Vida Continua" (1993), obra que transita muito mais pelo lado documental, já que testemunhamos um Irã ainda se reestruturando devido a um terremoto devastador. Curiosamente, o realizador vai justamente na cidade para reencontrar os atores de "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" 1987) e vê-los se estão todos bem.

No caso de "O Gosto de Cereja" vemos através do protagonista um Irã sempre em  movimento, seja em uma pedreira, em uma usina ou em um determinado quartel. O protagonista somente observa esses lugares e busca uma forma de convencer alguém a lhe fazer um trabalho inusitado e do qual pode culminar no seu último dia neste mundo. O protagonista não revela aos seus passageiros mais ou menos o que quer, mas causando reações distintas de cada um e fazendo com que o longa se torne ainda mais verossímil na medida em que a trama avança.

Obviamente se percebe que não vemos atores em cena, mas sim pessoas comuns em meio ao trabalho, mas que são interrompidos pela chamada do protagonista. Ao meu ver, com certeza era o próprio diretor chamando as pessoas para se sentarem no banco de passageiro enquanto ele filmava a ação e reação dessas pessoas durante as suas perguntas. O resultado é de um verdadeiro assombro de genialidade e que revela muito mais do que se imagina dessas pessoas comuns, porém, com histórias que foram ou poderiam ter sido contadas se algumas tivessem atendido o seu pedido.

Homayoun Ershadi até então era um completo desconhecido no seu país de origem. Através desse longa, porém, ele se tornou um dos rostos mais marcantes do cinema de Kiarostami, ao construir para si um personagem que tem um único pensamento em acabar com tudo, mas tendo que obter ajuda e seguindo em uma cruzada em busca da pessoa ideal para colocar em prática esse feito. Na medida em que o tempo passa não queremos que ele encontre a pessoa certa, não porque queremos que ele continue com vida, mas sim para podermos apreciar ainda mais a sua jornada.

Assim como em suas demais obras, o diretor filma como ninguém as estradas de chão que levam os seus protagonistas para determinados lugares, ou simplesmente para lugar algum desde que a história continue. O último passageiro, por sua vez, não somente conta sobre a sua pessoa, como também dá um incentivo para que o protagonista busque uma razão para continuar vivendo, desde em prestar atenção ao céu, como também sentir o gosto de determinados alimentos que nós degustamos em determinada estação. o título do filme vem daí e obtendo um peso maior de significado.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes na época, o filme dividiu opiniões, mas ganhando força através do tempo. O filme serviu até mesmo de inspiração para o próprio realizador em filmar outras tramas que ocorrem dentro de um automóvel, que vai ao filme "Dez" (2002) como também o já citado "Cópia Fiel". Curiosamente, isso também serviu de inspiração para outros diretores, como foi no caso de  Jafar Panahi ao  realizar o seu longa "Táxi de Teerã" (2015).

Com um final em aberto, mas ao mesmo tempo surpreendente, "Gosto de Cereja" é uma das obras mais pessoais de Abbas Kiarostami, do qual fala muito sobre a sua pessoa e sobre um Irã que o ocidente ainda não enxerga.  

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Os Mestres do Tempo" (09/12, ter) na Sala Redenção

O último encontro do nosso Ciclo de Animação, promovido em parceria com a Sala Redenção da UFRGS, será na terça-feira, 9 de dezembro, às 19h, com a exibição de "Os Mestres do Tempo" (1982), de René Laloux, diretor do cultuado "Planeta Fantástico".

Baseado no romance L'Orphelin de Perdide, de Stefan Wul, e com o design visual do ilustradror francês Moebius, o filme é uma ficção científica animada que narra a corrida contra o tempo da tripulação da nave Cosmos para salvar uma criança presa em um planeta inóspito. Em uma jornada repleta de criaturas fantásticas e paisagens surrealistas, Laloux tece uma reflexão poética sobre destino, amadurecimento e a relatividade do tempo.

Após a sessão, teremos um debate especial com o escritor André de Carvalho, especialista em ficção científica, autor de Zona Livre e vencedor do Prêmio Geek de Literatura 2023.


Confira os detalhes:


📅 Data: Terça-feira, 9 de dezembro de 2025

⏰ Horário: 19h

📍 Local: Sala Redenção – Cinema Universitário (UFRGS)

Rua Eng. Luiz Englert, 333 – Campus Centro, Porto Alegre

🎤 Debatedor convidado: André de Carvalho

🎟️ Entrada franca

Os Mestres do Tempo (Les Maîtres du Temp)

França / Suíça / Alemanha Ocidental / Reino Unido / Hungria

1982, 78 min, livre

Direção: René Laloux

Sinopse: O pequeno Piel está isolado e em perigo em um planeta hostil após um ataque de criaturas gigantes. A milhares de anos-luz de distância, Jaffar, sua irmã e o piloto Silbad lançam-se em uma missão quase impossível para resgatá-lo. Em sua viagem pela galáxia, a tripulação da nave Cosmos enfrentará paradoxos temporais e encontrará civilizações extraordinárias, em uma aventura que desafia os limites da realidade.

Esperamos por você para encerrarmos juntos o nosso Ciclo de Animação 2025!

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Cine Dica: Clube de Cinema: "Uma Mulher Diferente" (06/12 na Cinemateca Paulo Amorim)

Nosso encontro deste sábado será às 10h15 da manhã, na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, com a exibição de Uma Mulher Diferente (Différente, 2025), novo filme da diretora francesa Lola Doillon.

Com delicadeza, humor e uma sensibilidade rara, o longa acompanha Katia Rousseau, interpretada pela excelente Jehnny Beth, uma documentarista que, já adulta, descobre ser autista. Essa revelação transforma sua forma de ver o mundo e, sobretudo, de viver o amor.  Doillon constrói uma narrativa profundamente humana, que equilibra emoção e leveza ao tratar de neurodivergência feminina, afeto e autoconhecimento. É uma história sobre aceitação, vulnerabilidade e a beleza de não precisar se encaixar. 


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 06/12/2025, às 10h15 da manhã

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre

Uma Mulher Diferente (Différente)

França, 2025, 100 min, 14 anos

Direção e roteiro: Lola Doillon

Elenco: Jehnny Beth, Thibaut Evrard, Mireille Perrier, Irina Muluile, Philippe Le Gall

Sinopse: Katia Rousseau, uma documentarista brilhante, descobre na vida adulta que é autista. A partir dessa revelação, repensa sua relação consigo mesma e com o amor, trilhando um caminho de autoconhecimento, humor e ternura ao lado de Fred. Uma comédia romântica sensível, profundamente humana e repleta de empatia.

Esperamos por você!

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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Cine Dica: Sessão Clube de Cinema (13/09) - "Lúcia e o Sexo" na Cinemateca Capitólio

Nosso encontro deste sábado será às 10h15 da manhã, na Cinemateca Capitólio, com a exibição de Lúcia e o Sexo (2001), dirigido pelo cineasta espanhol Julio Medem.

O filme acompanha Lúcia (Paz Vega), uma jovem que, após uma crise no relacionamento com o escritor Lorenzo (Tristán Ulloa), parte para uma ilha isolada. Lá, passado e presente começam a se entrelaçar de maneira quase onírica, mesclando realidade, ficção e fantasia. Com uma fotografia solar, cenas de forte erotismo e narrativa fragmentada, Medem constrói um dos filmes mais marcantes de sua carreira — sensual, poético e existencial.


Confira os detalhes:

SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 13/09/2025, às 10h15 da manhã

📍 Local: Cinemateca Capitólio

Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre

Lúcia e o Sexo (Lucía y el sexo, Espanha, 2001, 128 min, 18 anos)

Direção: Julio Medem

Elenco: Paz Vega, Tristán Ulloa, Najwa Nimri, Daniel Freire, Elena Anaya

Sinopse: Lúcia, uma jovem madrilenha, busca refúgio em uma ilha ao descobrir segredos e traumas em seu relacionamento com Lorenzo, um escritor atormentado. Naquele espaço entre sol e mar, os limites entre a realidade e a imaginação se dissolvem, revelando desejos, dores e fantasias em uma narrativa de erotismo e lirismo.

Nos vemos lá!

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sexta-feira, 2 de maio de 2025

Cine Dica: Sessão Clube de Cinema (26/04) - "Bolero: A Melodia Eterna" na Cinemateca Paulo Amorim

Neste sábado, nosso encontro será na Cinemateca Paulo Amorim para assistirmos Bolero: A Melodia Eterna, novo filme da cineasta Anne Fontaine. Um drama musical que resgata a criação de uma das composições mais famosas da música clássica, mergulhando na intimidade do compositor Maurice Ravel e na efervescência artística da Paris dos anos 1920.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO SÁBADO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 03/05/2025, às 10h15 da manhã

📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim – Sala Norberto Lubisco

(Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre)

Bolero: A Melodia Eterna

(Bélgica/França, 2024, 120 minutos, 14 anos)

Direção: Anne Fontaine

Elenco: Raphaël Personnaz, Doria Tillier, Jeanne Balibar


Sinopse: Paris, década de 1920. A empresária Ida Rubinstein escolhe Maurice Ravel para compor o balé de sua próxima produção. Em busca de inspiração, o compositor mergulha em suas memórias, amores e fracassos para dar forma à sua obra-prima: o Bolero.

Nos vemos lá!

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