Nota: Filme visto pelos associados do clube no último dia 01/08/16.
Sinopse: Dois barqueiros disputam passageiros em River Junction: o capitão William Canfield e o poderoso John James King. Um dia, o filho de William chega à cidade e apaixona-se por Marion King, a filha do rival.
Era o final dos anos 20 e o cinema já estava dando sinais de que passaria por uma metamorfose devido ao surgimento do recurso do som. Filmes como "Don Juan" (1926), "O Cantor de Jazz" (1927) e "Luzes de Nova York" (1928) foram pioneiros ao fazer o público testemunhar os protagonistas falando em alto e bom som, proclamando a gradual extinção do cinema mudo. Neste cenário de mudanças, alguns ainda persistiam em tentar manter as suas raízes, e esse alguém foi Buster Keaton.
Construindo uma carreira mágica através da comédia, Buster Keaton não era somente um mero comediante, mas também um realizador de suas obras, além de sempre se arriscar em cenas perigosas que deixariam qualquer dublê com a maior inveja. Pertencente ao cinema independente, Keaton sempre optou por não se vender aos grandes estúdios para não perder o controle criativo, mesmo quando era avisado pelos engravatados de que era necessário abraçar um novo rumo, já que os ventos da mudança estavam acontecendo. Em meio a essa incerteza, ele viria a lançar "Marinheiro de Encomenda" (1928), sendo apontado pelos historiadores como a sua última grande obra-prima.
Dirigido pelo seu colaborador Charles Reisner, o filme conta a história de William Canfield Jr. (Buster Keaton), que decide conhecer o seu pai, um bronco capitão de barco que trabalha transportando pessoas pelo rio Mississippi. Canfield encontra-o sofrendo com a concorrência do rico banqueiro John James King (Tom McGuire) e se vê forçado a ajudar na salvação do negócio familiar. William se envolve com Kitty King (Marion Byron), filha do inimigo, o que complica ainda mais a sua situação como um todo.
Pode-se dizer que o filme é uma espécie de releitura do seu maior clássico, A General (1926). Aqui, trocam-se os trens de locomotiva para dar lugar aos grandes barcos das águas do Mississippi, fazendo com que o protagonista tenha que lidar com toda a novidade desse cenário que transita entre a beleza e o lucro local. O desentendimento entre pai e filho talvez seja um dos pontos máximos da obra como um todo, já que o bronco capitão não aceita o seu filho como ele é, enquanto este último procura se manter da maneira como Deus o fez.
Não faltam momentos hilários entre os dois juntos, sendo que a minha cena preferida se encontra na loja de chapéus, onde o pai experimenta vários na cabeça do protagonista, mas nenhum o satisfaz. Como sempre, Buster Keaton mantém aquela cara séria, cujos trejeitos cartunescos são uma bela representação da era de ouro de um cinema em que o humor físico falava mais alto. Nesta última observação, o filme alcança todos os seus êxitos.
Sem sombra de dúvida, o ato final entra na lista dos melhores momentos da carreira do intérprete, no qual o seu personagem enfrenta um grande vendaval que o faz entrar em diversas enrascadas. Não faltam momentos hilários, desde quando ele se esconde dentro de uma casa para, logo depois, vê-la ser desmanchada pelo vento, até quando uma fachada inteira cai sobre ele — e ele só não se machuca porque o vão da janela o salvou. Não me admira que o ator tenha servido de inspiração para talentos ilustres da comédia de ação, como é o caso de Jackie Chan.
Infelizmente, o filme não foi o sucesso que Buster Keaton esperava, o que o fez aceitar a proposta dos grandes estúdios para continuar trabalhando. O resultado seria a perda da sua liberdade criativa ao longo dos anos, deixando para trás os seus tempos mais dourados. Conforme o tempo foi passando, a obra passou a ser reconhecida como um dos grandes trabalhos de sua carreira, marcando o final de uma era inesquecível do cinema mudo.
"Marinheiro de Encomenda" foi o começo do fim para a carreira do brilhante Buster Keaton, mas continua sendo visto hoje com muito carinho pelos fãs da comédia dos tempos mais dourados.
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