Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador #cinema #clubedecinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #cinema #clubedecinema. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Três Mulheres'

 Nota: Filme visto pelos associados no dia 30/05/26


Quando se pensa no cinema sueco, imediatamente se pensa em Ingmar Bergman. Ao longo de sua impecável carreira, o realizador criou filmes enigmáticos nos quais falava sobre si mesmo, sobre sonhos, solidão, comportamento e até o papel da religião na vida do ser humano. Não é à toa que o cineasta serviu de inspiração para realizadores no mundo inteiro.

Woody Allen, por exemplo, bem que tentou em "Interiores" (1978), mas alcançou um equilíbrio perfeito entre a homenagem e sua própria visão autoral em "Crimes e Pecados" (1989). Já o nosso Walter Hugo Khouri chegou bastante perto da essência de Bergman através de "Noites Vazias" (1964). Contudo, é de surpreender o resultado final de "Três Mulheres" (1977). Talvez um dos títulos menos conhecidos da filmografia de Robert Altman, quando revisto, torna-se notório que o realizador buscou inspiração na obra do diretor sueco.

Robert Altman nunca se prendeu a uma única assinatura visual ou temática na realização de suas obras; preferia experimentar todos os gêneros que lhe dessem na telha, importando-se pouco se o resultado seria um sucesso ou um fracasso de bilheteria. Não foi alguém que se entregou aos padrões convencionais de Hollywood, tanto que seus títulos mais conhecidos diferem drasticamente entre si. Basta pegarmos obras como "M.A.S.H." (1970) e "Nashville"(1975) para termos um bom exemplo disso.

Segundo as próprias palavras do realizador, ele fez Três Mulheres inspirado em um sonho incomum que teve em uma determinada noite. Na trama, Pinky Rose (Sissy Spacek) é uma jovem que acaba de conseguir um emprego em um spa de idosos. Mildred (Shelley Duvall) é a encarregada de orientar Pinky sobre o serviço. A jovem se encanta por Millie e logo se torna sua amiga. Ironicamente, ninguém gosta de Millie, mas ela tenta passar a imagem de ser muito popular. Pinky fica cada vez mais dependente da nova amiga, mas essa ligação obsessiva ameaça se romper quando ela vê que Millie levou para o apartamento Edgar Hart (Robert Fortier), um cowboy casado com Willie Hart (Janice Rule), uma artista local que está grávida.

Através da relação entre as duas protagonistas, Robert Altman faz uma síntese de um período de mudanças comportamentais que já vinha ocorrendo há algum tempo em solo norte-americano, mesmo que uma sociedade conservadora tentasse negar. Pinky é a representação da jovem que busca desabrochar espelhando-se em alguém que admira, mas sem saber ao certo como conquistá-la. Já Millie é alguém que insiste em se manter no lado convencional da sociedade, enganando a si mesma e perdendo a própria identidade. Curiosamente, o acidente que Pinky sofre na piscina funciona como uma válvula de escape, e é a partir daí que o filme muda completamente.

É neste ponto que a obra me faz relembrar "Persona" (1966), no qual Ingmar Bergman brinca com a dualidade e as identidades reais de suas protagonistas. No caso deste longa, Altman lança diversas teorias sobre as reais personalidades e intenções de suas personagens, onde o sonho se torna uma peça desse mistério — mas sem ser exatamente primordial, para dizer o mínimo. Quem assiste nunca obtém uma resposta fácil, mas, ao revisitarmos a obra, nota-se o quanto o filme cresce à medida que levantamos novas possibilidades.

Curiosamente, a personagem de Janice Rule seria a terceira mulher do título, embora tenha menos tempo de tela. Porém, seu papel acaba se tornando fundamental para a movimentação das peças dentro da trama, já que ela é ambígua, de poucas palavras e exerce um curioso trabalho com suas pinturas. Estas, por sua vez, funcionam como uma referência ao status de cada personagem no decorrer da história, ou simplesmente representam os demônios interiores que aquelas mulheres buscam conter.

No meu entendimento, este é um filme que fala sobre o vazio das mulheres em um período no qual o lado hipócrita e abusivo do homem já estava desgastado demais para ser tolerado. Ao mesmo tempo, reflete tempos em que as mulheres lutavam por posses e independência individual, quando, na verdade, o verdadeiro poder se encontrava na união entre elas, em um mundo que se tornava cada vez mais cruel e desumano. O ato final me despertou esse pensamento, mas claro que posso estar errado, e talvez tenha sido exatamente esse efeito de ambiguidade que Robert Altman queria obter de quem assistisse ao seu enigmático enredo.

"Três Mulheres" talvez tenha sido uma homenagem indireta de Robert Altman a Ingmar Bergman, mas que se tornou algo único e enigmático através dos anos, conquistando a sua própria identidade no cinema.


  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "A Chinesa" (11/06, quinta-feira) na Sala Redenção da UFRGS


Nesta quinta-feira, 11 de junho, às 19h, o Clube de Cinema de Porto Alegre realiza, na Sala Redenção da UFRGS, mais um encontro do ciclo Nouvelle Vague e suas influências, com a exibição de A Chinesa (1967), do cineasta francês Jean-Luc Godard. Após a sessão, o filme será comentado por Juliana Costa, professora, programadora e crítica de cinema, e Alexandre Guilhão, cineasta e historiador. O ciclo faz parte de uma ação de extensão da UFRGS e oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares por estudantes. Inscreva-se!

Lançado em meio às transformações políticas e culturais que antecederam o Maio de 1968 na França, A Chinesa acompanha um grupo de jovens estudantes parisienses que se reúne em um apartamento durante as férias para discutir política, revolução e os ensinamentos de Mao Tsé-Tung. Misturando ficção, ensaio e experimentação formal, Godard constrói uma reflexão provocadora sobre militância, ideologia e o papel da juventude na transformação social.

⚠️ Últimos dias para votar! Até o dia 10 de junho, você pode apoiar o projeto do Clube de Cinema para preservar quase 80 anos de história em um website gratuito. A votação leva cerca de 1 minuto: acesse o site, cadastre seus dados, escolha um projeto da saúde e, em "Demais Áreas", selecione Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Contamos com sua ajuda!


Confira os detalhes da sessão:

SESSÃO DE QUINTA-FEIRA NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: 11/06 (quinta-feira), às 19h

📍 Local: Sala Redenção – UFRGS

R. Eng. Luiz Englert, 333 – Bairro Farroupilha, Porto Alegre

🎤 Sessão comentada com Juliana Costa e Alexandre Guilhão

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade


A Chinesa (La chinoise)

França, 1967, 96min

Direção e roteiro: Jean-Luc Godard

Elenco: Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Léaud, Michel Séméniako, Juliet Berto, Lex De Bruijn, Omar Blondin Diop, Francis Jeanson.

Sinopse: Em um apartamento parisiense, um grupo de jovens militantes dedica as férias ao estudo do maoísmo e à discussão de estratégias revolucionárias. 

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Como Era Verde o Meu Vale'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 30/05/26

Baseado em um best-seller de sucesso daquela época, esta história sobre a vida nas minas de carvão galesas é repleta de calor humano, paixão, atritos e quase todos os outros elementos que moldam o lado puro do ser humano, à altura dos padrões cinematográficos daqueles tempos dourados do cinema norte-americano. É uma história com alma, criada de forma perfeccionista por Richard Llewellyn, e a incrível fotografia em preto e branco de John Ford, a partir de um ótimo roteiro de Philip Dunne, só precisava de uma escolha de elenco impecável para completar o trabalho. Nesse aspecto, os Deuses do cinema sorriram para os realizadores.

As atuações são impressionantes do começo ao fim: refinadas e, ao mesmo tempo, vigentes; intensas, porém  de uma forma sutil em seus simbolismos mais significativos; felizes e tristes, românticos e frustrados, com nuances e atmosferas, cores e contrastes perfeitamente cativantes. Em suma, é uma demonstração da arte cinematográfica em sua melhor forma.

E, acima de tudo, há um potencial novo astro mirim em Roddy McDowall. O jovem pode se provar o equivalente infantil deste estúdio a Shirley Temple, uma pequena e inspirada atriz que já atuou em filmes ingleses. Ele é cativante, másculo e historicamente competente de uma maneira íntegra e vigorosa.

A transição do livro para a tela também utiliza a narrativa em primeira pessoa do singular, com descrições vívidas de quão verde, de fato, era o vale do jovem Huw (pronuncia-se Hugh) Morgan, enquanto ele relembra sua vida desde a infância. Graficamente e com plena adequação de cena e diálogo, é revelada a plenitude da vida honesta, temente a Deus e industrial dos Morgans no vale galês.

Há quatro Morgans robustos que, como Morgan, pai, cada um de sua geração, trabalham nas minas de carvão. Tranquilidade doméstica, amor pelo lar, romance, o novo pregador, o trote do rapaz na escola, a surra do professor valentão, sua decisão de abrir mão das vantagens acadêmicas e seguir os passos betuminosos de seus parentes mais próximos, o burburinho dos vizinhos intrometidos, os Cantores Galeses (vocalizando a si mesmos) que são convocados à Corte para um concerto da Rainha, os canecos de cerveja prontos para todo o Vale, os movimentos sindicais contra a queda dos salários e as condições de trabalho cada vez mais precárias, a partida de dois filhos Morgan para buscar fortuna na América – tudo isso, e muito mais, é traduzido de forma astuta, concisa e atraente para o cinema.

"Como Era Verde o Meu Vale" é um filme que guarda muitas lembranças e é essa qualidade nostálgica que deve gerar um valioso boca a boca. 


  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

Cine Especial: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Betty Blue" (06/06) na Cinemateca Paulo Amorim


No sábado, dia 6 de junho, nos reunimos às 10h15 na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir Betty Blue, de Jean-Jacques Beineix. Lançado em 1986, o filme tornou-se uma das obras mais emblemáticas do chamado Cinéma du look, movimento que marcou o cinema francês da década de 1980 por sua forte estilização visual e intensidade emocional. A narrativa acompanha o relacionamento entre Zorg, um aspirante a escritor que vive de trabalhos temporários, e Betty, uma jovem impulsiva e apaixonada. O que começa como uma história de amor transforma-se gradualmente em um retrato complexo de desejo, obsessão, fragilidade emocional e criação artística.


⚠️ Ajude o Clube de Cinema a preservar 80 anos de história!

Estamos concorrendo a uma emenda parlamentar para criar um website gratuito com fotografias, documentos, entrevistas e outros materiais sobre a trajetória do Clube de Cinema de Porto Alegre. Para votar, basta preencher o formulário neste link, escolher um projeto da área da saúde e, em "Demais Áreas", selecionar Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). A votação leva cerca de 1 minuto e os projetos mais votados serão contemplados.


Confira os detalhes da programação:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 06/06, às 10h15 da manhã

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre

Betty Blue (37°2 le matin)

França, 1986, 119min

Direção: Jean-Jacques Beineix

Elenco: Béatrice Dalle, Jean-Hugues Anglade, Gérard Darmon e Consuelo De Haviland

Sinopse: Zorg é um escritor solitário que vive na costa mediterrânea da França. É lá que ele conhece Betty, uma jovem de 22 anos intensa e imprevisível que transforma completamente a sua vida. Por alguns meses, os dois vivem uma relação marcada por episódios de obsessão, loucura, ciúmes e um amor quase incondicional. Baseado no romance homônimo de Philippe Djian, o filme foi uma das maiores bilheterias do cinema francês e teve indicações ao Oscar, Bafta e César. O relançamento, com cópia recuperada em 4k, comemora os 40 anos do filme e traz a sua versão original.

Sobre o Filme: Na abertura, em que Zorg (Jean-Hugues Anglade) e Betty (Béatrice Dalle) transam na frente do quadro da  Mona Lisa, "Betty Blue" (1986) acaba se tornando contagiante na medida em que os minutos passam. Um curioso caso de filme dramático em que a história de amor, e não exatamente as coisas que eles prezam, se tornam o foco principal. Zorg, é um pau para toda obra, não tendo muitas ambições no decorrer de sua vida. Ao conhecer Betty a mesma acaba morando com ele e ambos vivem uma tórrida relação que transita entre o amor e a loucura.

"Betty Blue" pode ser interpretado tanto a frente do seu tempo como também como um longa que sintonizou a nova geração daquele período de 1986. Pode ser analisado como uma representação de uma geração francesa que buscava a sua identidade própria. Zorg vai até o fundo do poço por Betty, desde agredir, roubar e até mesmo quase a matar. Tudo por Betty, mesmo com a possibilidade de leva-lo à ruína iminente.


Confira a minha crítica completa já publicada clicando aqui. 

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cine Dica: Sessão dupla no Clube de Cinema: "A Sombra do Vampiro" (11/04) no Capitólio e "Virtuosas" (12/04) na Cinemateca Paulo Amorim

Neste final de semana, teremos uma sessão dupla de arrepiar no Clube de Cinema! 👻

No sábado, 11 de abril, o Clube de Cinema se reúne na Cinemateca Capitólio para a sessão de A Sombra do Vampiro, de E. Elias Merhige, estrelado por Willem Dafoe e John Malkovich. A história revisita o mito por trás das filmagens de Nosferatu, imaginando um F. W. Murnau obcecado por realismo a ponto de escalar um vampiro de verdade para viver a criatura da noite (será?).

Já no domingo, 12 de abril, nos reuniremos na Cinemateca Paulo Amorim para a exibição de Virtuosas, novo longa de Cíntia Domit Bittar, encontro promovido em parceria com o Fantaspoa. No filme, um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa. A sessão contará com a presença da equipe.


Confira os detalhes da programação:


SÁBADO (11/04, 10h15)

A Sombra do Vampiro (Shadow of the Vampire)

EUA, 2000, 95min

Direção: E. Elias Merhige

Roteiro: Don Houghton

Elenco: John Malkovich, Willem Dafoe, Udo Kier, Eddie Izzard

📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre

Sinopse: Durante as filmagens de Nosferatu, na década de 1920, o diretor F. W. Murnau leva seu desejo de realismo a consequências extremas ao contratar um ator misterioso para viver o vampiro. À medida que a produção avança, a equipe começa a desconfiar que há algo profundamente errado, e possivelmente sobrenatural, por trás da performance.


DOMINGO (12/04, 10h15)

Virtuosas

Brasil, 2025, 90min

Direção: Cíntia Domit Bittar

Elenco: Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta, Brisa Marques

📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre

🎤 Sessão comentada com a equipe do filme.

Sinopse: Três mulheres participam de um retiro voltado ao aperfeiçoamento de seus papéis como esposas e mães, sob a liderança de uma figura carismática e enigmática. O que começa como uma experiência de autodesenvolvimento gradualmente se transforma em algo assustador e perigoso.



⚠️ AVISO EXTRA: Também no sábado, 11, às 15h, nossa diretora de comunicação, Kelly Demo Christ, participa de um debate sobre O Agente Secreto, a partir da questão: por que precisamos falar sobre o passado? promovido pela AAMICCA.

Encontro gratuito na Cinemateca Capitólio (Sala Multimídia Décio Andriotti, 3º piso).

Convidados: Nilo André Piana de Castro (Colégio de Aplicação da UFRGS) e Kelly Demo Christ (Clube de Cinema e ACCIRS)

Mediação: Pedro Guindani (AAMICCA)


 Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Sorte Cega'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 21/02/26.  

Sinopse: Sinopse: Diante de um futuro incerto, Witek, um jovem estudante de Medicina polonês, suspende seus estudos e corre para pegar um trem rumo a Varsóvia. A partir desse instante, o filme apresenta três desdobramentos possíveis de sua vida, cada um determinado por ter alcançado ou não o trem — e pelas escolhas que se seguem. 

O termo loops se dá a determinadas tramas em que o protagonista se vê na mesma história, mas da qual testemunhamos versões diferentes de acordo com pequenos detalhes que fazem a diferença. Um dos primeiros filmes que eu assisti ao explorar isso foi no alemão  "Corra Lola, Corra" (1998), de  Tom Tykwer, mas sendo que antes disso havia sido moldado com o paladar hollywoodiano em "Feitiço do Tempo" (1993). Porém, "Sorte Cega" (1987) acaba sendo mais ousado ao colocar o protagonista diante de escolhas com relação aos rumos que o seu próprio país está vivendo.

Dirigido por Krzysztof Kieślowski, da trilogia das cores, o filme conta a história que se passa na Polônia, em 1981, onde o estudante de medicina Witek (Boguslaw Linda) pede uma licença de um ano da faculdade após a morte de seu pai, para repensar sua vocação. Ele decide viajar para Varsóvia, mas enquanto corre para tentar alcançar o trem na estação, três possíveis eventos acontecem. Na primeira possibilidade, Witek alcança o trem e reencontra sua ex-namorada, que pertence a um movimento clandestino anti-comunista, e acaba se juntando ao partido. No segundo evento, Witek é pego por um guarda na estação e reage, sendo enviado para julgamento e condenado a 30 dia de serviço comunitário. Ele se junta a um grupo de estudantes contrários ao sistema e publica artigos na imprensa underground. Na terceira possibilidade, ele não alcança o trem e decide voltar à universidade, casa-se com sua namorada e os dois se formam em medicina.

Conhecido por filmes com teor político, mesmo de forma subliminar, Kieślowski sofreu com a censura do seu próprio país ao lançar esse filme da sua maneira. Porém, a obra foi somente liberada em 1987, em um período em que o calor do conflito que estava acontecendo na Polônia já estava adormecendo. Antes tarde do que nunca, pois o longa capricha em uma trama em que se explora pequenos gestos ou atitudes que fazem toda a diferença com relação ao destino do indivíduo. No caso do protagonista visto na trama, não importa quais caminhos ele toma, pois o seu destino está traçado de acordo com o impasse do seu próprio país que se encontra naquele momento.

Os pequenos detalhes que moldam o destino do protagonista se concentram na estação do trem, sendo causado por uma simples moeda, ou pelo tropeço que o protagonista faz contra um mendigo que está tomando uma cerveja. Quando começa essa cena já sabemos que há uma nova chance para o protagonista trilhar, mas sempre o levando por um caminho sem volta e do qual não consegue escapar. Sem nenhum aprofundamento com relação a teorias sobre viagem no tempo, mas sim somente explorando o lado mais humano das escolhas que o indivíduo toma e que define a sua pessoa.

Boguslaw Linda dá um show de interpretação ao interpretar  Witek em três situações que o moldam como pessoa. Em algumas situações, por exemplo, nem parece a mesma pessoa de acordo com os rumos que escolheu a partir do momento em que alcança, ou não, o trem que tanto corria para alcançar. Isso faz com que tenhamos uma dimensão da maneira como um indivíduo tem diversas escolhas para tomar um rumo, mas tendo que aceitar o fato que as suas decisões podem mudar completamente o seu curso que havia traçado.

Diante disso Krzysztof Kieślowski capricha em planos sequências caprichados, onde em alguns momentos a câmera se torna a representação da perspectiva do protagonista, para logo depois tomarmos o seu lugar e vermos a sua expressão diante dos fatos que ocorrem em cena. Além disso, o cineasta prega uma ficção alinhada com o teor quase documental, onde a sua câmera acompanha os seus personagens de forma granulada, tremida e como se nos passasse o fato que aquilo é verossímil, ao menos é o que ele anseia que a gente sinta isso. Tudo alinhado com uma fotografia sombria, onde as cores vibrantes dos anos oitenta não obtêm espaço diante de um país indefinido com relação ao seu próprio futuro.

A terceira e última história se torna o momento mais simples e claro do longa, mas não menos chocante diante da cena final que nos faz refletir sobre o filme após a sua sessão. Ao final, constatamos que não teremos saída enquanto um governo estiver sempre em conflito com os seus interesses mesquinhos e fazendo da democracia se tornar um mero sonho. Não é sempre que uma ideia extraída da mais pura ficção nos rende algo que nos faça pensar sobre o que nos faz seres humanos diante das diversas escolhas que nós tomamos.

"Sorte Cega" é um mosaico de possibilidades que podemos obter a partir de nossas escolhas, mas tendo o risco de sempre adentrarmos em um beco sem saída. 

 Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

Cine Dica: Sessão de sábado no Clube de Cinema: "O Agente Secreto" (04/04) no Cine Bancários

Neste sábado, dia 4 de abril, às 10h da manhã, o Clube de Cinema de Porto Alegre promove uma sessão cheia de pirraça com a exibição do filme O Agente Secreto no Cine Bancários.

Filme brasileiro de maior destaque na última temporada, com premiações em Cannes, Globo de Ouro e quatro indicações ao Oscar, o longa mais recente de Kleber Mendonça Filho acompanha Marcelo, misterioso personagem vivido por Wagner Moura, que deixa São Paulo rumo ao Recife. Ao chegar à cidade em plena semana de Carnaval, ele se integra a um grupo de personagens enigmáticas, enquanto, aos poucos, vêm à tona episódios de seu passado e as tensões de um contexto de ditadura militar.


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 04/04, às 10h da manhã

📍 Local: Cine Bancários

Rua General Câmara, 424 – Centro Histórico, Porto Alegre

🚨 Atenção para o horário das 10h, mais cedo que o nosso usual, levando em consideração que o filme possui 2h40min.


O Agente Secreto

Brasil, 2024, 158 min

Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Isabel Zuaa, Udo Kier

Sinopse: Em 1977, um professor universitário deixa São Paulo e segue para Recife, onde se envolve em uma rede de relações e situações marcadas por mistério, vigilância e violência.


 Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

terça-feira, 3 de março de 2026

Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Hiroshima, Meu Amor" (05/03, qui) na Sala Redenção

Nesta quinta-feira, dia 5 de março, às 19h, o Clube de Cinema de Porto Alegre, em parceria com a Sala Redenção da UFRGS, inicia o ciclo temático "Nouvelle Vague e suas influências", com uma sessão especial do clássico Hiroshima, Meu Amor.

Dirigido por Alain Resnais e roteirizado por Marguerite Duras, o filme é uma das obras centrais da Nouvelle Vague. Partindo inicialmente da ideia de realizar um documentário sobre Hiroshima e Nagasaki, Resnais encontrou na ficção o caminho para investigar algo ainda mais complexo: a memória e suas transformações ao longo do tempo.

A narrativa acompanha o breve encontro entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês, em Hiroshima. Ao longo de um único dia, passado e presente se entrelaçam por meio de lembranças fragmentadas, imagens documentais e um uso inovador do flashback. Amor, esquecimento, trauma e reconstrução tornam-se dimensões indissociáveis, tanto na intimidade dos personagens quanto na história das cidades que carregam.

Após a sessão, haverá um bate-papo sobre o filme com os associados do Clube de Cinema.


Confira os detalhes:

SESSÃO DO CLUBE DE CINEMA – QUINTA-FEIRA

📅 Data: Quinta-feira, 05/03, às 19h

📍 Local: Sala Redenção – UFRGS

R. Eng. Luiz Englert, 333 – Bairro Farroupilha, Porto Alegre


Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima mon amour)

França, 1959, 90 min

Direção: Alain Resnais

Roteiro: Marguerite Duras

Elenco: Emmanuelle Riva, Eiji Okada, Stella Dassas, Pierre Barbaud, Bernard Fresson

Sinopse: Em Hiroshima, uma atriz francesa vive um breve romance com um arquiteto japonês enquanto revive memórias de um amor proibido durante a Segunda Guerra Mundial. Entre passado e presente, o filme explora as marcas da guerra e a persistência da memória.

Até lá!

       Faça parte:


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Cine Dica: Sessão do Clube de Cinema: "Sorte Cega" (21/02) na Cinemateca Paulo Amorim


Após uma pequena folga para curtir o carnaval, o Clube de Cinema retoma as suas atividades neste sábado, dia 21 de fevereiro, às 10h15 da manhã, com uma sessão do filme Sorte Cega, do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, na Cinemateca Paulo Amorim.

Frequentemente lembrado por obras como o Decálogo e a Trilogia das Cores, Sorte Cega foi realizado em 1981 e permaneceu censurado até 1987. No filme, o diretor polonês se propõe a construir uma reflexão sobre o destino, a liberdade e a responsabilidade individual.

A partir de uma situação aparentemente simples – a tentativa de um jovem de pegar um trem –, o filme apresenta três distintas possibilidades de vida para o protagonista Witek. Cada uma delas nasce de um instante decisivo, revelando como acaso e escolha se entrelaçam e moldam a nossa existência.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 21/02, às 10h15 da manhã

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz, Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre


Sorte Cega (Przypadek)

Polônia, 1987, 114 min

Direção e roteiro: Krzysztof Kieslowski

Elenco: Boguslaw Linda, Tadeusz Lomnicki, Zbigniew Zapasiewicz, Boguslawa Pawelec

Sinopse: Diante de um futuro incerto, Witek, um jovem estudante de Medicina polonês, suspende seus estudos e corre para pegar um trem rumo a Varsóvia. A partir desse instante, o filme apresenta três desdobramentos possíveis de sua vida, cada um determinado por ter alcançado ou não o trem — e pelas escolhas que se seguem.


Nos vemos lá!

       Faça parte:


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948  

Instagram: @ccpa1948 

 
Joga no Google e me acha aqui:  
Me sigam no Facebook twitter, Linkedlin Instagram e Tik Tok 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Cine Dica: Sessão Clube de Cinema 24/02/2024 - 'Meu Amigo Robô'

Segue a programação do Clube de Cinema no próximo final de semana.

SESSÃO CLUBE DE CINEMA

Local: Sala Eduardo Hirtz, Cinemateca Paulo Amorim, Casa de Cultura Mario Quintana

Data: 24/02/2024, sábado, às 10:15 da manhã

"Meu Amigo Robô" (Robot Dreams)

Espanha / França, 2023, 102 min, 10 anos


Direção: Pablo Berger

Sinopse: Dog vive sozinho em Manhattan e resolve comprar um robô para lhe fazer companhia. Os dois se tornam grandes amigos e aproveitam o verão em vários passeios pela cidade, ao som do clássico pop “September”, da banda Earth, Wind & Fire. Mas, na última noite do verão, Dog é obrigado a deixar o Robô em uma praia, de onde ele só poderá sair no próximo ano – se a amizade dos dois resistir. O longa é uma adaptação da HQ americana "Robot Dreams", de Sara Varon, e é um dos cinco títulos indicados ao Oscar de melhor animação.



Atenciosamente,

Carlos Eduardo Lersch

Diretor de Programação CCPA.

Faça parte:


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948  

Instagram: @ccpa1948 

Joga no Google e me acha aqui:  
Me sigam no Facebook twitter, Linkedlin Instagram e Tik Tok  

terça-feira, 18 de julho de 2023

Cine Especial: Próxima Sessão do Clube de Cinema - 'A Noite do Dia 12'

Segue a programação do Clube de Cinema no próximo final de semana.

SESSÃO CLUBE DE CINEMA 

Local: Espaço de Cinema, Sala 3, Bourbon Shopping Country
Data: 22/07/2023, sábado, às 10:15 da manhã

"A Noite do Dia 12" (La nuit du 12)
Bélgica/ França, 2022, 115min, 14 anos

Direção: Dominik Moll
Elenco: Bastien Bouillon, Bouli Lanners, Théo Cholbi 

Sinopse: Foi na noite de 12 de outubro que Clara, uma garota de 21 anos, foi assassinada. Aparentemente, ela não tinha inimigos - apenas se apaixonava facilmente. O detetive Yohan assume o caso e começa a se envolver emocionalmente com a vida da vítima, ampliando os interrogatórios e as suspeitas sobre o crime. Vencedor de quatro prêmios César (incluindo filme e direção), o filme é baseado em um capítulo do livro de Pauline Guéna, que acompanhou durante um ano uma equipe de polícia em Versalhes.

Sobre o Filme: Se percebe que no Brasil sempre quando uma mulher é espancada ou morta por um homem imediatamente parece surgir uma obsessão em tentar culpar a vítima ao invés de obter os verdadeiros fatos sobre o atentado. Porém, acredito que esse pensamento machista não se limite somente em nosso território, como também em todo o globo. "Noite do Dia 12" (2022) fala sobre um crime bárbaro e do qual é, infelizmente, um de muitos que ocorrem a todo momento.  

Dirigido por Dominik Moll, a trama é sobre uma investigação policial que gira em torno de Yohan Vivès (Bastien Bouillon), um investigador da polícia perseguido por um caso que lhe causa mais incômodo do que qualquer outro em sua carreira. Trata-se do chocante assassinato da jovem Clara Royer (Lula Cotton-Frapier) que, aparentemente, se dava bem com todos. Cada vez mais obcecado em solucionar o caso, o investigador embarca em uma espiral interminável de segredos obscuros em busca de pistas e quaisquer sinais que possam levá-lo até o culpado do crime brutal.

Vencedor de 6 prêmios César - incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor no festival de Cannes 2022, o filme se inicia de uma forma descontraída, onde vemos policiais veteranos comemorando a promoção de um deles, mas mal sabendo o que viria a seguir. Ao testemunharmos o crime logo em seguida nós ficamos impotentes perante a situação, mas fazendo a gente se dar conta que é um em meio a inúmeros, mas do qual não pode ser esquecido. Uma vez que a dupla de policiais centrais da trama começa a investigação cada vez temos maior noção sobre o passado da vítima e dos seus círculos de amizades que ela adentrava.

Dominik Moll procura testar os nossos pensamentos e julgamentos sobre o caso, já que Clara se relacionava com homens desajustados e fazendo com que cada um se torne um suspeito. Porém, não demora muito para alguém levantar a mão e dizer que ela procurou por isso e fazendo com que o crime hediondo seja tudo culpa da mulher. O protagonista Yohan, por sua vez, procura ser profissional no caso e busca pelos verdadeiros fatos e não se limitar com esse pensamento retrógrado.

Ao mesmo tempo ele precisa enfrentar os conflitos internos do seu veterano parceiro, interpretado intensidade por Bouli Lanners e que começa gradualmente a se transformar ao longo da investigação. É através dele, por exemplo, que testemunhamos a primeira explosão de revolta com relação ao caso, principalmente quando determinados suspeitos tratam sobre o assunto como piada e revelando os lados mais obscuros da alma humana. Embora a maioria seja inocente, por outro lado, isso não retira o fato de cada um ali ser potencialmente perigoso e que talvez não cometam tais crimes para não serem presos.

Infelizmente o filme possa vir a desapontar para aqueles que esperam uma solução fácil com relação ao crime, sendo que não há uma resposta clara para isso. Baseado em diversos crimes reais do dia a dia, o filme nos fala que certos horrores são difíceis de serem explicados, mas que ao mesmo tempo devemos ser fortes para seguirmos em frente e lutarmos para que isso não aconteça novamente. Infelizmente eles continuam enquanto não começarmos a sermos mais exigentes com relação a nós mesmos e evitarmos a todo custo para que esses horrores não aconteçam de novo.

"Noite do Dia 12" é uma reconstituição de um crime, mas do qual representa inúmeros e cometidos por homens vazios por dentro e que merecem serem punidos a todo custo. 


    Faça parte:


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948  
Instagram: @ccpa1948 

Joga no Google e me acha aqui:  
Me sigam no Facebook twitter, Linkedlin e Instagram.