Sinopse: Família fica confinada dentro de casa enquanto estranhas criaturas surgem em meio à chuva.
Quando penso em Louis Leterrier, chego à conclusão de que é um realizador francês similar a Luc Besson, sendo que nenhum dos dois construiu exatamente uma carreira sólida em território norte-americano. Pode-se dizer que Leterrier lançou sucessos de forma esporádica, desde "Carga Explosiva" (2002) até "O Incrível Hulk" (2008) e capítulos da franquia "Velozes e Furiosos". Em "A Última Casa" (2026), ele sai de seu território habitual da ação e se envereda por uma trama de ficção e horror que com certeza se tornará divisiva para boa parte do público.
Na trama, Ann (Greta Lee), Jason (Wagner Moura) e seus dois filhos ficam confinados dentro da própria casa. Enquanto uma força desconhecida transforma o lar em uma espécie de prisão, todos ficam perdidos e sem entender a origem dessa ameaça. Os membros da família tentam manter a esperança de encontrar uma maneira de sobreviver, porém a falta de água, comida e outros recursos essenciais faz com que o desespero tome conta do ambiente. Ao mesmo tempo, seres estranhos surgem do lado de fora, despertando ainda maior aflição.
Desde "Bird Box" (2018), a Netflix tem procurado lançar um filme que se tornasse o próximo grande evento do streaming. De lá para cá, porém, o mundo passou por diversas mudanças — desde os eventos da pandemia até o interesse do público em retornar às salas de cinema após ela. Portanto, não basta fazer uma grande propaganda para atrair as pessoas; é necessário também apresentar algo, ao menos, interessante para ser debatido.
O filme em si não traz algo inédito dentro do gênero. A trama não só nos faz relembrar elementos já vistos no citado "Bird Box", como também de outros longas de horror e ficção científica, como "O Nevoeiro" (2007). Além disso, deve ser uma experiência nova para Louis Leterrier sair do gênero de ação, já que aqui ele exagera na edição de cenas em uma determinada passagem da trama. Ao meu ver, o realizador só tira o pé do acelerador quando se vê obrigado a apresentar melhor a família e suas motivações para seguir tentando sobreviver.
Talvez o ápice da história se encontre nas diversas maneiras que os personagens buscam para tentar sobreviver — desde começar a plantar dentro de casa até caçar animais a partir da abertura da chaminé. É nestas passagens que o filme sintetiza o fato de que o ser humano é capaz de resistir aos momentos mais extremos, mesmo quando o longa nos brinda com situações que por vezes soam inverossímeis. Ao menos o elenco principal se esforça para prender nossa atenção e nos fazer criar empatia à medida que o tempo passa.
Wagner Moura se sai bem como o líder da família que faz de tudo para protegê-la, mesmo em situações que testam sua lucidez perante momentos absurdos. Já Greta Lee, ao meu ver, desde "Vidas Passadas" (2023) vem construindo uma carreira cada vez mais sólida, e sua interação com Moura se revela bastante positiva. Infelizmente o mesmo não se pode dizer dos atores que interpretam os filhos: quando começamos a simpatizar com eles, logo são substituídos para corresponder à passagem do tempo.
Curiosamente, é preciso apontar o quanto é positivo o filme tocar em assuntos espinhosos, como o fato de as pessoas só interagirem mais e se conhecerem de fato a partir de uma situação na qual a tecnologia se torna obsoleta. Se no filme "O Mundo Depois de Nós" (2023) a mídia física se torna uma pequena solução dentro da trama, aqui ela se revela essencial para as crianças se distraírem. Nunca é demais lembrar que basta a internet ser desligada para que as pessoas fiquem completamente perdidas hoje em dia.
Infelizmente, o ato final nos reserva elementos que deixarão o público bem dividido. Particularmente, gosto das primeiras aparições das criaturas meio fora de foco, cujo visual remete aos clássicos do escritor H. P. Lovecraft. Em contrapartida, o cineasta pesa a mão em algumas cenas de ação em que a intenção é tornar tudo mais claustrofóbico, mas exagerando um pouco, para dizer o mínimo.
Com certeza, os minutos finais gerarão debate no decorrer do tempo, já que a solução para a sobrevivência da família se dá através de um contato que aparenta ser absurdo — mas que faz sentido se levarmos em conta que os eventos seriam uma espécie de resposta da natureza e o retorno daqueles que talvez, no passado, tenham sido os verdadeiros donos da Terra. Para os leitores e apreciadores de ficção científica, principalmente aqueles familiarizados com clássicos como "Eu Sou a Lenda" (de Richard Matheson e seu protagonista Robert Neville), a proposta pode fazer algum sentido, ainda que soe inverossímil para a maioria dos espectadores.
"A Última Casa" é a nova cartada da Netflix para atrair o grande público, mas cujo resultado fará com que as pessoas não consigam compreender totalmente a proposta final.
Onde Assistir: Netflix.
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