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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Pequenas Criaturas'

Sinopse: Helena e a família se mudam para a futurista Brasília de 1986, mas ela é deixada para trás pelo marido em uma viagem de negócios.

Embora seja a capital do país, a cidade de Brasília sempre me pareceu sem vida, com suas arquiteturas futuristas que não condizem com as nossas expectativas. Portanto, é difícil imaginar um cenário como esse para um filme de ficção. Embora haja vários documentários sobre o tema, em termos de ficção o único que me veio à memória foi "Faroeste Caboclo" (2013). "Pequenas Criaturas" (2026) talvez seja uma obra que fortaleça ainda mais esse meu pensamento sobre a capital, mas que também nos ensina a nos esforçarmos para fazer a diferença em um cenário moribundo.

Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, o longa acompanha a história de Helena (Carolina Dieckmann), uma mãe deixada para trás pelo marido sob o pretexto de uma viagem de negócios. Passada no ano de 1986, a trama mostra a mudança da família para a mais nova capital do país, que promete um futuro promissor. A protagonista terá que lidar com um filho adolescente irritado e uma criança de 8 anos que enxerga a vida de um jeito diferente de todos os outros.

O ano é 1986, um momento marcante após a redemocratização, no qual o país passava por uma nova metamorfose repleta de promessas a serem alcançadas. Porém, Brasília surge quase como um cartão-postal sem vida, onde até mesmo o clima não é dos melhores, fazendo muitos se perguntarem como chegaram ali. A família central da trama se faz essa pergunta quase o tempo todo, precisando se reanimar aos poucos para não ser sugada pelo desânimo.

Conhecida por seus papéis televisivos, Carolina Dieckmann parece estar vivendo uma nova etapa em sua carreira cinematográfica. Somente neste ano, a atriz atua em dois filmes, sendo o primeiro (Des)controle. É interessante assistir a ambos e perceber a versatilidade da intérprete, já que as duas personagens são completamente diferentes, provando que ela pode ir mais longe do que se imagina nas telas. Aqui, sua personagem se encontra vazia por dentro ao ser abandonada em uma cidade desconhecida, tendo que cuidar dos dois filhos sozinha.

Curiosamente, suas atitudes começam a mudar a partir do momento em que atropela acidentalmente um cachorro e busca reanimá-lo dentro de casa. Sua iniciativa funciona como um incentivo para se reerguer perante um futuro indefinido, tentando abrir brechas para que outros se aproximem. Esse acolhimento é muito bem representado pelos vizinhos, interpretados por Letícia Sabatella e Caco Ciocler, que percebem a protagonista pedindo socorro, mesmo quando ela não grita isso aos quatro ventos.

É preciso reconhecer que os filhos da protagonista também roubam a cena. O pequeno Lorenzo Mello dá um verdadeiro show de interpretação, mesmo quando está usando uma máscara do clássico "O Planeta dos Macacos" (1968). Já Theo Medon interpreta o típico jovem que transita entre a rebeldia e a busca por um ponto de equilíbrio em uma realidade que por vezes não o aceita. A presença dos dois em cena dá um tempero a mais ao longa, fazendo com que o espectador se preocupe com o futuro de ambos.

O misterioso vizinho interpretado por Fernando Eiras possui diversas camadas a serem analisadas, mesmo com poucos momentos em cena. Se em um primeiro momento podemos suspeitar de sua figura, logo constatamos que ele está gritando por dentro, pedindo atenção e motivações para continuar existindo nesse ambiente nada acolhedor. O personagem sintetiza muito bem o significado do título do longa: os seres humanos são pequenas criaturas em um mundo maior, mas que gritam para serem ouvidos, mesmo quando isso parece impossível.

Em suma, o filme é melancólico, mas ao mesmo tempo esperançoso à sua maneira, ao explorar personagens que buscam acolhimento e seu lugar no mundo. Pessoas partem por certos motivos, mas cabe a nós seguirmos em frente, mesmo quando fomos deixados para trás. Anne Pinheiro Guimarães constrói um retrato sobre o Brasil de ontem — não muito diferente do cenário de hoje —, obtendo um êxito notável.

"Pequenas Criaturas" é sobre recomeçar em um cenário hostil, mas que se torna mais reconfortante à medida que baixamos a guarda para sermos acolhidos por aqueles que realmente se importam.


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