Baseado no clássico literário "Servidão Humana" (1915), de W. Somerset Maugham, o filme apresenta dois personagens extremamente interessantes que sintetizam a discussão proposta pela narrativa. De um lado, temos Philip (Leslie Howard), um estudante de medicina com uma deficiência no pé, que se torna constantemente alvo de preconceito em uma época em que o termo bullying sequer existia. Do outro lado, está Mildred (Bette Davis), uma garçonete ambiciosa e ciente do fascínio que exerce sobre os homens — incluindo Philip —, cujo desdém inicial não passa de uma tentativa de fingir distanciamento.
No início dos anos 1930, Bette Davis era contratada da Warner Bros., mas acabou emprestada para a Radio-Keith-Orpheum (RKO). Foi sob a tutela da RKO, por conta desse filme, que Davis se consagrou como um grande astro. Segundo a própria atriz, aquela personagem havia sido feita sob medida para ela, e ninguém ousou discordar — exceto a Academia, que não a indicou formalmente, deixando-a de fora da lista oficial de nomeadas, que incluía Grace Moore, Norma Shearer e Claudette Colbert. Esta última, inclusive, nem sequer acreditava na própria vitória justamente por conta do enorme impacto e do sucesso estrondoso de Davis naquele ano.
Mildred Rogers parece, de fato, ter sido feita para Bette Davis. Hoje em dia, é até difícil distinguir se a personagem moldou a persona debochada da atriz ou se a atriz é quem esculpiu a personagem — afinal, Rogers e Davis tinham muito em comum. A garçonete olha os outros de cima, com um olhar que esquadrinha o ambiente em busca de oportunidades, sendo cruamente verdadeira em cada palavra. Philip chega a lhe pedir que não repita “eu não me importo” com tanta frequência nem com aquele tom que ele sabe ser genuíno — pois nada é mais autêntico do que a absoluta indiferença de Mildred. Ela precisa de alguém que a sustente e lhe entregue o que deseja. Para Mildred, esse "alguém" poderia ser qualquer um, mas especialmente Philip, um homem que ela sabia que estaria sempre ali para servi-la — eis a servidão humana. Para Bette Davis, esse "alguém" de quem ela necessitava era a mídia, a crítica, o público e o reconhecimento de seu talento natural para o desprezo, algo que a atriz desempenhou com maestria não só neste longa, mas ao longo de toda a sua carreira e de sua vida.
Oficialmente, a primeira lembrança de Bette Davis no Oscar se deu por meio de uma votação write-in, um feito surpreendente. A Academia, temendo a pressão dos atores revoltados com a ausência do nome de Davis entre as finalistas, decidiu flexibilizar o pleito: permitiu-se que qualquer um votasse em quem quisesse, bastando escrever o nome na cédula. Assim, a interpretação avassaladora de Mildred Rogers rendeu à atriz essa menção histórica por write-in, embora a Academia só tenha começado a contabilizar oficialmente suas indicações a partir do ano seguinte, quando ela concorreu — e venceu — por "Perigosa" (1935).
"Escravos do Desejo" é um clássico de tempos mais corajosos do cinema americano onde toca em assuntos espinhosos e que consagraria a talentosa Bette Davis em definitivo.
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