terça-feira, 16 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Criadas'

Sinopse: O reencontro de Sandra, uma engenheira civil negra, e Mariana, sua prima de pele clara.

O cinema de horror psicológico frequentemente usa o elemento sobrenatural apenas como pano de fundo, enquanto os dilemas reais do mundo são colocados à prova. A "Trilogia do Apartamento", comandada pelo diretor Roman Polanski, por mais ingredientes de horror que possua, nada mais é do que um estudo sobre os limites da mente humana. "Criadas" (2026) também fala sobre fantasmas do passado, mas eles não vêm necessariamente dos mortos; surgem, na verdade, da raiva e dos arrependimentos.

Dirigido por Carol Rodrigues, o filme conta a história do reencontro de Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti). Duas mulheres negras — uma retinta e outra de pele clara — que voltam a morar juntas após vários anos. Agora como engenheira civil, Sandra precisa retornar a São Paulo, mais especificamente para a casa em que cresceu, local onde sua mãe trabalhou como empregada doméstica para a família de sua prima, Mariana. Ali, Sandra busca por uma foto antiga e percebe que o único lugar para encontrá-la é justamente o ambiente que serviu como espaço de apagamento e trabalho. Porém, à medida que memórias são desenterradas, um incômodo profundo surge entre as duas, além da iminência de eventos estranhos começarem a acontecer na casa.

Já no início, Carol Rodrigues brinca com as expectativas do público em relação à trama: uma das protagonistas desaparece por alguns momentos, fazendo com que a outra caminhe solitária pelos cômodos. É a partir desse instante que passamos a sentir um clima mórbido, como se os objetos do ambiente guardassem lembranças que ambas procuram evitar. No entanto, essas memórias surgem em cena não como flashbacks, mas de corpo presente, tornando a atmosfera do mistério ainda mais palpável e instigante de se observar de perto.

O filme, por si só, fala sobre um Brasil de ontem e de hoje, no qual o racismo estrutural se faz presente em cada fresta. Contudo, essa estrutura se manifesta de forma complexa através da própria dinâmica familiar, onde Mariana, por ter a pele clara e ter usufruído de certos privilégios e regalias no decorrer da vida, passou a reproduzir dinâmicas de subserviência com a prima e a tia, tratando-as quase como empregadas, mesmo pertencendo à mesma família. É um retrato contundente de como o sistema capitalista e o colorismo fazem com que as pessoas se distanciem de suas verdadeiras raízes assim que sobem um degrau na escala social, mesmo que isso não ocorra de forma intencional.

Fora do eixo familiar, o racismo estrutural também transborda em uma cena de festa, onde olhares e comentários velados revelam um Brasil conservador e retrógrado. É impossível não se incomodar, por exemplo, quando um determinado personagem demonstra interesse por Sandra no decorrer do evento, mas logo revela seu preconceito ao duvidar do parentesco dela com Mariana, pelo fato de as duas terem tons de pele diferentes. Aqui não há ficção, mas sim o reflexo de um absurdo que ainda alimenta o nosso cotidiano.

Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti entregam atuações brilhantes. A primeira transmite com precisão o conflito de identidade interna de Sandra, enquanto a segunda constrói uma Mariana que tenta a todo custo reprimir uma mágoa histórica. Uma vez que esses sentimentos não são exteriorizados, o passado cobra o seu preço, manifestando-se tanto na estrutura física da casa quanto no peso das lembranças. Estas últimas, inclusive, revelam-se muito mais difíceis de enfrentar do que qualquer assombração, dada a complexidade dos sentimentos humanos quando postos à prova.

Carol Rodrigues opta por construir elementos subliminares e metafóricos em vez de explicações puramente didáticas. O ato final, por exemplo, pode dividir opiniões quanto à sua mensagem imediata, mas, no meu entendimento, propõe que, quando o passado se torna um fardo intransponível, cabe a nós destruí-lo para que algo novo floresça e as cicatrizes emocionais possam, enfim, fechar-se permanentemente. Para que as barreiras do preconceito caiam, as velhas estruturas precisam ser demolidas — e é por isso que o minuto final se torna tão simbólico.

"Criadas" é um excelente exemplar de suspense psicológico em que o verdadeiro mal não se esconde nas sombras, mas sim nos muros invisíveis que construímos à nossa volta.

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Cine Dica: Newsletter de 18 a 24 de junho de 2026

Cinema brasileiro em destaque, sessão especial de Vento Norte e Madrugada do Prazer

Entre os dias 18 e 24 de junho, a Cinemateca Capitólio apresenta uma programação dedicada ao cinema brasileiro, com destaque para a mostra A Cinemateca é Brasileira – Da comédia ao drama, que reúne 23 títulos com entrada franca. A seleção percorre diferentes períodos, linguagens e gêneros da produção nacional, incluindo comédia, documentário, animação, ficção científica, horror e filmes de circulação rara.

Na sexta-feira, 19 de junho, às 19h, em comemoração ao Dia do Cinema Brasileiro, acontece a primeira exibição em Porto Alegre da versão restaurada de Vento Norte (1951), de Salomão Scliar. Considerado o primeiro longa-metragem ficcional com som sincronizado produzido no sul do país, o filme retorna em sessão especial com entrada gratuita.

No sábado, 20 de junho, às 18h30, a programação recebe mais uma Sessão AAMICCA, com exibição de Últimas Conversas (2015), último trabalho realizado a partir do material filmado por Eduardo Coutinho. Após a sessão, haverá conversa com Felipe Diniz e Juliana Costa, com mediação de Laura Galli.

Ainda no sábado, a partir das 23h, acontece a Madrugada do Prazer, programação dedicada ao prazer e às formas de representação dos desejos no cinema. A seleção inicia com curtas queer brasileiros contemporâneos, passa por Emmanuelle, A Verdadeira (1974), clássico dirigido por Just Jaeckin, segue com a pornochanchada A Fêmea do Mar (1981) e encerra com um filme-surpresa.

Também entram em reta final as exibições de Dolores (2025), dirigido por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, longa que dá continuidade ao projeto iniciado por Chico Teixeira na chamada Trilogia dos Afetos.

Confira a programação completa da cinemateca clicando aqui. 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Dia D'

Sinopse: Acompanha o colapso global quando um evento inexplicável, transmitido ao vivo na TV, revela que os governos escondem a existência de vida extraterrestre há quase um século, desencadeando pânico e uma crise sem precedentes.

Durante a década de 1950, Hollywood lançou dezenas de filmes sobre monstros radioativos e invasores do espaço. Tudo funcionava como uma espécie de metáfora da paranoia da Guerra Fria, época em que o temor perante o comunismo era tamanho que os norte-americanos mal sabiam o real significado da palavra, embora tivessem certeza de que ela deveria ser temida. Porém, houve um longa-metragem que seguiu pelo caminho inverso dessa tendência.

"O Dia em que a Terra Parou" (1951), de Robert Wise, trazia um alienígena como protagonista que buscava um meio de alertar a humanidade para alcançar a paz, evitando que as pessoas fossem aniquiladas pelas próprias ações errôneas daquele período. Um filme à frente de seu tempo e que, com certeza, influenciou diversos futuros diretores, como é o caso de Steven Spielberg. Sonhador como poucos, o cineasta construiu sua carreira inspirado no que ouviu e assistiu na infância e na adolescência, resultando em verdadeiras obras-primas.

Longas como "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) e "E.T.: O Extraterrestre" (1982) revelavam o lado pacífico desses seres espaciais, e o realizador incrementava a narrativa com um realismo que até hoje impressiona e fascina. Spielberg só voltaria a explorar o mundo dos aliens em "Guerra dos Mundos" (2005) que, revisto hoje, funciona como uma clara metáfora do temor norte-americano após o 11 de Setembro. Vários anos depois, eis que o cineasta nos entrega "Dia D" (2026), obra que caminha de mãos dadas com os dias atuais, nos quais cada vez mais tememos pelo amanhã.

Na trama, Emily Blunt interpreta Margaret, uma apresentadora de telejornal que, certo dia, começa a falar uma língua estranha ao vivo. Ao mesmo tempo, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e sua namorada Ane Blankenship (Eve Hewson) possuem arquivos valiosos que revelam que o governo dos EUA sempre teve contato com seres alienígenas, mas escondia o fato da população. Porém, uma organização secreta liderada por Noah Scanlon (Colin Firth) está disposta a tudo para que essas informações não vazem em hipótese alguma.

Steven Spielberg prova neste filme por que é sempre apontado como um dos melhores diretores de todos os tempos; é impressionante a sua qualidade de direção. Além dos jogos de luz e sombra corriqueiros de sua filmografia, é incrível como o realizador faz sua câmera navegar com fluidez. Em diversas cenas, momentos de perseguição automobilística se tornam sufocantes, transmitindo peso e um elevado grau de perigo. Além disso, são espantosos alguns planos-sequência em que algo sempre é mostrado ao fundo do quadro, sem nunca perder o foco no protagonista que busca não ser visto pelos algozes.

Essa é uma prova mais do que bem-vinda de que o diretor continua um grande contador de histórias e um mestre na elaboração de grandes sequências. Em tempos nos quais o CGI dá sinais de desgaste a todo momento, impressiona como o realizador se preocupa em criar momentos verossímeis que prendem o espectador na poltrona imediatamente: a cena do trem, por exemplo, já nasce como uma das melhores sequências de ação do ano.

Porém, acima de tudo, "Dia D" é um filme moldado por personagens extremamente humanos, jogados em situações que eles mesmos buscam compreender. Se por um lado há Daniel, que fará de tudo para revelar a verdade às pessoas, por outro, Ane teme que isso destrua a fé da população, principalmente diante da iminência de uma inevitável Terceira Guerra Mundial. Noah Scanlon, por sua vez, não é um vilão convencional; suas motivações para acobertar a verdade fazem sentido, deixando no ar a grande pergunta: o ser humano está realmente disposto a encarar o fato de que não está sozinho no universo?

Mas, de todos os personagens, é Margaret quem se torna a nossa representação na trama, já que é uma cidadã comum que se vê em uma situação difícil de explicar. Curiosamente, sua jornada remete à do personagem de John Travolta no filme "Fenômeno" (1996), visto que ambos manifestam poderes similares. Porém,  Emily Blunt se sobressai na comparação.

Chamando a atenção inicialmente no longa "Meu Amor de Verão" (2004) e se consagrando em "O Diabo Veste Prada" (2006), Blunt entrega aqui uma das melhores atuações de sua carreira. Sua Margaret é cheia de vida e espirituosa, mas não esconde as lembranças que a assombram e a fazem temer o futuro. No momento em que ela abre sua mente de forma inédita, temos a impressão de que esse gatilho também é acionado em nós, tamanha a facilidade com que a intérprete nos faz identificar com a personagem em sua total plenitude.

Também é interessante observar a maneira como o diretor explora a presença dos alienígenas. Sendo inicialmente sugeridos por meio de animais que surgem na trama, os seres espaciais aparecem de forma gradual. O diretor demonstra uma predileção pelo minimalismo, apostando no que é sugestivo para dar maior peso dramático aos momentos. Quando as criaturas finalmente surgem — principalmente em um flashback revelador —, o momento impressiona, mesmo que cause a leve impressão de ser algo parecido com o que já vimos em outras obras.

Se há um ponto falho no roteiro, é a maneira como a grande revelação é feita. Em tempos de informação instantânea via internet, fica difícil aceitar que o papel das redes televisivas tradicionais ainda seja tão primordial hoje em dia, quando grandes eventos como a Copa do Mundo já não atraem a massa da mesma forma. Ainda assim, as cenas reveladas através da TV, para posteriormente serem espalhadas pelas redes mundiais, impressionam pelo realismo e passam a sensação de que já havíamos testemunhado aquelas imagens em algum momento de nossas vidas.

Em suma, é um filme que chega exatamente no momento em que não sabemos ao certo como será o amanhã, pois vivemos com grandes potências em conflito, desenhando um cenário cada vez mais sombrio. Assim como o clássico "O Dia em que a Terra Parou", Steven Spielberg surge com esta obra para nos fazer parar por um momento. Ele nos força a questionar se somos evoluídos o bastante para voltar a olhar para o céu, ou se estamos predestinados a um fim amargurado através da extinção. A mensagem foi dada; o que falta é colocá-la em prática.

"Dia D" traz o Steven Spielberg dos velhos tempos, onde fantasia, fé e reflexão se unem para nos fazer pensar sobre nós mesmos e sobre o declínio do mundo atual.

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domingo, 14 de junho de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Spider-Noir'

Sinopse: O detetive particular Ben Reilly é contratado para casos simples, até que gângsteres, monstros e uma misteriosa femme fatale tecem uma teia que o obriga a confrontar seu passado como o único super-herói de Nova York: O Spider.

As adaptações de HQs de super-heróis para o cinema encontram-se desgastadas hoje, e não adianta esconder o fato de que a principal culpada por isso seja a própria Marvel. Misturando humor com aventura, essa fórmula prevaleceu até "Vingadores: Ultimato" (2019), mas, após isso, foi ladeira abaixo. Para a TV, ao menos, algumas pérolas precisam ser reconhecidas, como nos casos de "WandaVision"(2021),"Agatha Desde Sempre" (2024) e, mais recentemente, "Demolidor: Renascido" (2026).

Outro fator determinante para essa queda vertiginosa é a insistência do estúdio em interligar todas as produções, ao ponto de o espectador desejar assistir a um título, mas ser obrigado a ver outro para entender o contexto. Por conta disso, a Marvel muitas vezes deixa de fazer cinema para vender um produto dependente de outro, e mais outro, chegando ao ponto da saturação e fazendo o público se perguntar onde o estúdio errou. Felizmente, não é o que acontece com "Spider-Noir" (2026), que não somente explora uma versão alternativa do personagem clássico, como também respira de forma independente, sem o auxílio de qualquer série ou filme vizinho.

Desenvolvida por Oren Uziel, a série é baseada no personagem Homem-Aranha Noir, que originalmente apareceu nos quadrinhos da Marvel Comics e ganhou grande destaque na animação "Homem-Aranha no Aranhaverso" (2018). Na produção live-action, Nicolas Cage dá vida ao herói aracnídeo dos anos 1930 em uma fase de decadência. Reilly trabalha como investigador particular enquanto contempla seu passado como o outrora único super-herói de Nova York.

Tanto no cinema quanto nas HQs, se o multiverso for usado de forma bem pensada, pode sim gerar boas histórias. É sempre interessante pegar um personagem clássico e colocá-lo em uma situação inédita, ou modificá-lo para apresentar uma nova faceta ao público. É exatamente isso o que acontece com este Homem-Aranha dos anos trinta que, além de possuir uma história fechada e bem amarrada, presta uma bela homenagem a épocas douradas do entretenimento.

Para começar, a figura do herói é toda inspirada nos primórdios das HQs das décadas de 1930 e 1940, que normalmente eram protagonizadas por figuras misteriosas como "O Sombra". Eram tempos em que luzes e sombras moldavam as narrativas, trazendo pinceladas investigativas que tornavam a leitura um verdadeiro prazer. Tempos mais inocentes, mas que dava gosto de apreciar.

Visualmente, a série não só reverencia esse período dos quadrinhos, como também é um grande tributo ao subgênero cinematográfico noir, que teve seu ápice entre os anos 1940 e 1950. O detetive Ben de Nicolas Cage nada mais é do que uma versão caricata — no bom sentido da palavra — do personagem Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart no clássico "Relíquia Macabra" (1941). Foi um período em que os filmes eram moldados em preto e branco, onde o claro-escuro dava o tom da narrativa, tornando a atmosfera mais pesada e sedutora na medida certa.

Curiosamente, a série foi concebida originalmente em preto e branco para sintetizar essa época, mas conta com o recurso para que os fãs possam assisti-la também colorida, cuja fotografia remete aos primórdios do Technicolor no cinema. E se você estranhar determinadas cenas fora dos padrões, com a câmera inclinada, saiba que isso é proposital: o famoso "ângulo holandês", muito visto neste tipo de subgênero. Nada mal para uma série de televisão respirar cinema como um todo.

Colecionando diversos fracassos (e alguns sucessos) recentes, Nicolas Cage desta vez acerta em cheio ao interpretar um personagem que se encaixa como uma luva para ele. Seu Homem-Aranha é uma figura quebrada, distante dos dias de glória e sucumbindo às vezes na bebida. Ou seja, um herói falho com quem a gente se identifica e se diverte quando ele se mete nas mais diversas enrascadas.

É interessante observar que aqui não há um humor bobo, mas sim sombrio, ácido e que não tem medo de explorar territórios mais maduros. Além disso, a clássica femme fatale dos filmes de antigamente é muito bem representada pela atriz Li Jun Li, que desde a primeira cena deixa claro que não é alguém em quem se deva confiar. Os vilões, por sua vez, são figuras familiares do universo tradicional do Homem-Aranha, mas apresentados de forma bem mais obscura, liderados pelo Silvermane (Cabelo de Prata), interpretado de maneira formidável por Brendan Gleeson.

Dito isso, a série chega em um momento de incertezas para o gênero de super-heróis, no qual os realizadores parecem não saber ao certo como agradar a um público mais exigente. Spider-Noir, ao menos, não soa pretensiosa; seu intuito é nos brindar com uma aventura policial à moda antiga, sem a preocupação de lançar ganchos para interligar outras obras. Nunca é demais uma produção saber andar com as próprias pernas.

Com um episódio final que faz uma belíssima referência ao clássico "A Dama de Xangai" (1947), do diretor Orson Welles, "Spider-Noir" é o exemplo perfeito de que o gênero ainda tem muito a oferecer, desde que seja conduzido por mãos talentosas.

Onde Assisitir:  Prime-video 

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Cine Dica: Cine Dica: Próxima Atração do Cine Clube Torres -'Submarino'

 Segunda dia 15, às 20h, o Cineclube Torres vai exibir o filme dinamarquês "Submarino" (2010) de Thomas Vinterberg.

É a terceira sessão do ciclo dedicado à produção audiovisual de países nórdicos europeus, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo. O filme, do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, representa, ainda que parcialmente, a fase estética do Dogma 95, filmado com câmara na mão e sem excessivo cuidado formal, como em "Festa de Família", do mesmo autor, exibido ano passado.

E assim como em "Festa de Família", os traumas de infância definem o fracasso e a desfuncionalidade dos personagens de Submarino: dois irmãos se encontram no funeral de sua mãe, cada um num caminho de autodestruição, ambos assombrados por uma tragédia ocorrida em sua juventude."Submarino mergulha lá no fundo da alma humana, onde ela praticamente se perde pelo caminho e esquece de deixar a guia para conseguir voltar à superfície. De tão real, é capaz de te levar também para as profundezas e impedir que você aprecie a beleza do filme. Apesar de ser tão cruel. (Cine Garimpo).

A sessão será realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço. O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.



Serviço:

O que: Exibição do filme "Submarino" (2010) de Thomas Vinterberg

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 15/6, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur

CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Três Mulheres'

 Nota: Filme visto pelos associados no dia 30/05/26


Quando se pensa no cinema sueco, imediatamente se pensa em Ingmar Bergman. Ao longo de sua impecável carreira, o realizador criou filmes enigmáticos nos quais falava sobre si mesmo, sobre sonhos, solidão, comportamento e até o papel da religião na vida do ser humano. Não é à toa que o cineasta serviu de inspiração para realizadores no mundo inteiro.

Woody Allen, por exemplo, bem que tentou em "Interiores" (1978), mas alcançou um equilíbrio perfeito entre a homenagem e sua própria visão autoral em "Crimes e Pecados" (1989). Já o nosso Walter Hugo Khouri chegou bastante perto da essência de Bergman através de "Noites Vazias" (1964). Contudo, é de surpreender o resultado final de "Três Mulheres" (1977). Talvez um dos títulos menos conhecidos da filmografia de Robert Altman, quando revisto, torna-se notório que o realizador buscou inspiração na obra do diretor sueco.

Robert Altman nunca se prendeu a uma única assinatura visual ou temática na realização de suas obras; preferia experimentar todos os gêneros que lhe dessem na telha, importando-se pouco se o resultado seria um sucesso ou um fracasso de bilheteria. Não foi alguém que se entregou aos padrões convencionais de Hollywood, tanto que seus títulos mais conhecidos diferem drasticamente entre si. Basta pegarmos obras como "M.A.S.H." (1970) e "Nashville"(1975) para termos um bom exemplo disso.

Segundo as próprias palavras do realizador, ele fez Três Mulheres inspirado em um sonho incomum que teve em uma determinada noite. Na trama, Pinky Rose (Sissy Spacek) é uma jovem que acaba de conseguir um emprego em um spa de idosos. Mildred (Shelley Duvall) é a encarregada de orientar Pinky sobre o serviço. A jovem se encanta por Millie e logo se torna sua amiga. Ironicamente, ninguém gosta de Millie, mas ela tenta passar a imagem de ser muito popular. Pinky fica cada vez mais dependente da nova amiga, mas essa ligação obsessiva ameaça se romper quando ela vê que Millie levou para o apartamento Edgar Hart (Robert Fortier), um cowboy casado com Willie Hart (Janice Rule), uma artista local que está grávida.

Através da relação entre as duas protagonistas, Robert Altman faz uma síntese de um período de mudanças comportamentais que já vinha ocorrendo há algum tempo em solo norte-americano, mesmo que uma sociedade conservadora tentasse negar. Pinky é a representação da jovem que busca desabrochar espelhando-se em alguém que admira, mas sem saber ao certo como conquistá-la. Já Millie é alguém que insiste em se manter no lado convencional da sociedade, enganando a si mesma e perdendo a própria identidade. Curiosamente, o acidente que Pinky sofre na piscina funciona como uma válvula de escape, e é a partir daí que o filme muda completamente.

É neste ponto que a obra me faz relembrar "Persona" (1966), no qual Ingmar Bergman brinca com a dualidade e as identidades reais de suas protagonistas. No caso deste longa, Altman lança diversas teorias sobre as reais personalidades e intenções de suas personagens, onde o sonho se torna uma peça desse mistério — mas sem ser exatamente primordial, para dizer o mínimo. Quem assiste nunca obtém uma resposta fácil, mas, ao revisitarmos a obra, nota-se o quanto o filme cresce à medida que levantamos novas possibilidades.

Curiosamente, a personagem de Janice Rule seria a terceira mulher do título, embora tenha menos tempo de tela. Porém, seu papel acaba se tornando fundamental para a movimentação das peças dentro da trama, já que ela é ambígua, de poucas palavras e exerce um curioso trabalho com suas pinturas. Estas, por sua vez, funcionam como uma referência ao status de cada personagem no decorrer da história, ou simplesmente representam os demônios interiores que aquelas mulheres buscam conter.

No meu entendimento, este é um filme que fala sobre o vazio das mulheres em um período no qual o lado hipócrita e abusivo do homem já estava desgastado demais para ser tolerado. Ao mesmo tempo, reflete tempos em que as mulheres lutavam por posses e independência individual, quando, na verdade, o verdadeiro poder se encontrava na união entre elas, em um mundo que se tornava cada vez mais cruel e desumano. O ato final me despertou esse pensamento, mas claro que posso estar errado, e talvez tenha sido exatamente esse efeito de ambiguidade que Robert Altman queria obter de quem assistisse ao seu enigmático enredo.

"Três Mulheres" talvez tenha sido uma homenagem indireta de Robert Altman a Ingmar Bergman, mas que se tornou algo único e enigmático através dos anos, conquistando a sua própria identidade no cinema.


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Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Cleo" (13/06) no Instituto Goethe

Neste sábado, dia 13 de junho, nosso encontro será às 10h15 da manhã, no auditório do Instituto Goethe, onde assistiremos ao filme Cleo, primeiro longa-metragem do cineasta alemão Erik Schmitt.

Misturando aventura, romance e fantasia, o filme transforma Berlim em um espaço repleto de histórias, lendas urbanas e passagens secretas. Ao acompanhar a jornada de uma jovem em busca de um relógio capaz de voltar no tempo, Schmitt constrói animações, truques visuais e referências à história berlinense. Cleo propõe um passeio por diferentes camadas do passado e do presente, explorando a relação entre perdas, desejos e a possibilidade, real ou imaginária, de reescrever a própria vida.

Além da sessão de sábado, reforçamos que amanhã (quinta, 11/06), às 19h, damos continuidade ao ciclo "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parceria com a Sala Redenção. O filme da vez é A Chinesa, de Jean-Luc Godard. Após a sessão, haverá um bate-papo com os pesquisadores Alexandre Guilhão e Juliana Costa. Neste ano, o ciclo participa de ação de extensão da UFRGS, de forma que oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares. Inscreva-se!

🗳️ ÚLTIMO DIA PARA VOTAR! A votação para definir os projetos que serão contemplados pela emenda parlamentar que pode beneficiar a preservação da memória do Clube de Cinema se encerra HOJE! Ainda dá tempo de participar, compartilhar com amigos e familiares. A votação leva cerca de 1 minuto: acesse o site, cadastre seus dados, escolha um projeto da saúde e, em "Demais Áreas", selecione Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Contamos com a sua ajuda!


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 13/06, às 10h15 da manhã

📍 Local: Instituto Goethe

Rua 24 de Outubro, 112 – Moinhos de Vento, Porto Alegre

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade


Cleo

Alemanha, 2019, 99min

Direção: Erik Schmitt

Roteiro: Erik Schmitt e Stefanie Ren

Elenco: Marleen Lohse, Jeremy Mockridge, Heiko Pinkowski, Max Mauff

Sinopse: Fascinada pelas histórias e mistérios de Berlim, Cleo sonha encontrar um lendário relógio capaz de voltar no tempo. Quando conhece Paul, um jovem caçador de tesouros que possui pistas sobre o paradeiro do artefato, ela embarca em uma aventura que atravessa diferentes lugares, épocas e memórias da cidade.

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Cine Dica: Em Cartaz – 'Trago o Seu Amor'

Sinopse: Mia, uma bruxa egocêntrica, tem um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou.

A comédia romântica atual tem despertado a atenção do grande público após anos de esgotamento de sua fórmula de sucesso. Produções como "Amores Materialistas" (2025) e "Amores à Parte" (2025) caminham de mãos dadas ao retratar as reais dúvidas de uma sociedade cada vez mais individualista e menos sonhadora em relação ao amor. Em contrapartida, o longa brasileiro "Trago o Seu Amor" (2026) retrocede ao passado ao utilizar velhas estruturas do gênero, tornando-se apenas um aperitivo passageiro para aqueles que ainda celebram o Dia dos Namorados.

Dirigido por Claudia Castro, o longa traz Giovanna Grigio na pele de Mia, uma bruxa com o poder de enfeitiçar qualquer pessoa com um beijo. Junto com seu melhor amigo, Ariel (Diego Martins), ela abre um negócio esotérico para atender clientes de coração partido que desejam reconquistar seus ex-amores. O que ela não imaginava era que acabaria se apaixonando por René (Jê Soares), transformando-se, no dia seguinte, no próximo alvo de seu próprio trabalho a pedido de Yuri (João Manoel).

Trabalhando como assistente de direção de filmes e séries ao longo dos anos, Claudia Castro mostra que ainda tem muito a aprender atrás das câmeras — e, portanto, só posso desejar-lhe boa sorte. A produção possui aquela velha fotografia supersaturada e colorida das comédias nacionais tradicionais, funcionando como um cartão de boas-vindas para que o espectador se sinta à vontade para apreciar um mero passatempo. A obra chega a ser curiosa ao cruzar gêneros distintos, mas não vai muito além disso.

Logicamente, é um projeto com o qual o público geral pode se identificar, já que muitos de nós, em algum momento, já recorremos a uma simpatia ou a profissionais experientes no assunto. Giovanna Grigio se sai bem como a "bruxa de autoajuda", mas o fato de ela ser imune aos sentimentos de quem se aproxima já entrega o que acontecerá em seguida. Suas cenas com Jê Soares até fluem com boa química, mas a dinâmica não passa disso.

Porém, quem rouba a cena é Diego Martins. Seu Ariel funciona como uma espécie de consciência para a protagonista, brindando o espectador com os momentos mais divertidos da trama. Curiosamente, o roteiro dá a entender que ele terá uma aproximação com o personagem de João Manoel, mas a subtrama fica estranhamente no ar, como se algum rolo de filme tivesse sido sacrificado na edição final. Uma pena, pois Diego transmite uma energia contagiante sempre que surge em cena, algo de que a narrativa precisava muito.

Se tivesse sido lançado nos anos noventa ou no início dos anos 2000, o filme poderia ser mais apreciado, surgindo até mesmo como uma obra à frente de seu tempo por explorar o afeto homoafetivo. No entanto, ele chega em um cenário em que o gênero exige atualização, e não a insistência em uma fórmula cujo desfecho já conhecemos de cor. Para quem se lembra do final do clássico "um Lugar Chamado Notting Hill" (1999), já adianto: vocês irão presenciar um verdadeiro déjà-vu.

"Trago o Seu Amor" chega atrasado perante o novo panorama da comédia romântica, mesmo com suas boas intenções de atrair os que ainda teimam em acreditar na existência de uma alma gêmea.



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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'BuenosAires'

Sinopse: Longa acompanha uma pequena cidade do interior que transforma uma coincidência em vínculos afetivos marcados pelo futebol e pela cultura popular.

Eu já assisti tantos documentários sobre determinadas cidades do interior do Brasil que fica até mesmo difícil me lembrar o nome dos títulos. Porém, eu sempre me lembro que são obras que exploram a cultura local e revelando o quanto ainda há certos costumes de nosso país que a gente ainda desconhece. Um desses casos é "BuenoAires" (2025), documentário que nos revela uma cidade que os nossos hermanos argentinos se sentiriam mais à vontade.

Dirigido por Tuca Siqueira, o documentário se passa na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a "coincidência” de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.

É curioso observar que Tuca Siqueira não procura os motivos que levaram essa cidade a ganhar esse nome, mas sim como as pessoas convivem com ela em sua realidade. Visualmente a região possui toda cultura nordestina como um todo, mas tendo inserido aqui e ali elementos culturais dos nossos hermanos, desde as camisetas da seleção, gastronomia e até mesmo um bairro que é uma representação de um local específico da verdadeira Bueno Aires. É neste ponto, por exemplo, que testemunhamos o lado bem humorado dos habitantes de lá, que levam essa situação  na esportiva e preservando essa cultura ano após ano.

Não há rivalidade hostil entre os países através das seleções, mas sim se nota uma discussão saudável entre as pessoas e cada um torcendo de sua maneira. Curiosamente, o documentário foi rodado durante a última Copa, onde a Argentina obteve o seu tri campeonato e fazendo com as gravações ganhassem ainda mais energia durante a produção. Há se destacar também alguns habitantes que são realmente argentinos e que chegaram no local para seguir uma nova vida como um todo.

Um desses é o rapaz argentino que trabalha no ramo em detectar metais abaixo do solo e usando a sua criatividade para manter o ofício ainda intacto. A cena inicial, por exemplo, nos mostra o rapaz chegando à região, como se fosse um guia para essa cidade até então desconhecida para a maioria dos brasileiros. Entre sonhos e esperança, o filme também reserva momentos em que há aqueles que mantêm os seus sonhos intactos, mesmo com poucos recursos, mas é graças ao ambiente amigável da cidade que faz com que certos desejos se mantenham ainda vivos.

Com pouco mais de uma duração,"BuenoAires" é uma representação clara de um Brasil ainda desconhecido e revelando uma cultura que se mescla de forma harmoniosa com o nosso país vizinho. 



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Cine Dica: Cinesemana de 11 a 17 de junho de 2026

A cinesemana de 11 a 17 de junho apresenta três estreias em nossa programação. Uma delas é o novo filme do diretor espanhol Julio Medem, que acompanha os encontros e desencontros de um casal em 8 DÉCADAS DE AMOR. Também temos a estreia do longa CRIADAS, da diretora Carol Rodrigues, em que duas primas retomam o contato depois de muitos anos e revivem dramas familiares. A terceira estreia é BUENOSAIRES, documentário que apresenta as peculiaridades de uma pequena cidade no interior de Pernambuco onde as pessoas são apaixonadas pela cultura argentina.

Seguimos em cartaz com o longa iraquiano O BOLO DO PRESIDENTE, um drama ambientado nos anos 1990 e protagonizado por uma menina de 9 anos que precisa comemorar o aniversário de Saddam Hussein. A França está representada por três coproduções: OLHE O MAR, uma história que une um casal divorciado em torno dos problemas de saúde do filho; CHOPIN – UMA SONATA EM PARIS, que acompanha os últimos anos da vida do pianista polonês; e FANON, com a cinebiografia do psiquiatra Frantz Fanon, reconhecido por seus estudos sobre as consequências emocionais dacolonização.

A programação segue com NATAL AMARGO, o novo filme do cultuado diretor espanhol Pedro Almodóvar e que mostra os dilemas de um cineasta em crise de criatividade. Estes são os últimos dias para conferir o documentário brasileiro ALMA NEGRA, DO QUILOMBO AO BAILE, do diretor Flavio Frederico, e o longa O ESTRANGEIRO, baseado na obra do escritor Albert Camus. 

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui. 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'COPAN'

Sinopse: O edifício Copan vive dias turbulentos que antecedem as eleições presidenciais de 2022.

Segundo o Antigo Testamento, após o dilúvio, a humanidade falava o mesmo idioma e seguiu em direção à planície de Sinar. Para evitar que se espalhassem pelo mundo e para criar um monumento que os tornasse célebres, os homens decidiram construir uma cidade e uma torre altíssima que alcançasse os céus. Ao ver a ambição e a vaidade do povo, Deus confundiu a língua que falavam para impedi-los. Incapazes de se comunicar, os trabalhadores abandonaram a obra e se espalharam pela Terra.

Hoje, em pleno século XXI, época em que deveria haver maior comunicação e compreensão em relação ao próximo, tudo indica que retrocedemos ainda mais se compararmos nossa realidade aos eventos bíblicos. É curioso observar que o povo brasileiro atual fala a mesma língua, mas se encontra dividido devido a questões políticas cujos debates se tornam cada vez mais acalorados. "Copan" (2026) é o retrato de uma Torre de Babel erguida pelo homem, mas cujo cenário de cisão não foi imposto pelas mãos divinas.

Dirigido por Carine Wallauer, o documentário revela o cotidiano dos moradores do famoso prédio projetado por Oscar Niemeyer, em São Paulo, durante uma disputa administrativa no local. Com o mesmo síndico há mais de 30 anos, os residentes precisam lidar também com as tensões políticas entre os candidatos à presidência que polarizavam o Brasil. Aos poucos, revela-se um panorama em que as pessoas daquele ecossistema se encontram cada vez mais distantes umas das outras.

Nota-se, no decorrer da projeção, que a diretora nos transmite total segurança ao perambular pelos corredores do prédio e registrar as conversas de seus habitantes. Essa naturalidade se deve ao fato de a realizadora ter residido no local por mais de sete anos, desenvolvendo afeto por quem mora lá. Por conta disso, em nenhum momento a notamos intervir ou direcionar as reações das pessoas na tela; ela mantém uma posição neutra, desnudando os dois lados daquela engrenagem.

Os condôminos não ficam divididos apenas com relação à possível troca de gestão do prédio, mas também pelo clima que antecede o pleito presidencial de 2022. Wallauer registra de forma minuciosa as opiniões e os quase embates que ocorrem nos corredores, ao ponto de o espectador ficar apreensivo com a possibilidade de uma agressão física, já que alguns indivíduos se recusam a ouvir vozes dissonantes. É, portanto, uma síntese do Brasil recente, onde o cenário político dividiu a população de tal modo que não há mais escuta, mas sim uma defesa cega de dogmas pessoais, doa a quem doer.

Devido a isso, o paralelo entre a nossa atualidade e a passagem bíblica é mais do que válido. A diferença é que não houve uma intervenção divina para cortar o diálogo entre as pessoas: elas mesmas provocaram isso por meio da soberba e da falta de empatia. Querendo ou não, todos pertencem à mesma Torre de Babel, e cabe a nós voltar a dialogar antes que tudo desabe sob o peso dos próprios egos.

Vale destacar que a cineasta cria aqui uma espécie de híbrido entre documentário e ficção, ou seja, uma realidade mais nua e crua, onde personagens reais se apresentam como eles mesmos em suas rotinas diárias. Isso não é apenas uma forma de o público se identificar com a premissa, mas também de constatar o quanto o real é complexo. Em suma, é curioso observar como a realidade transcende o imaginário de forma assustadora, superando qualquer ficção hollywoodiana.

"Copan" é o retrato vivo de uma Torre de Babel brasileira, cuja divisão foi imposta pela própria cegueira do homem contemporâneo.


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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 11 A 17 DE JUNHO

 "Tatame”, drama ambientado em Campeonato Mundial de Judô no Irã, e “Criadas”, da brasileira Carol Rodrigues, são as estreias de 11 de junho no CineBancários

Drama esportivo que acompanha atleta iraniana pressionada a abandonar a competição por razões políticas divide a programação com longa nacional que expõe traumas provocados por resquício escravocrata. O CineBancários exibe, na cinesemana de 11 a 17 de junho, os filmes “Tatame”, drama esportivo e político ambientado em campeonato mundial de judô, e “Criadas”, trama dirigida por Carol Rodrigues que perpassa dores comungadas por pessoas negras no Brasil. O iraniano “O Bolo do Presidente” segue em cartaz na sala da Casa dos Bancários.

TATAME

Inspirado em tensões reais da geopolítica contemporânea e exibido no 80º Festival de Veneza, “Tatame” é apresentado como o primeiro longa-metragem codirigido por um israelsense (Guy Nattiv, vencedor do Oscar de curta-metragem por “Skin”, de 2018) e uma iraniana (Zar Amir Ebrahimi, melhor atriz no Festival de Cannes por “Holy Spider”, de 2022).

Durante o Mundial de Judô, a atleta iraniana Leila  (Arienne Mandi)  enfrenta um dilema político e moral: o regime de seu país exige que ela abandone a competição ou simule uma lesão para evitar um possível confronto com uma judoca israelense. Sob pressão da treinadora Maryam (Zar Amir) que viveu traumas semelhantes no passado, Leila se recusa a ceder. O que começa como uma ordem burocrática escala rapidamente para ameaças diretas à segurança e às famílias de ambas, transformando a busca pela medalha em uma luta desesperada por liberdade e integridade própria e de seus familiares em Teerã.

Assim, Tatame articula com eficiência a tensão de uma competição esportiva com o suspense de um thriller político, explorando os limites da autonomia individual diante de estruturas de poder. O dilema central — seguir competindo ou ceder à coerção — não é tratado apenas como um recurso dramático, mas como um impasse ético que atravessa toda a narrativa.

Fotografado em preto e branco, com câmera móvel e próxima aos corpos das atletas, o longa transforma as lutas em cenas de alta tensão cinematográfica, evitando o registro meramente documental. O longa recebeu o Brian Award, prêmio especial do Festival de Veneza concedido a longas que promovem valores como direitos humanos, democracia e liberdade de consciência sem distinção de gênero ou posições religiosas. Em 2024, a mesma distinção foi para “O Quarto ao Lado”, de Pedro Almodóvar.


CRIADAS

É com a imagem de “A Redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos, símbolo maior do mito da democracia racial brasileira, em chamas, que “Criadas”, primeiro longa-metragem de Carol Rodrigues, começa. Mas o efeito reverse motion (de reversão), com o fogo reconstituindo o quadro, indica que o reencontro das primas Sandra (Mawusi Tulani), negra retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara não obedecerá às linearidades. Como engenheira, a primeira retorna à casa em que foi criada junto da prima, hoje uma chef de cozinha, à procura de fotos de sua mãe Ivone (Ivy Souza), então empregada na residência da prima Olívia (Sarito Rodrigues), durante a infância delas.

Esse é o fio condutor da trama que perpassa dores comungadas por pessoas negras no Brasil, em maior ou menor escala, graças ao colorismo e aos resquícios do sistema escravocrata tão presentes nas relações estabelecidas entre patroas x funcionárias do lar. E, no filme, com o agravante de que elas pertencem ao mesmo núcleo familiar.

Em meio ao acerto de contas com as feridas racistas de seu passado, as primas Sandra e Mariana começam a conviver, na casa onde cresceram, com forças sobrenaturais resistentes às suas novas posições sociais. As duas também são visitadas por suas versões ainda criança, interpretadas, respectivamente, por Vitória Marques Rodrigues e Alice de Jesus Feitosa. Com expressões infantis marcantes, ora de frustração, ora de descontentamento, elas delimitam os lugares sociais que cada uma podia ocupar naquele período.

O chamado de volta ao presente é feito no filme pela personagem Raquel, vivida pela angolana Rudimira Fula, então responsável pela limpeza da casa de Mariana. O retorno afrodiaspórico, por se tratar de uma imigrante, serve um outro ponto de vista territorial. Mulher sábia, ciente da dicotomia vivida naquele espaço pelas duas primas, faz de tudo para fazer seu trabalho e entrar e sair de lá sem sofrer qualquer tipo de prejuízo financeiro.

Diferentes camadas de luta encampadas por pessoas negras também atravessam as personagens em pautas como a invisibilidade no mercado de trabalho, a apropriação intelectual de quem não ocupa cargos de chefia, mesmo tendo competência e superformação para tal e recorrência de que duas pessoas negras ou mais raramente integram uma equipe, em ambientes corporativos montados no limite da cota racial. Subjetividades como a responsabilidade quase universal de honrar os antepassados, em geral, mães e avós, também são trazidas e é um sentimento compartilhado por Carol Rodrigues, que fez do filme uma declaração de amor a própria avó, Esméria, que partiu dessa dimensão 16 dias antes dela começar a rodar.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 11 A 17 DE JUNHO


ESTREIAS:

TATAME

EUA-Israel-Georgia-Inglaterra/Drama/2023/105min

Direção: Zar Amir Ebrahimmi e Guy Nativv

Sinopse: durante o mundial de judô, uma judoca iranaiana é ameaçada pelo comitê do próprio país, que quer que ela abandone a competição para não enfrentar uma atleta israelense. Sua permanência no troneio coloca em risco tambem sua família e a de sua treinadora, Maryam, uma ex-atleta.

Elenco: Arienne Mandi, Zar Amir Ebrahimi, Jaime Ray Newman, Nadine Marshall, Lir Katz, Ash Goldeh.

CRIADAS

Brasil/Drama/2025/105min

Direção: Carol Rodrigues

Sinopse: Sandra retorna à casa de sua prima Mariana em busca de uma foto de sua falecida mãe, que trabalhou ali como empregada residente para os pais de Mariana. Embora tenham sido criadas juntas, Sandra, negra de pele escura, e Mariana, negra de pele clara, viveram aquela casa de formas muito diferentes. Ao se reconectarem, memórias há muito enterradas tomam forma ao redor delas. Fantasmas da infância, da ancestralidade, de um amor que nunca foi embora completamente.

Elenco: Ana Flavia Cavalcanti, Mawusi Tulani, Sarito Rodrigues, Ivy Souza, Rudmira Fula


EM CARTAZ:


O BOLO DO PRESIDENTE

Iraque/Drama/2025/105min.

Direção: Hasan Had

Sinopse: No Iraque dos anos 1990, em meio à guerra e à falta de comida, o presidente determina que todas as escolas do país façam um bolo em homenagem ao seu aniversário. Lamia, de apenas 9 anos, tenta escapar da tarefa, mas acaba sendo escolhida entre os colegas. A menina, então, precisa recorrer à sua criatividade para conseguir os ingredientes e cumprir a missão de preparar o bolo imposto pelas autoridades.

Vencedor do prêmio Caméra d’Or para melhor filme de diretor estreante em Cannes e do prêmio do público da Quinzena dos Cineastas, também em Cannes.

Elenco: Baneen Ahmad Nayyef, Sajad Mohamad Qasem, Waheed Thabet Khreibat, Rahim AlHaj



HORÁRIOS DE 11 A 17 DE JUNHO

(não há sessões nas segundas)

15h: O BOLO DO PRESIDENTE

17h: CRIADAS

19h: TATAME (NO DIA 13/6, SÁBADO, NÃO HAVERÁ SESSÃO DE TATAME EM FUNÇÃO DO JOGO DO BRASIL NA COPA DO MUNDO)


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br

Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484