quarta-feira, 4 de março de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Hora do Recreio'

Sinopse: Fala sobre temas paralelos à educação básica no Brasil e que refletem a realidade de adolescentes de 14 a 19 anos que estudam em quatro colégios espalhados por diferentes bairros e comunidades do Rio de Janeiro.

O tipo de documentários que mais me chama atenção são aqueles que não há uma intervenção do realizador, mas sim permitindo que as pessoas filmadas agem de acordo com a sua própria natureza. O documentário "A Vizinhança do Tigre" (2014), por exemplo, não tinha uma interação entre diretor e protagonista, mas sim somente a câmera captando a real  ação e reação dos personagens em cena. "Hora do Recreio" (2026) caminha por um caminho parecido, mas transitando com a interação com os realizadores e dando espaço para outros elementos que moldam uma história como um todo.

Dirigido por Lucia Murat, o documentário discute a educação brasileira a partir do ponto de vista dos próprios estudantes. O longa-metragem mistura documentário e encenação ficcional para falar sobre temas paralelos à educação básica no Brasil e que refletem a realidade de adolescentes de 14 a 19 anos que estudam em quatro colégios espalhados por diferentes bairros e comunidades do Rio de Janeiro. O  longa une debates com os alunos em sala de aula sobre os temas evasão escolar, racismo, tráfico de drogas, bala perdida, feminicídio e gravidez na adolescência.

No primeiro ato do longa nós vemos uma professora falando com os seus alunos sobre a violência contra a mulher. Imediatamente a câmera foca os alunos em que cada um conta a sua história com relação a violência que já sofreram no passado, seja dentro da realidade familiar, ou com relação ao preconceito. Logo em seguida o quadro se abre e constatamos que os alunos foram chamados para serem eles mesmos em uma filmagem de Lúcia Murat.

Há, portanto, uma mistura curiosa entre a realidade e a ficção, já que as histórias contadas pelos alunos são verdadeiras, mas sendo também ensaiadas para que fossem melhor apresentadas para o público que for assistir. O documentário ganha pontos ao fazer com que os alunos captados pela câmera  sejam eles mesmos, mas também não escondendo os seus contornos romantizados a partir da direção da cineasta e fazendo com que em alguns momentos a gente se pergunte onde começa a ficção e onde começa a realidade. Porém, as cenas de tiroteio nos morros captadas pela câmera são uma fórmula criativa para constatarmos que nem tudo estava no roteiro e fazendo com que o imprevisto se torne também um elemento dramático.

Diante disso, o documentário se envereda também para o universo do teatro, onde os jovens das comunidades extravasam as suas dores através da atuação e construindo uma representação sobre o preconceito e diferença de classes que perdura até nos dias de hoje. Lúcia Murat, portanto, escancara o fato que basta uma pessoa ser negra, para que ela seja perseguida ou excluída de uma elite que se acha dominante, quando na verdade somente escancara o lado atrasado da sociedade. Além disso, não faltam depoimentos de jovens que sofrem preconceito ao ficarem gravidas precocemente, ou pelo fato que o estado não está nem aí para ajuda-las e não deixando um espaço para que questão sobre o aborto serem debatidas.

O documentário, portanto, entra em um vespeiro que vai desde ao preconceito, separação de classes, o poder patriarcado escondido em um país que se diz democrático e a falta de recursos para a cultura. Essa última, por sua vez, é o único elemento com que faz a futura geração não cair em certas armadilhas da vida, pois através do estudo, escrita e conhecimento são os únicos pilares que constroem uma sociedade em equilíbrio. Infelizmente não serão todos que ouviram essa ideia que sempre deveria ser colocada em prática.

"Hora do Recreio"  é um mosaico de informações sobre a geração atual brasileira que luta contra o preconceito, violência e a busca pelo equilíbrio e manter a sua própria cultura intacta. 


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