sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema – 'Roma de Fellini'

 Nota: Filme assistido pelos associados no último dia 27/09/26

Federico Fellini foi um realizador que começou sua carreira no cinema quando o neorrealismo italiano já dava os seus últimos sinais, o que permitiu ao cineasta colocar em prática sua visão particular. Todavia, é notório quanto desse movimento ele trouxe para a sua filmografia, entrelaçando-o ao seu lado criativo no desenvolvimento de histórias marcantes. "Roma de Fellini" (1972) pode ser visto tanto como uma autobiografia do realizador quanto como uma análise de Roma — em suas entranhas e em sua superfície — ao longo da história.

No longa, vemos a capital da Itália — a Cidade Eterna para os íntimos, por sua trajetória milenar — como um ponto de encontro de diversas narrativas que sintetizam o próprio papel da humanidade na Terra. Fellini vivenciou o cotidiano da cidade em diferentes etapas de sua trajetória: desde a chegada ainda criança (Stefano Mayore), passando pela fase jovem (Peter Gonzales), até os tempos contemporâneos.

Transitando entre a reconstituição de época da juventude do realizador e os tempos calorosos do início dos anos setenta, Fellini constrói uma visão sobre a cidade que tanto ama. Trata-se de uma Roma que passou por maus bocados durante a Segunda Guerra Mundial e cuja reconstrução serviu de molde para o movimento neorrealista. Não estamos diante de um filme convencional — o próprio diretor deixa isso escancarado já na abertura —, e tudo o que podemos fazer é desfrutar de suas imagens inventivas. Não há exatamente um protagonismo em cena, a não ser a própria Roma.

Curiosamente, "Amarcord" (1973) costuma ser apontado como a grande reconstituição da juventude do cineasta. Aqui, porém, sua própria figura fica em segundo plano, enquanto ele decide caminhar pelas ruas da cidade com a câmera, observando pessoas comuns em seu dia a dia e sintetizando os elementos de um momento em que a capital sofria profundas transformações com a passagem do tempo. Há, por exemplo, um atrito evidente entre a velha guarda italiana e a nova geração que surgia naquele período — em que sexo, amor e drogas ditavam o ritmo, fazendo a geração passada temer pelo futuro do país.

Há, contudo, uma hipocrisia latente em relação a isso, venha ela do lado conservador ou da própria Igreja tradicional, que não esconde o submundo do prazer: desde as mulheres livres pelas ruas até a cultura do teatro e da música, revelando uma faceta à italiana com a qual o espectador logo se identifica. Nesse cenário, vemos figuras que se entregam à comida, à bebida e a uma malandragem que corre solta em cenas deveras hilárias.

Porém, o ápice do longa se encontra quando Fellini se entrega por completo ao registro documental, especialmente na rodovia onde filma de tudo um pouco: discussões no trânsito, acidentes e protestos a todo momento. A câmera é trêmula, por vezes em plano-sequência, fazendo da viagem uma experiência quase sensorial. Arrisco dizer que é um dos melhores momentos da carreira do realizador, pois a verossimilhança e o imaginário do cineasta se casam de uma forma raras vezes vista.

Há espaço até mesmo para adentrarmos o subsolo de Roma, que mais parece uma cidade subterrânea abandonada cuja história começa a se deteriorar diante dos nossos olhos — uma forma de nos dizer que o tempo tudo destrói e que cabe a nós, meros mortais, mantermos a memória viva para termos noções do que fomos um dia. Ao final, vemos motociclistas correndo sem rumo, mal sabendo o que reserva o futuro misterioso em que hoje vivemos.

"Roma de Fellini" é uma declaração de amor do diretor à sua cidade e uma síntese de sua genialidade em narrar histórias sobre o próprio berço da civilização ocidental.

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Cine Dicas: Estreias do Final de Semana (02/10/26)

 DIGGER

Sinopse: A trama acompanha o homem mais poderoso do mundo que, após causar uma catástrofe global, inicia uma missão frenética para se redimir e provar que é o salvador da humanidade. Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de seus atos antes que o desastre que desencadeou destrua tudo.


VERITY

Sinopse: Lowen Ashleigh é contratada por Jeremy Crawford para escrever romances para sua esposa Verity, autora de best-sellers, que não consegue terminar de escrever após um acidente.


A QUEDA 2: NO LIMITE

Sinopse: De luto pela morte de sua irmã Shiloh, Jax Hunter cria um laço com Luce, a amiga corajosa de Shiloh. Juntas, elas enfrentam a perigosa passarela suspensa do Monte Kwan, na Tailândia. Quando um deslizamento de rochas as deixa presas em uma estreita prancha a mais de 3.000 metros de altitude, Jax precisa enfrentar seus medos para sobreviver.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Clube de Cinema: "Meu Tio" (03/10) na Cinemateca Paulo Amorim

Neste sábado (03/10), o Clube de Cinema de Porto Alegre se reúne às 10h15 da manhã na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir a comédia Meu Tio, de Jacques Tati.

O filme constrói uma sátira da vida moderna a partir do contraste entre dois mundos. De um lado, a casa dos Arpel, equipada com aparelhos e soluções automatizadas que tornam o cotidiano cada vez mais rígido e impessoal; de outro, o bairro onde vive o Sr. Hulot, marcado pelo improviso, pelo barulho e pela convivência entre seus moradores. No centro dessa oposição está Gerard, que encontra no tio uma possibilidade de escapar das regras e convenções do universo familiar.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 03/10, às 10h15

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre


Meu Tio (Mon oncle)

França e Itália, 1958, 117min

Direção: Jacques Tati

Roteiro: Jacques Tati, Jacques Lagrange e Jean L'Hôte

Elenco: Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie, Lucien Frégis, Betty Schneider, Jean-François Martial, Dominique Marie, Yvonne Arnaud, Adelaide Danieli

Sinopse: Gerard vive com os pais em uma casa moderna e automatizada no subúrbio de Paris, mas o menino gosta de visitar seu tio Hulot, que mora em um bairro mais simples e movimentado. A convivência entre os dois se torna motivo de preocupação para os pais de Gerard, que tentam afastá-lo da influência do tio.


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Cine Dica: Cinesemana de 1 a 7 de outubro de 2026

 Atenção: devido às eleições, a Cinemateca Paulo Amorim não terá programação neste domingo, dia 4.

A cinesemana que abre o mês de outubro traz quatro novos filmes à programação da Cinemateca Paulo Amorim. Um deles é o aguardado NAZA, documentário de Rachel Szor e Yuval Abraham que traz relatos importantes sobre as vítimas das operações militares de Israel em Gaza. Outro título festejado é RAN, de Akira Kurosawa, que volta aos cinemas em cópia restaurada para marcar os 40 anos de sua estreia. A música brasileira é tema de um documentário dedicado a um nome importante da década de 1970: AS DORES DO MUNDO: HYLDON, de Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues. Também garantimos espaço para o novo filme do criativo diretor Guto Parente, que combina humor e terror em MORTE E VIDA MADALENA.

Seguem em cartaz os longas europeus TRÊS VEZES ADEUS, da diretora espanhola Isabel Coixet; e MIRRORS NO. 3, do alemão Christian Petzold. O público ainda tem chance de assistir à comédia MUITO PRAZER, de Jorge Furtado, sobre três jovens que tentam reabrir um motel decadente. Alguns títulos continuam prestigiados pelo público, como é o caso da ficção brasileira VIRTUOSAS, de Cíntia Bittar, além do documentário GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE, dirigido por Susanna Lira e vencedor do Festival de Gramado. Em sexta semana e compartilhando os horários, seguem na programação A QUINTA PORTUGUESA, de Avelina Prat; e AS CORES DO TEMPO, de Cédric Klapisch.

Para quem ainda não viu, ACAMPAMENTO MIASMA: SEXO, ADOLESCÊNCIA E MORTE, de Jane Schoenbrun, terá duas sessões de despedida nesta semana.

Confira a programação completa da cinemateca clicando aqui.