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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Cine Dica: Em Cartaz: ELIS



Sinopse: Cinebiografia conta a história da cantora Elis Regina, que nasceu em 17 de março de 1945, em Porto Alegre. Ela começou a cantar ainda na infância e deixou o Rio Grande Sul para galgar passos mais largos na carreira. Apelidada de Pimentinha, por causa do gênio forte, a estrela lançou clássicos da música popular brasileira, como “Alô Alô Marciano”, “Fascinação” e “Como Nossos Pais”. Ela morreu em 19 de janeiro de 1982, aos 36 anos, vítima de uma overdose de cocaína e álcool.

Por eu ter nascido em 1980 eu não tive a chance de acompanhar toda a carreira de sucesso da cantora Elis Regina. Porém, foi graças a estações de rádio aqui do RS (como a Continental) que eu pude ter o privilégio de ouvir a sua voz e conhecer ao longo dos anos inúmeras canções que se tornaram clássicas dentro da história da música brasileira. O filme Elis, pode até não ser fiel 100% com relação a todas as passagens da vida dela, mas que pelo menos passa a sua essência.
Dirigido e roteirizado por Hugo Prata, acompanhamos o princípio, sucesso e  queda da cantora Elis Regina (Andreia Horta, ótima), que veio do interior do RS para tentar sucesso como cantora no RJ. Começando a cantar em boates e pequenos auditórios, Elis rapidamente alcançou o estrelato tanto sonhado por ela. Porém, a realidade aos poucos bate a sua porta e ela descobre que sempre haverá um grande preço a se pagar.
Com uma bela reconstituição de época, onde a fotografia exala o clima das três décadas retratadas na tela, o filme começa justamente em 1964, onde Elis começou a dar os seus primeiros passos, mas ao mesmo tempo teve que enfrentar inúmeros obstáculos, desde as mudanças políticas da época, como também o machismo que imperava. O filme acerta ao retratar a personalidade forte da cantora, onde não se intimidava perante homens gananciosos, mas sim respondia à altura para alcançar os seus objetivos.
Não é fácil, portanto, fazer um retrato fiel, não somente físico, como também de uma personalidade distinta e que falava por si. Para atuar como Elis era preciso uma atriz que se entregasse de corpo e alma e coube Andreia Horta (Muita Calma nessa Hora) para alcançar o tal feito. Embora não tenha um físico parecido, Andreia simplesmente encarnou a Elis, mas não somente graças à maquiagem ou penteado, como também os trejeitos e um olhar cheio de força e determinação assim como tinha a cantora.
Contudo, Andreia tem uma voz que não lembra nem de longe a voz intocável da artista. Coube então aos responsáveis pela trilha sonora e mixagem de som em fazer milagre para que nos momentos em que a atriz atuasse cantando nos palcos fosse no mínimo perfeito. Embora a sincronização tenha saído perfeita, foi graças também ao empenho de Andreia que conseguiu passar toda energia e gingado do qual Elis possuía.
Mas se sua imagem e força são um retrato quase fiel de sua pessoa, talvez os fãs mais radicais sintam falta de uma trama da qual explorasse melhor a sua vida nos mínimos detalhes. Todo mundo sabe que o sucesso que ela obteve foi meteórico, mas na adaptação isso foi usado ao pé da letra, já que não leva nem meia hora de projeção e já vemos a cantora fazendo sucesso na TV. Se isso pode ser considerado um defeito, pelo menos, as presenças de alguns nomes importantes de sua vida, sendo alguns que ajudaram a alcançar o estrelato, se destacam em cena e faz com que a gente se esqueça deste deslize.
Ao começar por Ronaldo Bôscoli, primeiro empresário e marido de Elis e que aqui ganha vida na pele de Gustavo Machado (Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios). Ao retratar essa pessoa importante dentro da vida de Elis, Machado não se intimida em cena e passa todo aquele ar de malandro carioca, do qual não esconde somente ambição em conseguir lucro através da voz dela, como também uma paixão da qual nem mesmo ele soube administrar. É o típico personagem do qual a gente odiaria facilmente, mas é graças ao desempenho do ator que faz com que compreendemos, mesmo com todos os seus defeitos, a pessoa que Ronaldo Bôscoli foi para a vida de Elis.
E se Caco Ciocler não convence em cena como César Camargo Mariano (pianista, último marido de Elis e pai de Maria Rita), Julio Andrade (Gonzaga) rouba cena, ao interpretar o cantor e dançarino Lennie Dale e que ajudou Elis a passar energia no palco. Com um visual que, tanto lembra os melhores dançarinos do documentário Dzi Cocrettes, como também a fase áurea de Ney Matogrosso, Andrade rouba a cena toda vez que surge. Aliás, Lennie Dale foi, em parte, o elo com que fez Elis desse de encontro perante regras e leis rígidas da censura criadas pela ditadura na época.
É aí que o filme se encaminha ao cenário que a levou a ter conflitos, tanto familiares, como também de pessoas próximas e consigo mesma. Elis queria somente cantar, mas ao mesmo tempo tinha a tentação de responder contra os algozes dos artistas da época, mas só não fazia isso para se preservar e proteger a sua família: a cena em que vemos a artista cantando para os militares, para logo depois ser censurada pelos seus próprios fãs, é o principio do fim de uma cantora que, querendo ou não, se tornou vitima de um governo golpista da época.
Infelizmente faltou um pouco mais de coragem no retrato de sua queda, do qual envolveu muitos remédios, bebidas e decepções. Não que fosse necessário um retrato mais cru, mas que talvez tenha faltado um pouco mais de coragem vinda dos seus realizadores. Se os minutos finais funcionam, tanto se deve ao desempenho de Andreia Horta, como também as cenas traumáticas mostradas de cada uma das pessoas próximas ela e que se viram fragilizadas perante a notícia de sua partida. 
Mesmo a gente sentindo que faltou um pouco mais de ousadia, Elis é um filme feito com certo cuidado e carinho para os fãs de ontem e hoje da cantora e que sua presença faz falta dentro do universo da música brasileira.  



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