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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Cine Especial: Michael Haneke: O lado sombrio do nosso tempo: Parte 3



Nos dias 08 e 09 de outubro eu estarei participando do curso Michael Haneke: O lado sombrio do nosso tempo, criado pelo Cine Um e ministrado pelo jornalista  Bruno Maya. Enquanto os dias da atividade não chegam, por aqui eu irei postar sobre os filmes que o cineasta já fez e analisar um pouco sobre o porquê do seu cinema chocar, mas fascinar.

 

A Professora e o Piano (2001)



Sinopse: Erika Kohut (Isabelle Huppert) trabalha como professora de piano no Conservatório de Viena. Ela não bebe nem fuma, vivendo na casa de sua mãe (Annie Girardot) aos 40 anos. Quando não está dando aulas Erika costuma freqüentar cinemas pornôs e peep-shows, em busca de excitação. Logo ela inicia um relacionamento com Walter Klemmer (Benoît Magimel), um de seus alunos, com quem realiza vários jogos perversos.


Um pequeno exemplo do que o diretor Michael Haneke faria no resto da década. Dá para perceber, pela sua filmografia, que o diretor gosta de mexer em um vespeiro sobre o mundo de pessoas no mínimo desajustadas e neste filme a personagem da vez foi Erika Kohut interpretada com intensidade por Isabelle Huppert. Durante todo o filme seguimos o dia a dia dessa personagem solitária e misteriosa, que aos poucos vai se revelando com suas atitudes no mínimo sado masoquistas, principalmente quando surge um aluno que se tornara um possível amante dos seus jogos estranhos nos quais é o único meio de prazer dela. Não faltam momentos fortes de sexo explicito e desagregação, mas é contrabalançado com momentos de execução de música clássica absolutamente belíssima.
Cru e simples do inicio ao fim, o filme é foi um dos grandes ponta pés iniciais do cinema francês no início da década que passou. 

Curiosidades: A personagem da mãe de Erika Kohut foi inicialmente oferecida a Jeanne Moreau; Isabelle Huppert realmente tocou piano em cena. Ela estudou piano por 12 anos, sendo que para se preparar para A Professora de Piano voltou a praticar o instrumento cerca de um ano antes do início das filmagens.



Caché (2005)



Sinopse: Georges (Daniel Auteuil), que apresenta um programa de TV sobre literatura, começa a receber vídeos com imagens suas e da família. E ele não faz idéia de quem está enviando. Gradualmente, as filmagens começam a ficar mais íntimas, sugerindo que o chantagista conhece Georges há um tempo. Ao mesmo tempo em que as ameaças aumentam, a política se recusa a ajudar a desvendar o mistério.



O filme é exímio na sua dedicada descrição dos efeitos da culpa e da repressão, enquanto se cerca dos fantasmas que habitam as feridas interiores de uma França com fortes políticas de segregação racial e ávida de redimir o mal de outrora. Aos poucos, Haneke parte do retrato de uma intimidade familiar com intensos problemas de comunicação para traçar um cenário oblíquo da identidade de um país que vive amargurado com as ações do seu passado recente. Assim, chegando à raiz do argumento, Caché mostra as suas verdadeiras guelras, revelando o seu forte subtexto político (que entra em conflito diretor com o drama vivido pelas personagens). Haneke tem uma habilidade característica para mexer os cordelinhos das expectativas do espectador (basta reportarmo-nos a Funny Games, que continua a ser o exemplo máximo desta capacidade) e, nessa medida, Caché não foge à regra. O jogo mental começa logo ao início, quando afinal o que estamos a ver não é um acontecimento atual, mas sim as imagens de uma gravação. O poder ilusório das imagens, que se alastra na sociedade atual, é algo que perpassa o filme e com uma nota bastante curiosa: há alturas em que não sabemos se determinados cenários estão a ser observados pelos olhos de alguma das personagens ou se são fruto de mais uma gravação de vídeo.






Violência Gratuita (2007)



Sinopse: Neste thriller provocante e brutal do diretor Michael Haneke, uma família em ferias recebe a inesperada visita de dois jovens profundamente perturbados. A partir daí suas ferias de sonhos se transformam em pesadelo quando são sujeitados a inimagináveis terrores e provações para continuarem vivos.


Pessoas gostam de violência, talvez seja esse pensamento que o diretor tenha em mente quando fez Violência Gratuita em 1997 então ele pensou assim: e que tal banalizada? Virar um jogo? Pois é isso que o diretor Michael Haneke fez na primeira vez que levou as telas este filme naquele ano. Na verdade talvez a intenção dele fosse fazer uma critica a sociedade da Áustria, principalmente a parte mais rica por se considerar indestrutível e intocável.
Na trama vemos uma família normal, com suas vidas normais, felizes, intocáveis e acreditando que nada irá acontecer. Mais eis que o inferno aparece na pele de dois jovens que simplesmente não dão explicação nenhuma do porque estarem torturando, pois eles fazem tudo com um único objetivo: fazer um jogo entreter quem está assistindo. A trama chega um ponto que um dos lunáticos olha para câmera e diz que quer dar um final melhor possível para telespectador que está assistindo. Um reflexo sobre como a violência se tornou banal hoje em dia, tanto nos filmes como na vida real.
O diretor chegou ao ponto de fazer essa brincadeira, ao misturar humor negro com a violência e botando a pessoa que assiste praticamente dentro da história. Atenção para cena do controle remoto, digo isso porque o diretor simplesmente engana o cinéfilo que assiste ao filme e, quando chegou essa parte, por um momento quase peguei o controle remoto do DVD achando que estava dando um problema no filme. Um raro momento em que fui pego numa pegadinha do diretor e creio que eu não fui o único.
Mas a história não parou por ai, pois se ele teve peito de fazer uma crítica no seu próprio país de origem, então porque ele não faria a mesma coisa em território americano? Eis que dez anos depois ele faz, mas com a mesma história e com cenas idênticas quadro a quadro. A única mudança é os atores que são americanos. O casal, por exemplo, são conhecidos nossos: Naomi Watts (Cidade dos Sonhos) e Tim Roth (Cães de Aluguel) e a dupla de desajustados se deram bem melhor nesta versão americana, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet) dão um show de interpretação, principalmente Paul com uma cara de mais psicopata que do ator da versão da Áustria.
Mas porque uma refilmagem? E porque não fez algo de diferente? é praticamente o mesmo filme. Será que era a intenção pegar no pé dos americanos por causa da suas vidas vulneráveis, principalmente de um mundo pós 11 de Setembro e por não estarem preparados para chegada de algo ruim bater na sua casa? Talvez tenha sido está à intenção e o diretor não está nem ai se as pessoas irão gostar ou não do filme porque não há como ficar indiferente com suas obras. Mas advirto: recomendável para quem tem nervos fortes, apesar de que a violência é mais sugerida do que explicita. 


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