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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Cine Especial: O Novo Cinema Argentino: FINAL

O curso sobre o Novo Cinema Argentino já começou e, portanto estou encerrando as postagens desse especial. Porém, gostaria de encerrar de uma forma diferente, postando  aqui uma critica não minha sobre o filme Relatos Selvagens, mas sim escrita por minha colega do curso sobre Sam Peckinpah que eu havia conhecido, a professora da universidade federal do Rio Grande do Sul Glaucia Campregher.  
 
Muitos já viram o filme do argentino Damián Szifron, quem não viu não leia isso que vai estar cheio de spoilers.
O filme é excepcional: forma, conteúdo, capacidade de citar e inovar, tudo! Nas citações tem Almodóvar (que tá na produção) no humor e principalmente no protagonismo feminino no segundo e último episódios; tem "Um dia de fúria" do Schumacher no episódio do Darim; tem "Encurralado" (melhor o título em inglês, "Duelo" ) do Spielberg no terceiro episódio; tem um que de Tarantino na graça da desgraça em todos os episódios.
 tema não é nem um pouco original, há muitos ótimos filmes sobre a violência da vida sempre por um triz na selva pós-moderna (lembro do Short Cuts do Altman ou o Crash do Haggis), só que é trabalhado de uma forma mais crua e mais trágica, a tal ponto das histórias parecerem caricaturas, piadas, mas que a gente fica se perguntando, o tempo todo, até que ponto....
As soluções técnicas simplesmente funcionam (como dizia o querido professor Giba Assis Brasil). O que são aqueles animais na abertura!?! Parados como em fotos de família, ou sei lá, labels de alguma coisa, dado o close gigante e a cor única e forte como pano de fundo, parece mesmo os retratos de cada um de nós, feras perigosas, todos contra todos. O que é aquele primeiro episódio, parece que quase uma mera propaganda, um clip ou um trailer onde se anuncia o tema: o sujeito acuado um dia reage. Um dia: a criança mal amada, o artista humilhado, o amante traído, a funcionária explorada, a órfã injustiçada, o desconhecido ofendido, o cidadão desrespeitado, a vítima sacrificada, reagem. Violentas foram essas agressões todas, à dignidade que nos faz humanos? Violenta será a reação que nos faz bestas selvagens.
Mas o que eu quero dividir aqui, meio que testar com vocês, é uma impressão minha, uma hipótese, talvez ruim (pois viciada no meu eterno otimismo): o filme é otimista. Digo isso, porque, pra mim, os episódios apresentam alguma evolução de uma situação a outra. Senão vejamos...
No episódio de abertura, há um sujeito mal tratado pela vida (que não vemos) mas sabemos que pilota um avião lotado de inimigos, pessoas que o traíram, decepcionaram, sacanearam mesmo. Estão todos ali juntos, aparentemente (pra eles) por acaso, mas na realidade pela inteligência vingativa do piloto (de quem só sabemos o nome). O não relacionamento de ninguém com ninguém faz com que a empatia geral seja 0! De todos para com todos no filme, mas também nossa para com qualquer dos personagens. Daí ser fácil explodirmos em risadas vendo todo mundo espatifar no chão, ou melhor, na cara dos pais daquele de quem sabemos o nome (a nossa empatia mínima vai pra ele).
No segundo, as pessoas envolvidas se conhecem, não estão ali por acaso, mas se conhecem pouco. A jovem garçonete não sabe que a outra já foi presa, ou que o sacana que afundou sua família na lama tem um filho adolescente que vai se encontrar com ele. Claro que ela não sabe de si também, da sua coragem em matar o inimigo. Apenas na situação concreta, no risco da luta (de vida e morte) todos vão se revelar minimamente uns para os outros.
No terceiro episódio os dois personagens não se conhecem mas vão compartilhar da intimidade de uma estrada só deles, por algum tempo pelo menos; e depois da intimidade de um carro - metade da luta destes (de vida e morte) se passa no carro. Talvez eles passem mais tempo sabendo quem o outro é, do que é capaz, que as duas moças na história anterior.
No quarto, o do Darím (já somos íntimos de tanto tempo que tenho passado com ele , ele nas telas e eu nas poltronas), todo mundo conhece todo mundo, colegas de trabalho, e familiares. Mas esse conhecimento, no corre e corre da vida, não nos permite saber exatamente quem somos. É quando explodimos que vemos se a esposa fica com a gente, se o filho nos entende, se o chefe nos despede, etc. (nestas horas mesmo pessoas íntimas por vezes tem de falar por meio de outras, como advogados). E explodimos por que? Não necessariamente, como nos episódios anteriores, porque alguém nos sacaneou geral! Por vezes, basta que as pequenas sacanagens - as sacanagens que nem tem autor bem definido, as sacanagens do "sistema" - se acumulem e que caiam numa hora ruim. Diferente dos episódios anteriores este acaba com um pós explosão da violência mostrado, e mostrado como "bem resolvido". Ninguém morre, o sujeito é preso, mas ganha respeito (e quem sabe até intimidade!) dos colegas de cárcere e de quebra ainda tem a esposa que o quis deixar de volta!
O quinto episódio destoa um pouco dos demais: uma violência acidental (ainda que besta) inicia o episódio - o rapaz bêbado atropela e mata mãe e filha - e este segue mostrando quão mais besta pode ser a solução que o sistema (ou quem está no topo dele) pode dar a situação. O pai do rapaz pode "resolver" tudo com grana. Pode comprar o jardineiro para que esse fique preso no lugar do filho. A violência aí é contra o próprio rapaz que, lá pelas tantas, sente alguma força pra reagir à família e ao dinheiro, mas sucumbe... até o jardineiro quer que o acordo se realize! A violência é menos violenta nesse episódio, é mais sutil.. O pai rico sequer rouba, ele compra, a responsabilidade do filho, a liberdade do jardineiro, a conivência da justiça. Mas também o pai rico é vítima da sanha financeira do advogado, do policial, até do jardineiro. Finalmente a violência sutil acaba e o filme volta ao seu curso quando o marido da mulher morta resolve explodir em violência mais direta como os personagens dos episódios anteriores.
O último episódio é fascinante. De novo todo mundo "se conhece" - naquele sentido que estamos usando aqui, ou seja, socialmente. Claro que sabemos que a fundo mesmo ninguém conhece ninguém, nós não nos conhecemos a nós mesmos. O que o filme tem de genial é que sim, nós nos conhecemos, pois nos reconhecemos no outro! Mas, bem à la dialética do Senhor e do Escravo no Hegel, para tanto há que se entrar numa luta de vida e morte onde se situa a possibilidade da consciência. Vejam, a noiva (já casada) traída quer morrer (tenta pular do alto do prédio), mas vence essa luta ao se deparar (atentar eu diria!) para um outro outro que não o marido (um homem que ela reconhece sábio, e reconhece homem, daí transar com ele, o que o marido acaba por assistir). Depois ela quer acabar com o marido, mais que matar, quer destruí-lo lentamente. A descrição que ela lhe faz das violências que fará com ele - as mais reais e comuns do mundo (vou tirar o seu dinheiro, vou voltar os filhos contra você, etc) deveriam nos chocar como chocam ao personagem (justo pelo que tem de real, como o que foi aparecendo aos poucos nos episódios anteriores) que vomita copiosamente. Não satisfeita a noiva volta à festa e acaba com ela! Ridiculariza convidados, machuca a amante do marido, humilha a sogra, etc, mas tudo isso não sem um COM-PADECIMENTO com todos! Todos ali igualmente comprometidos com a "celebração do amor" que todos sabem, de certa forma, falsa, daí a necessidade de ser exacerbada a diversão, a simbologia, etc. Mas o ponto alto do compadecimento é quando marido e mulher se olham, se reconhecem um no outro, autores da violência que infringiram ao outro. A consciência de si só existe nesse reconhecimento. O amor também.
Então, taí a minha tese, ela não elimina outras tantas sobre a violência do sistema, por outro lado, não compactuo de jeito algum com teses sobre a "natureza" violenta (ou qualquer outra) do homem. Os homens são suas relações. Sim, é verdade, nossas relações não andam bem. No trabalho, na família, com os amigos... há pouca intimidade, há pouca vida em comunidade, há mesmo uma luta disfarçada de concorrência econômica, ou de cordialidade civilizada. Mas tudo isto está em crise, as pessoas estão explodindo em violência tamanha a insuficiência de tudo isso. E aí entra a minha tese, a violência talvez seja uma tentativa nossa, desesperada é verdade, de nos tocarmos um ao outro, de nos amarmos.
 
 Glaucia Campregher
 
Leia também: Minha critica sobre Relatos Selvagens 
Leia também: Partes 1,2,3,4,5 e 6.  
 


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